sábado, 5 de março de 2011

O Consolador




 






 

Cristiano Silva Rato*

Paranoia – Cap. 1 do livro primeiro.


Engraçado trabalharem meu canto. Na esquina afino o riso, rasgo o mau cheiro. Aperto sem perceber o beque em minhas mãos. Os olhares tentam se sobrepor. A onda. Os pés mexem, ouvindo a música seca das botinas, ao passarem como marchas esquecidas e hinos de guerra. Proclamo agora a nova república. Proclamo agora o novo reinado. Proclamo agora. O feudo moderno. Líquido. Simulado. Instituo nesse momento, por força da maioria, o novo formato já utilizado.

Parado, no ponto, observo um novo bêbado vomitando. A guerra já começou. As correntes começaram a arrastar-se demais. Tornaram-se lágrimas manchando murros. As ruas da cidade estão infestadas por todos os tipos de vigias. Nós somos o inimigo. Firo todos os dias, as notícias produzidas há mais de cem anos sentenciando nosso destino, escuridão. Passo pelo degrau. Escada abaixo. A mão se apóia, como se fizesse diferença com esse sangue escorrendo pelas veias. As ideias foram domadas. As imagens.

*cristpsilva@gmail.com

Tímidos conceitos sobre eugenia











Fernando Portela*

“Cristiano, não”, disse, convicta, a mulher linda (moreno-clara, cabelos loiros caídos sobre os ombros, olhos verdes febris), à sua amiga Fran. E completou: “ele tem problemas na família.”

“Que problemas, Carla?”

Fran: quase tão bonita como a outra, na forma, mas, coitada, não emanava luz. A beleza de Carla era, podia-se dizer, exorbitante. Vestia um fuseau preto que lhe alongava ainda mais as pernas de passarela, e uma camisa aberta ao colo, deixando entrever pequeninos seios buliçosos, ao ritmo dos seus gestos inquietos. Carla falava com o corpo.

“O pai dele é alcoólatra, Fran. Não vou ter filhos de avô alcoólatra.”

“Mas, querida, acredito que você, como eu, tenha também alguns problemas de alcoolismo na sua família... Isso hoje é natural.”

“Não acho. Depois, sou eu que dou as cartas. Eu que financio. Eu que vou parir.”

“Tudo eu.”

“Tudo eu.”

Fran convidou a amiga a sentar-se. Estavam em uma sala de jantar muito ampla, de decoração rica e impessoal. Fran serviu-se de suco de laranja, tirada de uma jarra fina que melhor comporia uma vitrine elegante de Milão. Ofereceu à amiga, com um gesto. Carla não aceitou.

“Pois eu acho, Carla, que você ficou louca. Esse negócio de escolher pai é meio nazista... Isso é eugenia, amiga! Pô, não basta o cara ser bonito, ter um físico privilegiado, uma cabeça razoável?”

“Quem é assim? Se conhecer alguém com esse perfil me apresente.” A modelo continuava tensa. “Lembra do Dalton? Aquele empresário com quem saí no ano passado? Um dos irmãos dele sofria sabe de quê?” Fez uma cara de nojo. “Vitiligo!”

“Mas, Carla...”

“Você já pensou”, continuou a outra, interrompendo, “o meu filho bicolor?”

“Bem, se for por aí, Carla, você não ficará grávida. Todos nós temos um probleminha, uma herança genética menos feliz, um doidinho, ou alcoólatra, toda família é assim, Carla. Sabe, as famílias reais da Europa antiga? Tudo louco por causa de consanguinidade. No entanto, reinaram. Por séculos.”

A modelo levantou-se e decidiu se servir de um pouco do suco. E o fez com enorme graça, como se a simples ação de segurar um copo e virar uma jarra pudesse ser confundida com uma coreografia. A outra a admirou profundamente. “Não se pode ser linda e inteligente ao mesmo tempo”, pensou Fran.

“Eu não estou namorando ninguém da família real, querida”, disse Carla. “Só quero que o meu filho tenha as melhores chances. Você sabe, Fran, que algumas aves fêmeas escolhem os parceiros de canto mais complexo? É a chance dos seus filhos chegarem próximo da perfeição. Eu estou repetindo a Natureza.”

“Mas os machos, além de cantarem bem, são os mais bonitos fisicamente?”

“Isso eu não sei.”

“Então, Carla, se for assim, escolha aquele escritor com quem você andou saindo, sei lá, há dois anos.”

“O poeta. O Talarico.”

“Este! Um grande potencial artístico, um belo trinado. Não esqueça: você é uma ave seletiva.”

“Aquele cara era anormal.”

“Como, anormal?”

“Na hora do vamos ver pedia que eu gritasse.”

“O quê? Ele batia?”

“Não seria homem pra isso. Queria que eu gritasse que estava me afogando.”
“Aí ele salvava você.”

“Não, morria junto. Completamente louco. Dizia coisas sem sentido, ou, pelo menos, fora do meu entendimento. Muito metido.”

“A crítica adora o cara”, suspirou Fran.

Carla, imitando uma “Vênus tecno”, como a havia definido um colunista famoso, abandonou o copo pela metade em cima de uma mesinha e sentou-se na poltrona ao lado de Fran, que logo lhe passou as mãos nos cabelos – de uma suavidade táctil quase espiritual.

“Nossa, Carla, que coisa esse seu cabelo!... São aquelas algas marinhas?”

“Quer mudar de assunto, é? Fran, estou desesperada. Preciso de um filho. Estou na idade ideal e não tenho espermatozoide disponível.”

“Um estrangeiro, talvez?”

“Não sei. É mais complicado. A gente vive no Brasil. Como pode um pai ficar um oceano separado de um filho?”

“Ah, além de reprodutor você quer que o pai seja humano? Que vá ao parque com o moleque? Compre pipoca pra comer com ele no cinema?”

“Claro, Fran.”

Desta vez, Fran olhou para a amiga com muita pena.

“Querida, desista. Nem os tortos, os loucos e os idiotas são capazes disso, hoje em dia. Se conseguir um esperminha tipo correto já está muito bom.”

“Você só diz isso porque não foi feliz no seu casamento, Fran”, começou a choramingar a modelo, extraterrena até na maneira de enxugar os olhos com as costas das mãos. “Mas eu tenho certeza de que vou achar um homem que me faça feliz.”

Fran levantou-se, séria, e recolheu a jarra de suco de cima da mesa. Sempre se preocupava com a amiga, como se ela fosse uma filha quatro anos mais jovem do que ela. Enquanto entrava na cozinha futurista, Fran começou a pensar em Arlindo, seu ex-marido. Alto, bonito, bom-caráter, ela não se lembrava de doenças graves na família dele... Um pouco ingênuo, talvez, mas, não! Isso era uma impressão dela, exclusiva, talvez ele fosse apenas um homem doce. E, quem sabe, uma eventual ingenuidade o levaria a passear com um garoto num parque. Seus olhos brilharam. Arlindo, seu ex-marido, poderia ser, disparado, o melhor candidato!

Do livro “O homem dentro de um cão”, Editora Terceiro Nome (São Paulo, 2007).

*fatportel@gmail.com

Morte no subúrbio: conto em 6 atos



 








Márcia Barbieri*
 

Ato 1

Depois de três meses adiando, começo a réplica de Lucien Freud. Gosto de pintar durante a noite, as sombras deformam os objetos. Homem nu com um rato na mão. Essa tela me excita. Corpo sonolento, membro descansado. Vertigens. Mil coitos interrompidos. Espermas engarrafados. Água rasa. O rato estrangulado entre os dedos. Abro o zíper. Pau duro. Vejo a polpa branca das jabuticabas percorrendo e saciando o desejo do tronco. Encosto a ponta da língua. Amargo. Porra e vermelho carne escorrem pelos meus punhos em apuros.

Ato 2

Ela me convidou para sair. Éramos confidentes, embora apenas ela falasse por horas, não conhecia sobre nenhum assunto, no entanto, palpitava sobre todos. Era evidente, todo dia me devorava com o olho obsceno da bunda. Fingia não ver, todos viam, não tive como fugir, dissimulei interesse. Ninguém aceita que um homem não coma uma mulher e toda mulher sonha ser bem comida pelo macho que ela escolhe. Em casa, minha mãe perambula pelos cômodos, quer saber se voltarei para dormir. Talvez. Os corpos se saciam rapidamente, apenas o amor tem esse inconveniente de partilhar camas e noites. Tripas de anjos e meninos.

Ato 3

Enfio minha língua em seus lábios. Remexo por dentro dela. Tudo tão diverso. Não me contento. Há sinos repicando em seu útero fértil de puta sagrada. Todos os meus íntimos relógios – anti-horário. Desprezo seus seios, anseio materno. Coloco-a de quatro com força. Volto à infância. Sangue coagulado nos meus joelhos. Muro coberto de cacos de vidro. Os vitrais assumem os mais diversos disfarces. Caio trepando nas árvores. Esfíncter. Quintal de sonhos e merda. Levo-a para casa. Vejo uma triste ternura cambaleando em seus cílios.

Ato 4

Algo me dizia que ele sentia o mesmo que eu. A mesma dor, a mesma vontade de entrega. Quando estávamos perto Ele suava como um animal que traz do nascimento o aniquilamento inevitável da morte. Touros se debatendo nos matadouros. Caio. Não podia mais me enganar, era evidente, desde a primeira vez que o vi. Um anjo barroco do subúrbio. Eu precisava saber. Eu tinha que escutar da boca dele. E escutei: “Você tá louco porra, eu sou homem!!!! Gosto de mulher, sai pra lá bicha du caralho!”. O desafeto é monstruoso. Um peixe engolindo – estuprando o mar. Ventríloquos mudos.

Ato 5

Minha maior tortura foi confessar meus crimes aos pés encardidos do seu ouvido. Olhos de cão em agonia. Babas de raiva - hidrofobia. Não posso mais fingir, omitir o que sou para agradar os delírios de perfeição dos outros. Eu sinto tesão por homens. Reprimi por muito tempo essa vontade quase inata. Não dá mais. Eu me iludi com o Caio, mas isso não muda quase nada. Não altera muita coisa. Vou para o Bar da Lôca e faço muito sexo, sem falsos pudores, como sempre sonhei, sem mutilações. Enquanto como outros homens, penso no Caio. O amor é andrógino, um mar povoado de cavalos marinhos. Suas mãos, seus cascos, um resto de sol, cavalgam no meu sexo. Lembro-me o quanto era difícil espantar as moscas que se distraíam ao redor dos seus olhos de cavalo.

Ato 6

Não posso mais morar aqui. Vou embora. A penumbra agora ocupa o espaço vazio do quarto. A pouca luz que entra pela veneziana escapa pelo buraco da fechadura. Não há grande diferença entre jaulas e janelas. Iago. Iago. Repito exaustivamente até formar um nó cego na garganta. Espero o eco devolver uma imagem sinuosa de mim mesmo. A mala, as frutas esmagadas, o cachorro enterrando ossos. Os olhos da jabuticabeira encravados na minha carne gasta. Pego uma tela. Natureza morta. Hoje eu sei: a saudade é uma morte camuflada e morremos todos os dias na gordura solitária do ralo.


*marcia_barbieri@hotmail.com

Prova verde e amarela











Eduardo Sabino*


Quem fechava as provas não podia ser camisa dez. Ou o sujeito era passador de cola ou jogador de bola. Na escola valia a lei da lábia dos folgados. O resto era gado, gente que nasceu para ler, decorar e tirar dez. Para os malandros, era assim: quem driblava no recreio não podia entregar a prova lisa. Aí entrava o Caxias. Aquele cuja prova de Biologia sofria meiose, mitose e se multiplicava pelas carteiras. Rafael recusou o cargo na primeira semana de aula, quando se transferiu para aquele colégio. Jamais compartilhou uma resposta. Mesmo com os papeizinhos circulando, os cutucões nas costas. Quando saíram os primeiros resultados de Física, os malandros não aguentaram. Caíram no tapa com o amarradinho. Invocou Newton várias vezes: “ação e reação”. Quem batia, levava. Só assim conquistou respeito.

Queria mesmo era matar uma bola no peito, aplicar um balãozinho, estufar a rede. Tocar de letra, dar voleio, matar a sede. Atrás do aro dos óculos, um caso raro de paixão futebolística.

Sacro segredo, o coração redondo. Rafael brigou com os boleiros e caiu nas garras dos CDFs. Difícil falar de futebol perto dos novos amigos. E o risco de ser riscado? As imagens às vezes escapavam, e se pegava perguntando aos nerds se viram o que o Fenômeno fez no fim de semana. Nenhuma surpresa entre eles. Logo conversavam sobre os estragos do El Niño e as causas e efeitos das mudanças climáticas.

Rafael foi se fazendo sombra verde e amarela, dividida entre as leituras e os jogos de futebol da tevê.

Aula de Educação Física, um dia de vingança. Ou de pequenas alianças entre malandros e nerds.  Quem passava cola podia jogar. No gol. O professor não se importava. Trazia a bola e saía feito bala para treinar as meninas do time de vôlei.

Rafael fingia tranquilidade. Um livro selado. Enxergavam dele apenas o colorido da capa. Por dentro um reserva em final de Copa.

O grupinho de nerds se animava. “Vamos jogar algo que valha a pena, Rafael”. E dá-lhe dama, baralho, adedanha, jogo-da-velha. Jogava calado, de luto, quique a quique mais puto. Olhava de banda. A bola rolando... Aquela vontade de bater um tiro de meta com o cú do mundo.

O desejo de jogar virou entrelinha de prova: nas de Matemática, X e Y sempre batiam uma bolinha. Em Geografia, Rafael estacionava nos campos gramados. Nas de Química, calculava a vibração da massa depois de um gol. No teste de Geometria, pintou um ponto no ângulo reto (golaço!).

A salvação veio na degola do professor de Educação Física. Descobriram: ele economizava suor durante as aulas para gastar com as peladas. As do banheiro feminino.

Veio o professor substituto, o Jorginho. Chegou mudando as regras, pondo os malandros com as pregas na mão. “Todos vão jogar de agora em diante”. Os nerds recusaram a oferta, futebol não era o forte deles. Foram obrigados a jogar peteca. Mas Rafael não quis saber de rixa. Tirou os óculos, se aqueceu e entrou na quadra, onde o quadro não era dos melhores, arena de touro bravo.

Bola rolando, partiu para o ataque, mostrar que era artilheiro. Primeiro a marcação pesada, lambada na perna. Tomou falta até de jogador do próprio time.

Resistia. Lançava-se pela lateral, acompanhava os lances, jogador objetivo, mas sem meios. Rafael não recebia bola de ninguém, o toque só vinha em forma de porrada. Virou juiz, mas sem apito, cartões e autoridade. Um jogador-pássaro pedindo o passe, experimentando todas as posições, enquanto os outros, entre risos, encaminhavam a pelota para longe dele.

Mas São Garrincha escreve certo com pernas tortas. De repente a bola espirrou numa dividida e caiu no pé do nerd. Chegou devagar, mansa, para consolar o jogador fantasma. Parou na sola do pé direito, ali mesmo, como um cachorrinho piedoso.

Não sabia o que fazer com ela. Se a tocasse, não mais a teria. Os outros começaram a zombar, achando ser a paralisia nervosismo de perna-de-pau. “Toca aqui, toca aqui”. Todos os garotos pediam a redonda: os do seu time, os adversários, até os goleiros. E ele congelado. Estátua olímpica.

O primeiro oponente foi um valentão metido a bom, mas perneta. Rafael acordou. Protegeu com a direita, puxou com a esquerda: uma caneta. Aí veio o segundo, entrando fundo com a sola do pé. Chutou chão. O nerd levantou a bola, deu um chutinho e emendou o balão.

Dominou no peito, pôs no chão. Ergueu a cabeça, os olhos soltando fagulha. Pedalou pra cima de dois, passou costurando feito motoqueiro-agulha. No final do balé, o goleiro saiu da área. “Me dá essa bola, babaca!”. Passou lotado no drible da vaca. E o gol que o Pelé não fez, o nerd converteu. Depois do chute, de trivela, ela foi morrer no canto esquerdo.

Rafael abandonou o jogo, colocou os óculos. Subiu as arquibancadas para cair nas graças da torcida imaginária. Nem medalha de ouro ou taça, nem placa, nem diploma. O maior troféu de sua vida: aquela partida, o silêncio absoluto que assombrou os colegas.

*eduardosabino@caoseletras.com

Memória e poeira











Joaquim Moncks*

O poeta é o natural caricaturista dos viventes bem sucedidos e faz a sua alegoria em cima do dinheiro que não acredita bem havido. É a seta que fere os todo-poderosos da ordem econômica de sua época. Acredita que pode virar pra melhor o estado de coisas. Este ser espiritual é o bobo-da-corte em qualquer idade... Tão inútil quanto diretamente inofensivo. A inutilidade imanente à Poesia faz com que ele seja tolerado como um cão desdentado que ladra a mais não poder. “... Deitei fora a máscara e dormi no vestiário/ Como um cão tolerado pela gerência/ Por ser inofensivo...”, lavrou F. Pessoa (Álvaro de Campos) em seu monumental “Tabacaria”, poema de 1928. A esse ser analítico compete a sátira bem ou mal-humorada dos costumes de seu tempo de viver. Nos momentos difíceis de falta de liberdade, os ditadores de plantão os condenam à morte ou ao exílio. E tentam safar da memória do povo os seus agora nem tão inúteis recados. E é no tempo do devir que ficarão alguns na memória de seus contemporâneos. De muitos nada restará. Nem poeira...

– Do livro O novelo dos dias (2010/11).

*joaquimmoncks@gmail.com

Do corpo e da alma


 









José Carlos Sibila*

Honório Junqueira era o nome dele. Todo mundo conhecia Seu Honório naquela cidadezinha. Mais afazeres não tinha, vivia de uma considerável herança de família e como a sorte não chega pouco, ainda ganhava um bom dinheiro com o leite da fazenda que era vendido em toda a região. O leite vinha da vaca, que engordava com o capim que vinha da terra. Tudo assim, de mão beijada. Mas não era pessoa de grande ostentação. Vivia recluso em seu casarão. O povo dizia que dentro daquela casa velha, que de idade já ia para mais de cem, tinha pelo menos umas  trinta pessoas, mas ele jurava que ali só vivia ele e sua esposa, Dona Cota, como era conhecida por todos. O sobrenome dela, antes de ser Junqueira, ninguém sabia. E ela nem fazia questão de informar. Dizem que nem ela mesma sabia. - Pra que mais nome - dizia ela - se os dois que tenho são mais que suficientes.

Mas o fato é que Dona Cota tinha viajado até a capital para fazer um tratamento de saúde. Era a maldita asma, que piorava com a mudança do tempo e a insistência da poeira que cobria a cidadezinha de meia dúzia de ruas de terra batida. Nos dias que a boiada passava ou que a jardineira 1929 vinha trazer comerciantes, então é que a asma da esposa do Seu Honório ia mesmo ficar ruim.

Quatro dias de viagem até a capital, com outros tantos para voltar, mais os dez que lá ficou, somaram dezoito na matemática do esposo. Mas só na matemática, pois que na solidão e na saudade os dezoito pularam para a eternidade.

Mas o dia da volta havia chegado. Seu Honório fez exceção ao seu recato e chamou até uma bandinha para tocar na porta de entrada do casarão.

Os músicos, que eram todos das redondezas vinham chegando, cada um carregando seu instrumento. A tuba foi a primeira e foi logo se afinando. Sem mais tardar o surdo respondeu. A flauta logo ajuntou e o violino não se fez de rogado. Os pratos estalaram e as notas começaram a animar a entrada do edifício.

Lá dentro só mesmo Seu Honório, apreciando alegremente o burburinho, tentando acalmar sua ansiedade pela chegada da esposa.

Tudo corria como o certo estabelecido até que se ouviu uma voz:

- Não estou gostando dessa gentarada aqui não.

Seu Honório quase caiu da cadeira de balanço, que insistia em enxergar a estrada no horizonte.

- Quem falou isso? Resmungou com raiva pela insolência do intruso e medo daquela voz que lhe soou familiar.

-Fui eu.

-Mas eu quem homem de Deus?

-Eu, Honório.

-Mas Honório sou eu. E não me lembro de ter mais alguém com esse nome aqui na cidade.

- Vai me desculpar - acrescentou a voz - mas eu sou Honório.

- Honório do que? - Perguntou Seu Honório.

-Honório Junqueira.

-Mas o que está acontecendo? Você entrou aqui sem ser convidado, fica escondido que eu não te vejo com os olhos, usa meu nome e ainda quer o nome da minha família?

- Tudo isso que você falou é meu, não seu- respondeu o outro Honório.

-Olha aqui seu atrevido. Cai fora logo que eu estou esperando minha esposa e não quero ninguém para estragar minha satisfação.

Do lado de fora, os músicos e os mais chegados viam apenas o Seu Honório falar sozinho, gesticulando e esbravejando sabe-se lá com quem. O certo é que já começavam a ficar com medo, pois na cidade não havia um único vivo que não achava que na casa tinham uns que eram mortos.

- Você que vá esperar em outra parada, pois aqui é o meu lugar de espera e a recepção hoje quem vai fazer sou eu. - falou aquela voz que parecia tão doméstica.

- Quem você está esperando?- questionou Seu Honório -.

- E você, a quem está esperando?

- Minha esposa, que há muito tempo não vejo.

- E eu estou esperando a minha, que há muito tempo também não vejo.

- Não vai me dizer que ela viajou para tratamento médico?

- Asma.

- Mas quem foi tratar da asma foi a minha- esbravejou Seu Honório de tal forma que na rua não ficou mais ninguém e a boataria pegou carona no vento e subiu cidade afora.

- A asma é democrática, não pertence a uma pessoa só.  respondeu a voz mantendo a serenidade.

- Mas aqui nessa casa só uma pessoa tem asma e é uma mulher e essa mulher é minha.

- Mas se a casa é minha por que sua mulher viria ter asma na minha casa?

-Olha aqui - falou Seu Honório tentando se acalmar - A asma é da minha mulher, a mulher é minha, a casa é minha e faça-me um favor, ou você vai embora ou me arranja uma idéia que me explique o que está acontecendo.

- Só pode ser uma coisa.

Os dois falaram juntos:

-Estamos falando da mesma mulher.

- O nome da minha é Cota.

-O sobrenome da minha é Junqueira.

- Mas esse é o sobrenome da minha Cota.

- E Cota é o primeiro nome da minha Junqueira.

- Então nós dois estamos casados com a mesma mulher há mais de trinta anos?

-É desajuizado. Se fosse uma amante ainda vá lá. Mas ela viveu comigo como esposa.

- E comigo também.

- Mas como pode, enganar a dois homens durante mais de trinta anos?

- E embaixo do mesmo teto?

Seu Honório fez uma longa pausa e de súbito resolveu olhar pela janela. Virou-se para os dois lados da rua e não viu mais ninguém, nem mesmo os músicos. Como se tivesse achado o acontecido voltou-se para o seu interlocutor invisível:

-Descoberto. Você é um fantasma. Não sobrou ninguém na rua, nada, só as moscas e uma cadela vira-lata.

Então só pode ser isso, Fantasma. Você é um fantasma.

-Fantasma eu não sou, pois ainda não morri. Vai lá no cemitério e procura o túmulo de Honório Junqueira.

- Eu sei que com esse nome eu não vou encontrar.

- Claro, e é porque eu ainda não morri.

-Não, não é por isso. É porque Honório Junqueira sou eu.

-Como pode ser você se sou eu?

-Espera- falou o invisível- Você pode me ver?

-Se tivesse você sob meus olhos já tinha te matado- Respondeu Seu Honório-.

- Mas eu estou te vendo.

- Isso só pode ser uma coisa.

-Exatamente, então eu devo ser sua alma.

-E eu o seu corpo. Bem, isso resolve o nosso problema.

- A Cotinha não me traiu. Ela é minha.

- De jeito nenhum. É a alma que manda no corpo, portanto a Cotinha é minha.

- Eu sou corpo, é minha.

-Ela é da alma.

Os dois continuaram naquela discussão e nem perceberam que Dona Cota Junqueira havia chegado e ao ver que seu marido gritava com alguém que ela não podia ver e dava socos no ar tentando atingir o invisível, saiu correndo e foi se juntar aos outros habitantes que estavam todos na igreja rezando pelas almas.

* José Carlos Sibila é roteirista e diretor do longa-metragem Eva e de vários curtas-metragens, incluindo O Grito da Terra, um vídeo ficcional com a temática dos sem-terra. Autor de peças teatrais, entre as quais Teto de Lona, Proteu, A eleição da mãe de Jesus, que já foram encenadas. Autor dos livros Criaturas (Editora Nativa) e  Personagens (Virtuallibrii), entre outros. E-mail: jcsibila@yahoo.com.br.

A morte de Deus, de Cristo e do homem











Márcio Almeida*


"Ai dos homens que matam a morte por medo da vida!" - Vinicius de Moraes

A Semana Santa é o evento em cuja ocasião o ser humano se reconhece insignificante dada sua finitude. Se ao morrer Cristo desencarna a própria eternidade do homem, morrer é o sentido da vida. A morte do homem Cristo sacraliza a vida eterna. O homem é mortal, ou seja, o homem é a morte que se espera. Frente ao impasse apocalíptico de a morte ser inapelável, invencível, então o que resta ao homem é morrer em paz – livrar-se do inferno da vida, da angústia da finitude, do sentimento de culpa que condena a vida a ser para sempre um eterno castigo. Daí poder se perguntar: ser eterno para quê? Porque a eternidade é a “certeza inacessível”, pois, pelo contexto religioso, a morte não deixa a vida para trás. Ela leva junto uma certeza: só Deus é insubstituível. Para haver eternidade é preciso crer na própria morte, pois para a vida eterna a morte é o próprio sentido da imolação de Cristo aos homens. Há que pensar, porém, em algo mais profundo do que a morte em função de uma “eternidade preguiçosa”, incapaz de provocar transformação universal. Porque o homem não nasce para simplesmente morrer em meio a um círculo vicioso, ou para, após morto, ser sêmen de nada. A menos que se pense como Pascal, para quem a morte é “soberba potência”, que “faz da eternidade um nada e do nada uma eternidade.”

A fé tem que justificar a eternidade do homem enquanto o homem vive, tal como fez Cristo. Porque Deus nada faz para o homem ser eterno. A morte é a possibilidade desse privilégio. “O medo da morte é a origem de Deus” (M.Blanchot). Por isso é preciso morrer bem, com decência, com ética, fiel a si mesmo, com uma predestinação feliz. A mesma divinamente decantada com  perfeição poética latina pelo Doutor Angélico São Tomás de Aquino em seu hino entoado no Sábado da Aleluia: "Oh culpa feliz que nos fez merecer tal e tanto redentor".

A morte de Cristo reafirma a grandeza da vida por superar a tragédia de tudo que limita e escraviza. Epicuro disse: “Se tu és, então a morte é.” A morte é assim a “purificação da ausência”. Ela é, a partir de Nietzsche, a potência do negativo, porque, ele diz na fala de Zaratustra, “o homem é algo que deve ser superado.” A morte é a “profundidade hiante”, de que fala Mallarmé, ou seja, a superação do que anula a resignação na luta do homem em meio às incertezas de sua vida ser um abismo para cima. Por isso Rilke escreveu ser preciso “reforçar a familiaridade confiante na morte a partir das alegrias e dos esplendores mais profundos da vida.” Annie Rottenstein pontua que há cerca de 60 mil anos a.C nasceu o homo sapiens sapiens com dupla sabedoria: a de saber transmitir o seu conhecimento e saber que vai morrer. E que por essas razões a consciência da morte tornou-se, para sempre, o eixo civilizador da humanidade, sendo também o que justifica os mitos e ritos como busca de respostas para explicar a ânsia de sentido.

Os efeitos da morte de Cristo hão que suplantar a ingenuidade dogmática de uma salvação do pecado, ainda que, segundo Atos, 2:23, a morte de Cristo obedeça a um determinado conselho e presciência de Deus. Para ser perfeito e reinar absoluto, sustentava Perseu, discípulo de Zenão, Deus nem precisa existir, pois Deus não pode ser maniqueísta como os homens, porque Deus não condena nem absolve - essas ações são típicas da mesquinhez humana baseadas em leis transgredidas a todo momento. A deslegitimação é o que provoca o caos na ordem de Deus, mas antes, no cotidiano humano.

No culto hebreu, havia um lugar chamado de propiciatório, onde o sacerdote colocava o sangue do cordeiro para implorar a Deus perdão para os homens de má vontade. Hoje, o propiciatório está no sangue derramado pelos crimes que matam inocentes nas ruas, na violência doméstica dos lares, nas guerras étnicas e religiosas. Está na realidade de quem morre simplesmente de fome, na pressão psicopata dos suicidas, na corrupção sacana dos sanguessugas que vivem (bem) sugando o sangue alheio. Está na imagem mórbida das prisões, cuja superlotação comprova os reflexos das (in)diferenças sociais. “Cada qual morrerá por sua própria maldade” (Jeremias, 31:30). Ao se tornar Redentor, cuja palavra significa o que resgata a dignidade da vida, Cristo cumpre uma missão humana, antropológica – a de ligar o homem ao homem – soteriológica – a de salvar a humanidade do caos absoluto. E, ao fazê-lo, segundo reflexão de Rilke, Cristo torna real “realizar a maior consciência possível de nossa existência.” 

É sagrado aquele que não se profana. Hegel tem razão: ”Com a morte começa a vida do espírito.” Sexta-Feira da Paixão: Deus está morto. Graças a Deus. Amém.

Ps.: além das Bíblias, quem estiver a fim de se enriquecer em nível de conhecimento a respeito da morte, recomenda-se ler: Como deixei de ser Deus, de Pedro Maciel; O espaço literário, de Maurice Blanchot; A morte do homem comum, de Philip Roth; Elegias, de Rainer Maria Rilke, Ecce homo, de Nietzsche; A morte de Ivan Ilitch, de Liev Tostói; História da morte no Ocidente, de Philippe Aires; Biotanatologia e bioética, de Evaldo Dassunção; Morte, de William Butler Yeats; Igitur, de Mallarmé, entre outros.

*marcioalmeidas@hotmail.com

Tiririca, o Sério









 


Alessandro Faleiro Marques*

Talvez pela costumeira falta de foco, incompetência ou por “ordens superiores”, a imprensa nacional e até a estrangeira estão apontando excessivamente os holofotes para o deputado federal que mais ganhou votos no Brasil, o Dr. Francisco Everardo Oliveira Silva, o palhaço Tiririca. Nos últimos dias, as jocosidades diárias ganharam fôlego depois de o Dr. Tiririca estrear na Comissão de Educação e Cultura da Câmara. Logo ele, dizem alguns, suspeito de ser analfabeto e ter de passar por um exame para comprovar o conhecimento da língua que ele e nós usamos desde pequeninos.

A Carta de 1988 reforçou o direito de cidadãos se candidatarem a cargos eletivos, respeitados alguns requisitos. Jornalistas, comentaristas e pseudointelectuais estão com as lentes viradas para um único lado. Doutor Tiririca, sustentado pela norma legal e moral, apenas exerceu seu direito. Candidatou-se e foi votado. A maioria de nós tem essa prerrogativa. Por parte desse artista, não houve coação de eleitores, abuso de poderes econômico e político, sequer tinha a ficha suja (pelo menos até agora).

Mais do que fazer chacota do parlamentar, os palpiteiros, profissionais ou não, deveriam começar a analisar quem o mandou para Brasília: as centenas de milhares de eleitores paulistas, muitos certamente nascidos nos mais diversos cantos deste País. Gente que desconhece a importância do processo democrático e vota por votar. Pela democracia é que estamos assistindo ao sangue jorrar em várias partes do mundo, em especial no Oriente Médio e Norte da África. Brincar com ela é zombar, e isso não tem graça.

Sua Excelência disse que defenderá os direitos dos palhaços e apoiará a causa dos circos. Lembro-me de que o caos em que se encontravam esses locais de diversão foi tema até de um Globo Repórter. Alguém tem dúvidas de que o espetáculo circense é uma louvável face de nossa cultura?

Questiono os motivos de não haver o mesmo rigor com outros políticos, inclusive os escolhidos em outros tempos. Os palácios por este Brasil estão cheios de “artistas”. De dono de castelo encantado a driblador, dos que se acham deuses, grandes dançarinos ou cantores aos sonhadores (talvez estes sejam até necessários), dos mágicos aos vilões. Numa democracia, deve-se lembrar de quem foi votado e de quem votou, e ambos devem cobrar e serem cobrados.

Doutor Tiririca, à Vossa Excelência os meus respeitos.

* faleimar@hotmail.com

Muitos de nós











*Rafael Alves Cunha
                                              
No meio do caminho havia uma ratazana. Passou como um raio por uma senhora, fez um bêbado tropeçar, foi chutada por um estudante e, mesmo assim, alcançou a sarjeta. O odor transformava o banco do ponto de ônibus em um objeto sem utilidade. As pessoas se concentravam próximas ao semáforo. Nem tão perto da sarjeta que ficassem enjoadas, nem tão longe que, vez ou outra, não fossem obrigadas a prender a respiração.

Andamos por todas as ruas. Barzinhos, sebos, shoppings, lanchonetes, boates e puteiros. Talvez exista diversão no purgatório para quem tenha tempo para gastar. Nós, os passageiros da barca de rodas, nesta manhã de agosto, no carro 4062, não temos mais tempo. Já vendemos tudo. Trocamos nossas horas por palavras e ferramentas.

Estudar e trabalhar. Não nos diga que isso não é vida. Já sabemos: a vida está nas páginas do livro de autoajuda. Não é mais segredo para ninguém. É dádiva dos vitoriosos e um dia venceremos também.

Ônibus lotado, de segunda a sexta. Os semblantes amarrotados, olhos vazios. Ninguém olha pela janela, não há nada para se enxergar além de calçadas, mendigos e prostitutas.

Os nossos olhos emitem qualquer coisa fugaz, nascem e morrem a cada outdoor. As propagandas sempre falam de coisas e lugares feitos para nós e fora de nosso alcance. Essa distância aperta o peito. Vem a angústia, dá vontade de ser mais. 

Somos operários por nossa própria natureza.

Correria de olhos em livros, a despeito do trânsito empacado. Capital intelectual, não é o que dizem? Acompanhar as mudanças, aprender. Nem precisamos mais pensar em revoluções. Basta  criar a força positiva para ascender no sistema. Subiremos de classe como um foguete aos céus.

Estamos pareados, espalhados pelo corredor, pressionados contra a vidraça. Corpos lutando contra a Física, cada qual brigando por um lugar no espaço.

Desiguais em espírito, poderíamos criar um sistema igualitário?

Deixemos as cabeças abertas para receber o conhecimento. No despejo da terra fértil não deve vir tanto entulho.

A massa do bolo humano se torna maior a cada ponto. Antes do centro da cidade ninguém vai descer. A buzina adormece nos ouvidos. Não incomoda mais.

Só queremos chegar em casa logo. Só queremos que chegue a sexta-feira com todas as suas promessas. Agora estamos numa pior. Mas estamos anotando tudo o que eles estão dizendo. Para quem está sentado não é difícil fechar os olhos e dormir. Poucos de nós preferem encarar a estrada congestionada. Os que o fazem têm o olhar distante como um sonho. Quando estivermos lá em cima, olharemos dessa maneira para tudo o que estiver embaixo.

Rafael Alves Cunha é universitário e aprendiz de escritor. Reside em Belo Horizonte-MG. Contato: rafelalvescunha@yahoo.com.br.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Pires











Carla Giffoni*

Ele é um pires. Um pires que não faz parte de nenhum conjunto. Não tem como família nenhum bule de café, nenhuma xícara ou açucareiro. Não é sequer par de um pequeno bule de leite. Não tem ninguém para lhe fazer companhia.

É um pires bonito. Não excepcional. Isso não. Mas é um simpático pires que está ali na feira hippie, dessas que vendem quinquilharias antigas.

Um pires solitário com ar de quem não foi criado na pós-pós-mudernidade. Nasceu num mundo em que o conceito de designer sequer tinha sido pensado. Um mundo artesanal em que o bonito era bonito e pronto. A feiúra não era nunca considerada como sendo bela, e as pessoas carregavam certezas absolutas que mudavam instantaneamente.

Branco, com pequenos detalhes dourados, esses aspectos lhe dão um jeito de nobreza decadente. Não é um pires feminino, desses que as mulheres da elite econômica usam ao se reunirem com as amigas para tomar chá e falar das últimas modas na Europa enquanto a guerra campeia nas ruas.

Não, ele certamente não é um pires que se sirva para esses fins.

Quem sabe com seus ares de aristocrata empobrecido não tenha sido par de um conjunto cujo dono fosse um grande intelectual? São conjecturas que ninguém tem certeza se são verdades ou mentiras. Mas olhar aquele pires, tristemente solitário, faz qualquer pessoa levantar suas suspeitas. Afinal o que aconteceram aos seus pares?

Quem foi seu dono?

De onde vem?

Para onde vai?

Perguntas que fazem parte da natureza do homem.

O pires não dá respostas. Mas é possível imaginar sua existência solitária, seu jeitão encalhado a olhar quem passa com a certeza de que dificilmente será comprado.

Se ainda fosse um prato!

Mas não. É apenas um simples pires com um passado desmemoriado.

Ninguém falará: Getúlio Vargas bebeu nesse pires. Ou, princesa Isabel comeu nesse pires.

Triste é a sina de quem é pires na vida.

Quem nasceu para ser par, mas a existência lhe fez uno.

Quem poderá dizer seu destino?

Será vendido?

Ficará encalhado?

Ou algum gato mais desavisado passará por ali, esbarrando nele e levando-o ao chão?

Mil pedaços quebrados. Fragmentos de uma história que ninguém contou se perdendo entre os paralelepípedos da rua.

*Carla Giffoni tem 16 anos de experiência como jornalista atuando nas Editorias de Política, Polícia, Cultura e Cidades, revistas, sites, jornais e emissora de TV. Pós-graduada em Jornalismo Cultural e graduada em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo. Aluna do curso de Letras/Formação de Escritor da PUC-RJ. Contato: carlagiffoni@yahoo.com.br.

Pequenos milagres sem registro











Fernando Portela*

Para Martha Gallego Thomaz

Alguns meses antes, eu nem teria me concentrado e posto a mão sobre a cabeça da criança, pedindo a Deus que a fizesse retornar à vida. Não ousaria. Mas a expressão da menina, que devia ter uns oito anos e parecia muito mal, me comoveu. Esquálida, largada no catre, revirava os olhos como se ensaiasse a própria morte. O pai, um desempregado, chorava baixo; a mãe e a avó, muito alto – a avó me pareceu histérica; os irmãos, todos mais velhos do que a menina, brincavam de alguma coisa dentro do barraco imundo.

Após o meu toque, a menina fechou os olhos (“morreu”, eu imaginei), ficou assim uns dez minutos, aspirando pesadamente, depois acalmou a respiração, os olhos se abriram e ela, até com uma certa agilidade, se sentou na cama. Olhou para mim e para os pais, sorriu e disse: “estou boa”.

Confesso: foi uma grande surpresa, tanto para mim quanto para os pais da criança, vizinhos e amigos. Era o terceiro milagre. Eu conseguira reviver um velhinho, um mês antes, quando ainda andava pelo Paraná. Ele se engasgara com um pedaço de bife, coitado, talvez pela ansiedade com que engoliu a comida, coisa rara. Estava roxo e já não respirava, quando cheguei. Levantei-lhe meio corpo, no seu colchão fedido, bati-lhe nas costas, ele cuspiu longe o pedaço de carne, teve um ataque de tosse, e voltou, reclamando. “Cadê meu prato? Cadê meu prato?” Eu e os circundantes não pudemos deixar de rir.

E há três dias, nessa mesma estrada que dá acesso aqui, à favela, fiz levantar um sujeito destroçado, dentro de um fusca, que uma jamanta havia jogado longe e nem parara para conferir. A mãe dele me pediu intercessão.

“Seu Thomaz”, ela disse, agarrando-me pelo braço, “eu já soube da sua fama, sei que o senhor cura os doentes e faz com que os mortos voltem à vida. Meu filho não se mexe dentro do carro dele, destruído lá na estrada. A mulher dele está grávida do segundo neném, é uma moça doente, e eu não tenho como sustentá-los. Eu sei que ele saiu bêbado com o carro, mas é um bom rapaz e merece uma chance.”

“Pode deixar, dona, se Deus quiser ele se salva.”

“Mas é o senhor quem tem de fazer a intermediação.”

O rapaz parecia, realmente, um monte de carne sangrenta, preso às ferragens do fusca. Me concentrei e pedi. “Jesus, quantas vezes o senhor não fez isso durante sua passagem pela Terra? Atenda aquela mãe e faça este rapaz voltar.”

De repente, o que era carne sangrenta virou apenas ferimentos profundos, o rapaz se mexeu e conseguiu se livrar dos ferros. As pessoas que estavam perto, inclusive o guarda rodoviário que já chamara a ambulância, fizeram o sinal da cruz. “Quem é você?”, o guarda me perguntou, a expressão atemorizada. “Um andarilho”, respondi. “Meu nome é Thomaz.”

Agora, foi a vez de curar a menina quase morta na favela. A avó perturbada ajoelhou-se aos meus pés e agradeceu, soluçando.

“O senhor é o nosso milagreiro!”, ela gritava, e eu me senti contrafeito, pois as pessoas começaram a me tocar e a pedir graças. Duas mocinhas queriam casar, um rapaz implorou apenas um emprego, “qualquer coisa”.

“Eu preciso ser forte, Senhor, para suportar essa prova”, disse a mim mesmo, sentindo medo. “Sou imperfeito demais para imaginar que posso, de fato, ser veículo de um poder divino.”

Aos poucos, as pessoas foram se afastando, ainda reverentes, e eu fui obrigado a me livrar, com um empurrão, de um sujeito seboso que me veio pedir reza para ganhar uma empreitada. “Sai de mim, cara!”, foi apenas o que disse, mas o homem, com um hálito pesado de bebida, afastou-se meio assustado.

Talvez eu metesse medo, mesmo, por causa da minha aparência. Precisava tomar um banho, conseguir umas roupas melhores. O policial rodoviário só deixou que eu chegasse próximo do fusca acidentado por causa da pressão dos populares. “Que é que esse mendigo vai fazer aqui? O que ele vai mudar no cadáver?”, perguntava o policial, quase rindo.

Do lado de fora do barraco, onde deixei a menina ressuscitada conversando com os pais, quedavam-se os meus quatro seguidores: Tomilho, Anacleto, Ramiro e a moça Vivinha. Eu não quis que eles andassem atrás de mim, chamando-me de mestre, mas eram andarilhos como eu, não tinham destino, esperança ou família. E aceitavam rezar e rezar, que era só o que eu pedia que fizessem, para acabar com o sofrimento das pessoas.

Quem anda pelas estradas sabe que só existe sofrimento, dos postos de gasolina aos pequenos sítios, passando pelas cidadezinhas: todo mundo precisa de médico, os adolescentes ainda não acreditam em aids, bandidos e vítimas de bandidos são uma mesma família, interligados por ignorância e carência. Até os religiosos são mais sofridos à beira dessas estradas do nosso país.

“Vivinha”, eu puxei o assunto, uma vez mais, para a moça tão bonita, e tão meiga, que começara a nos seguir na semana passada, “você não tem de vir conosco. Você pode não se sentir bem. Nós somos respeitadores, disso não tenha dúvida, mas somos homens e não temos onde pernoitar, nem para onde ir…”

“Eu vou com vocês”, respondeu com um sorriso. Ela parecia muito segura das suas opções, sempre.

“Tá bom, então vamos seguir”, eu disse, fazendo um gesto com a cabeça para que retomássemos o caminho. Havia dias em que andávamos mais de vinte quilômetros sem parar. Chegava uma hora, na verdade, em que as pernas se mexiam automaticamente, e nos entregávamos aos nossos sonhos. Sequer ouvíamos o ronco dos motores nas estradas. Eu queria que os outros não sofressem, mas Tomilho só pensava na Argentina. “Um dia vou chegar lá, e ver aquelas vacas muito gordas, com aqueles peitos enormes. Um argentino vai-me deixar mamar diretamente naqueles peitos.” Anacleto nos dizia que o sonho dele era esquecer o passado, mas não sabíamos nada dele, nem eu perguntei. E os outros dois, o Ramiro e a Vivinha, nunca revelaram qualquer detalhe das suas vidas. Eu temia um pouco pela moça. Anos atrás, logo que comecei a andar pelas estradas, acercou-se de mim uma outra mulher, mais velha e não tão meiga como a Vivinha, mas com uma grande disposição de ajudar os outros, sobretudo os bichos que sobreviviam aos atropelamentos. Andamos, juntos, durante mais de três meses. Dormimos lado a lado, mas nem eu nem ela, que dizia chamar-se Ercília, tocamos um no outro. Naquela época eu já me considerava um monge moderno, e já havia tomado minha profissão de fé. A castidade fazia parte dela.

Um dia, lá íamos nós, eu na frente e Ercília a uns vinte metros, acompanhada de mais de dez cachorros apaixonados, quando duas picapes muito grandes frearam, cantando pneus, bem adiante de nós, no acostamento. Homens jovens e bem vestidos pularam para fora dos dois carros. Queriam Ercília. Nem me assustei. Eu já havia visto de tudo naquela vida. Vira homens ricos, em carros importados, que estupravam andarilhas. Caminhoneiros que nos torturavam só para se divertir. Quando acontece algo assim – como aqueles rapazes pulando das picapes – a gente sempre oferece a Deus nossa hora.

“É ela, pai!”, gritou um dos rapazes, apontando Ercília pra um homem muito alto, de cabelos completamente brancos. Os outros cercaram a moça, que tentou fugir, fazendo com que um automóvel, desviando-se dela, quase provocasse um acidente.

“Pegue! Pegue!”, gritava um rapaz para outro.

“Minha filhinha!”, o homem mais velho se aproximou, chorando.

Um dos irmãos de Ercília, que não tinha este nome, e que de vez em quando fugia da família para andar pelas estradas, ainda tentou me bater, como se eu tivesse algo a ver com as opções dela. Ela gritou que eu era apenas um amigo, e o pai se aproximou de mim, ainda choroso, e agradeceu por ter tomado conta da “minha menina”.

“Sua filha é uma pessoa muito boa, ajudou todo mundo na estrada”, eu depus, sereno.

Ercília chorou muito ao se despedir de mim, e acabou levando um dos cães, o mais feio e doente, junto com a família.

Eu temia que Vivinha fosse um caso idêntico e dobrei minha vigilância sobre os outros, para que não lhe destinassem nenhuma iniciativa sexual. Cheguei a conversar com eles sobre o assunto, e eles reiteraram fidelidade e obediência.

“Por mais que o senhor não queira”, disse-me Ramiro, “o senhor é o nosso mestre e nós vamos fazer tudo o que o senhor mandar.”

“Será que, um dia, nós também vamos poder curar os doentes, e reviver os mortos, como o senhor?”, quis saber Tomilho.

“Não se preocupem com nada disso”, eu lhes disse, “dentro de pouco tempo iremos para o sacrifício, vocês e eu.”

“Como, mestre?”, Anacleto assustou-se.

“Vocês acreditam que os verdadeiros donos deste mundo, os líderes religiosos, a polícia, os políticos e os bandidos vão permitir que um andarilho, ou um mendigo, e seus amigos, consigam produzir milagres?”

“Mas o senhor começou a fazer isso…”, ponderou Tomilho.

“Mas não tenho certeza se vou continuar… Não seria lógico, não há clima para fenômenos, ninguém quer saber de milagres e só os pobres acreditam neles. E mesmo os pobres, hoje em dia, querem mais é morrer. Cumprir a missão neste planeta está cada vez mais difícil. E nós somos privilegiados, somos andarilhos, vivemos para nós mesmos. O que vocês fariam se fossem o pai daquela família, a da menina quase morta, e vissem seus filhos abandonados, não por ela, mas pela sociedade que teria a obrigação de cuidar de todos? Diga-me, Tomilho: estou errado?”

Caía uma noite linda na estrada, um céu repleto de estrelas graúdas, como só aparecem nos céus do interior, ainda convivendo com um sol vermelho que se deitava por trás das montanhas de uma reserva de mata atlântica.

“Está errado, mestre. O pai desesperado contou com o senhor. Nós também contamos com o senhor. O nosso maior privilégio é estar aqui, agora. Não importa que ninguém ligue para os milagres. Eles, em si, valem a pena. Aliviam dores, fazem sorrir.”

Andamos quase três quilômetros, em silêncio, para que eu respondesse. A noite havia chegado completamente.

“Talvez você tenha razão, Tomilho.”

Todos sorriram, discretos, mas Vivinha soltou risadas de criança, deu uns saltos, e a sua alegria iluminou o breu da estrada, como se ela fosse uma pequena lua.

Do livro O homem dentro de um cão, Editora Terceiro Nome (São Paulo, 2007).

*fatportel@gmail.com

A fonte da juventude











Eduardo Sigrist*

O velho, protegido por um chapéu de palha, estava sentado em um tronco apodrecido, à beira do rio. A mão trêmula segurava a vara de pescar, e os dedos finos confundiam-se com o bambu que pendia sobre a água. Tal como a vara, que se ligava ao fundo do rio por um fio transparente, assim também o pescador parecia sustentado por cordéis invisíveis que vinham do céu, a mover seus frágeis braços de títere.

Devido à falta de chuva, o rio estava baixo, longe da mata. Um ano antes, o velho pescara um pouco mais acima, sob a sombra de um angico-branco. Hoje não havia onde se esconder. Resignado, suportava o castigo infligido pelo sol.

Castigo merecido. Afinal, como o genro lhe dissera, ele não era um vagabundo, que passava o dia todo sem fazer nada? Vagabundo! Dispensado pela madeireira, não conseguira encontrar outro emprego, mas ainda vivia na colônia de funcionários, perto da mata, juntamente com a filha, o genro e a Amélia, a netinha. Havia uns dois anos que moravam juntos, desde que ele conseguira indicar o Osmar para um cargo de operador de motosserra. Arrumou-lhe emprego, ofereceu seu cubículo para eles morarem, e agora era tratado como um malandro.

Pois ia lhe mostrar quem era o velho Moraes. Não conseguia mais trabalhar na mata, mas o céu lhe dava a força necessária para pescar. A Amélia adorava lambari frito. Se ela não fosse tão pequena e se o calor não queimasse tanto, ele a teria trazido para a pescaria. Mesmo assim ela ficaria feliz e correria ao encontro do avô, no final da tarde, a gritar: “Oba! Lambaí!” Sim, ele levaria milhares de peixes, que matariam a fome da família pelo resto da vida. Por isso trouxe todas as espigas de milho que havia encontrado no armário. Se atrás de cada grãozinho viesse um lambari esfomeado, a boia estaria garantida.

Os peixes, no entanto, não queriam aparecer. Nem um beliscão. Com a boca seca, Moraes abaixou a cabeça até o rio e sorveu um gole de água. Ao levantar os olhos para o céu, viu as nuvens negras que começavam a se formar lá adiante. Na cidade já devia estar chovendo. Era um bom sinal. Já estava na hora de vir a chuva. A própria mata parecia sofrer com a estiagem. Seu verde estava desbotado, cor de sede.

O velho Moraes, embora satisfeito com a visão, agitava os braços, como se quisesse espantar as nuvens. A chuva era bem-vinda, mas não para agora. Já que demorara tanto para chegar, que esperasse pelo menos até o final da pescaria.

Voltando a atenção para a vara, ele continuava esperançoso, embora não houvesse o menor sinal de peixe naquele rio.

“Meu Deus, faz um milagre aqui. Sou velho, já sofri demais, mereço a misericórdia dos céus. Mas aí de cima só vem esse fogo. Ah, meu Jesus, vem aqui embaixo sentir o peso dessa cruz em forma de brasa, a martirizar tua gente. Vem aqui e me traz uma rede cheia de peixes. Sou teu filho tanto quanto Simão Pedro.”

Um barulho ecoa atrás dele. Passos vão se aproximando epifanicamente. Atônito, ele não se vira. “És tu?” Espera de olhos fechados a consumação do milagre e em oração agradece a dádiva celeste. Ao passarem ao lado dele, fazendo um ruído de algo que pisa na água, os passos cessam. O velho abre os olhos: um filhote de veado bebe calmamente água no rio.

A princípio decepcionado, logo o homem se encanta com a beleza do animal e estranha o fato de um bicho tão arisco estar próximo assim dele. Deve ter confundido seu esqueleto com um galho de árvore seco. A pouca distância, Moraes não se mexe, temendo assustá-lo.

“Bebe, filho. É toda sua a água da fonte da juventude. Bebe para preservar sua mocidade pelo resto da vida. Não se torne um caco velho, inútil, como eu. Bebe, e depois sai por aí, a pular e nos alegrar com sua beleza tão cara. Que Deus o preserve da velhice, porque a velhice é só a espera da morte. É pensar nela a todo instante e até desejá-la. Mas você é só um bicho, não tem pensamento. Não pensa na morte. Ah, deixa eu tocar seus lustrosos pelos, respirar um pouco da sua juventude.”

A meio caminho, quase já apalpando o corpo do animal, a mão de Moraes para e recua. Uma mancha enegrecida, abaixo das costelas, revela um ferimento grave, talvez provocado pelo tiro de um caçador, a exalar um cheiro podre. Um calafrio percorre o corpo de Moraes, que solta um lamento alto, a praguejar contra o céu e contra os homens. Em vez de fugir, o veado levanta a cabeça e fixa os olhos no velho. Olhos pequenos, lamuriosos, denunciando uma terrível dor. Não é dor física. É a dor de saber que, tão cedo, a vida vai se apagando em seu interior.

Caminhando penosamente, o animal se afasta do rio. Vai devagar, cabeça baixa, até chegar perto da trilha que atravessa a floresta. Ali, senta-se com esforço, entregue à esperança de que o vigor de sua juventude consiga poupá-lo de uma morte prematura.

O pescador permanece um bom tempo paralisado, absorto. As nuvens já cobrem todo o céu, e o azul dá lugar ao cinza. O homem nem percebe a ausência do sol, pois dentro dele a escuridão já se instalara antes de as nuvens tomarem conta do dia. Pensa no veado a morrer, pensa na morte que não poupa pessoas nem animais, jovens nem velhos. Desperta do torpor somente quando algo molhado lhe escorre pela testa. A chuva o traz de volta à vida.

A vara, enroscada num buraco a seus pés, começa a balançar. Deve ser o impacto de um pingo de chuva. Mas o bambu se enverga de maneira diferente, brusca. O velho, a princípio desconfiado, levanta sua arma e vê um lambari de rabo vermelho a balançar na ponta do anzol. Finalmente! O céu enviou-lhe a chuva e, com esta, os peixes. Apressado, ele coloca o danado no samburá e lança a fisga de volta à água. Logo, sente outro peixe a puxar a linha.

À medida que a chuva aumenta, Moraes vai enchendo de peixes o saco. Ele não se importa com a roupa encharcada. Depois de tanto tempo debaixo do sol, sem pegar nada, quer aproveitar ao máximo esse momento de fartura. Sem dúvida, era um milagre. Quanto mais água caía, mais peixes eram fisgados.

Mas o temporal se enfurece tanto que o velho resolve ir embora. Já tinha peixes demais no saco, era melhor não abusar da ajuda de Deus. Ele cogitou tirar a peixeira da cintura e limpá-los ali mesmo. Pensando bem, como teria apenas uma hora de caminhada pela floresta, dava tempo de chegar em casa e prepará-los lá, antes que estragassem.

Arrumou a tralha, desceu do tronco e foi em direção à mata. Perto da trilha, notou que o veado ainda estava lá. Sem forças para fugir da chuva, o animal continuava deitado, com a água a lavar aquela grossa gosma que saía do ferimento. Por alguns segundos, conseguiu levantar a cabeça e olhar o homem que passava apressado. Sem coragem para encarar aquele olhar súplice, Moraes embrenhou-se pela trilha.

O caminho era difícil, em determinados trechos, com muita lama e pedras escorregadias. Mesmo assim ele foi bem, só temendo pela hora em que chegasse ao final da mata, onde havia um córrego manso que descia da serra, mas que formava uma enxurrada violenta quando chovia forte.

Todo o esforço seria recompensador. A filha e a neta ‒ e até o genro ‒ ficariam felizes. Naquela idade, sua única preocupação era com a felicidade da família. Ele sempre se lembrava do próprio pai, homem sábio e trabalhador que, todas as noites, na hora do jantar, falava da importância da família, da fidelidade à família. Dizia que era função do patriarca impedir a infelicidade da família, que a infelicidade era uma maldição de Deus contra os ímpios e desonestos, mas que as pessoas boas e justas viveriam em comunhão tanto na terra como no céu, todas fariam parte da grande família celestial. O pai morreu cedo, e Moraes saiu de casa para ganhar a vida. Não teve chance de estudar, mas guardou esses ensinamentos como um código de conduta que jamais poderia quebrar.

E foi pensando em seu pai que ele chegou ao riacho. Fortalecidas pela tempestade, as águas corriam por cima de uma frágil pinguela, parecendo que levariam tudo para dentro do mato. Mas Moraes sabia que, para fazer sua família feliz, precisava aguentar a fúria da correnteza. Agarrado ao samburá e à vara de pescar, deu o primeiro passo, experimentando a rigidez da tábua. Seguro de que conseguiria passar sem problemas, foi andando mais um pouco. Já estava no meio do caminho quando ouviu um estalo e sentiu a madeira ceder sob os pés. Sem ter onde se segurar, foi carregado pelas águas ferozes.

***

Acordou com o corpo dolorido, jogado em uma das margens, vários metros abaixo do local onde caíra. Ainda segurava com firmeza o samburá e a vara. Não sabia quanto tempo ficara ali. Com certeza passara várias horas desmaiado, pois o céu estava bastante escuro e algumas estrelas se destacavam entre as últimas nuvens. Uma dor na cabeça o alertou de que havia se ferido, provavelmente nas tábuas da pinguela.

Ao levantar-se, Moraes avistou as luzes da sede da madeireira. Sua casa estava próxima. Era só pegar a estrada de terra e em poucos minutos estaria protegido. Infelizmente já era tarde, a Amélia devia estar dormindo e não viria recepcioná-lo. Ao chegar lá, ele iria direto para a cozinha, limpar os lambaris antes que estragassem. Não sabia quanto tempo estivera desacordado, então era melhor não arriscar.

Abriu a porta mansamente para não acordar ninguém. Colocou o samburá na pia e sentou-se, sentindo muita dor na cabeça. O corpo todo latejava. Exausto, já que o desmaio mais servira para maltratar seu corpo do que para lhe dar um pouco de descanso, Moraes acabou dormindo.

Sonhou. Sonhou que era jovem e pescava sentado sobre o mesmo tronco de árvore. O sol corava sua pele lisa e o encorajava a puxar os reluzentes lambaris que vinham se enroscar no anzol. Amélia também estava lá, a galopar em cima do viçoso filhote de veado e gritar: “Lambaí, lambaí!”

Acordou com o grito do genro:

– Onde andou, velho safado? Todo sujo, deve ter enchido a cara e dormido na rua. Vagabundo!

Ainda era madrugada, Osmar acordava muito cedo para ir trabalhar. O resto da família continuava dormindo. Moraes, sabendo que seria melhor não responder nada, apenas apontou o saco de peixes sobre a pia.

– Então finalmente fez algo de útil! Mas o que é isso? Peixe podre! Tão podre como essa sua carcaça enrugada.

Irado, Osmar lançou o saco no chão, espalhando seu conteúdo. Aturdido, Moraes não acreditava. Abaixou-se e conferiu. Realmente, todos os peixes estavam sem brilho e com um cheiro de matéria em decomposição. Não querendo acreditar, começou a colocá-los de volta no samburá.

– Agora não adianta mais querer limpar. Já apodreceram. O que você queria era que eu limpasse tudo, né? Eu, que passo o dia todo dando duro no serviço. Tem cabimento? Velho inútil. Pois vai aprender uma lição!

Osmar agarrou a vara de pesca, agitou-a no ar e, com toda a força, golpeou as costas do velho:

– Safado! Pois vai aprender a trabalhar. Toma aqui, vagabundo – Osmar gritava e açoitava o corpo prostrado do sogro.

A filha e a neta acordaram com o barulho e, chorando, tentaram debalde acalmá-lo. Ele não se comovia, e continuava a bater.

– Olha, Sílvia, o que virou aquele milho que seria nosso almoço! Comida de peixe podre.

Moraes se contorcia no chão. Ao tentar proteger-se dos golpes, sentiu algo cutucando sua cintura. A peixeira! Sim, a arma poderia acabar com seu martírio, livrá-lo para sempre daquele ser abjeto. Moraes nunca matara ninguém, sempre fora um homem pacífico, tanto é que, até aquele dia, aguentara as injúrias de Osmar. Mas dessa vez era demais, não suportaria tamanha humilhação. Buscando sua última gota de energia, retirou a peixeira e, erguendo-se, ficou pronto a ferir o genro. Esforço vão. Osmar havia acabado de bater a porta e ir para o serviço. Empunhando a faca, Moraes cambaleia e também sai atrás dele.

***

A manhã estava clara, nem sinal de nuvens no céu. O sol voltara a lançar seus raios sobre a terra, mas agora uma ligeira aragem atenuava o calor. A chuva trouxera de volta o verde característico da mata. Tudo recendia a vida.

O rio amanhecera barrento. O tronco de árvore, parcialmente submerso, servia de porto para uma garça, cujas penas brancas também estavam amarronzadas. Faminto, sem conseguir encontrar nenhum peixe naquela água suja, o pássaro bateu as asas e partiu.

No céu, pequenas manchas negras maculavam o azul. Dessa vez, não eram as nuvens que voltavam. Eram os urubus. Após perceberem comida na beira da mata, preparavam-se para pousar e se banquetear.

Debaixo do angico, o corpo gelado e duro do veado se oferecia para saciar a fome daquelas criaturas. Elas, no entanto, não arriscavam uma aproximação. Ao lado do animal morto, Moraes, brandindo sua espada, afugentava os inimigos. Acariciava a cabeça de seu Pátroclo e ria da estupidez das aves.

“Bichos tolos. Não enxergam que você é somente um filhote e tem toda a vida pela frente. Mas estou aqui para proteger sua mocidade. Vai, levanta daí, meu filho, e mostra para eles que está vivo e forte. Levanta e me acompanha pela verde mata, pelo caminho só conhecido por nós, que bebemos a água da fonte da juventude.”

*eduardosigrist@gmail.com