quarta-feira, 22 de abril de 2009

Novo Acordo Ortográfico: mais polêmica depois do VOLP










*Alessandro Faleiro Marques

Já começa a circular a 5ª edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), elaborado pelos “imortais” da Academia Brasileira de Letras (ABL). A notícia é excelente, já que poderá pôr um ponto-final em várias discussões entre profissionais e amantes da língua de Camões, Machado de Assis, Fernando Pessoa e Guimarães Rosa (deste também!). Note-se: poderá! Ao se fazer um rápido confronto entre os dicionários e manuais lançados recentemente, pode-se ver que o esforço e a boa vontade desses autores que tentaram desbravar o Novo Acordo Ortográfico foram em parte perdidos.

É de se estranhar mesmo, como toda grande mudança, mas, desta vez, as coisas estão mais tenebrosas. Diferente dos novos dicionários, “pé de moleque” não tem mais hífen para a ABL, tanto faz ser o delicioso doce quanto a parte do corpo de um menino travesso. O mesmo aconteceu com a expressão e ex-palavra “dia a dia”, que será usada sem hífen no sentido de cotidiano e no de sequência de dias. Poucos duvidam que haverá um desconforto diante da expressão “O dia a dia da dona de casa é pesado”. O “a dia” parece solto, sem tempero.

Diante dessas e de muitíssimas outras “novidades”, ficam várias dúvidas e umas poucas certezas. Entre os questionamentos, pode-se perguntar: se o Novo Acordo estava elaborado há tanto tempo, desde a década de 1990 no mínimo, por que a ABL esperou que ele entrasse em vigor para somente depois lançar o VOLP? Por que não o publicou com a mesma voracidade que os dicionaristas? Será que faltou a alguns “imortais” a sensibilidade de ver que a maioria dos falantes está no mundo de mortais, em que a agilidade é um valor?

A verdade comprovável até agora é que os mais prejudicados (pra variar) foram os consumidores, que correram para manter-se atualizados com a nova ortografia e compraram gramáticas, manuais, dicionários e outras publicações. Os editores (exceto os do VOLP) também foram novamente penalizados. Depois de refazer os livros, agora terão que readaptá-los ao novo vocabulário da ABL. Nada mais inconveniente nestes tempos da anunciadíssima crise.

As polêmicas não ficam por aí. Envolvem também política. Há rumores de que Portugal, que parece não estar com tanta pressa em alterar sua ortografia, mesmo tendo assinado o Novo Acordo, não gostou muito da iniciativa brasileira. Se, por acaso, os “imortais” do país de Eça de Queirós lançarem o próprio Vocabulário Ortográfico (o que não se pode duvidar), estará decretado o insucesso dos objetivos principais da atualização, que seriam padronizar a escrita e fortalecer a língua portuguesa no cenário mundial. Seguindo a tendência, os falantes afro-lusófonos, seguindo ou Portugal, ou Brasil, ou a própria autodeterminação linguística, ajudariam a dividir o reino, enfraquecendo-o. Será que esse problema foi discutido durante os chás dos acadêmicos?

Aqui uma ousadia: aos “imortais” vai um agradecimento e uma súplica. O muito obrigado vai pela dedicação do novo VOLP “aos que usam a língua portuguesa como bem comum” e pelo convite “a colaborar com achegas, sugestões, críticas e correções”, tudo para o aperfeiçoamento da obra. Caros acadêmicos, realmente essa obra é grandiosa e será útil. Agora, por Deus, o verdadeiro imortal, não corrijam mais nada.


*Professor, revisor de textos e redator