quarta-feira, 22 de abril de 2009

Saramago e os cegos da caverna global










*Eduardo Sabino


Não se sabe onde começa a filosofia e termina a literatura no universo ficcional de José Saramago. Em Ensaio sobre a Cegueira, Saramago produz uma metáfora da existência contemporânea.

Uma doença dos olhos se espalha pelo mundo. O primeiro enfermo é um motorista que, em meio ao trânsito engarrafado, se percebe cego. Todos os que têm contato com ele contraem a doença. O primeiro grupo de cegos é isolado em quarentena. Entre eles, uma intrusa, apresentada ao leitor como “a mulher do médico”. Ela enxerga perfeitamente e se finge de cega para acompanhar o marido doente. No decorrer da narrativa, notamos outro motivo para ela não revelar seu segredo. “Se souberem, você se tornará uma escrava”, alerta o médico. Apesar do fingimento, “a mulher que vê” não consegue fugir da responsabilidade de conduzir os outros. Os olhos são o seu fardo e, em certos momentos, ela chega a desejar a cegueira.

Saramago dialoga com a filosofia clássica. O mundo dos cegos é a caverna de Platão. Imaginemos pessoas acorrentadas pelas pernas e braços no interior de uma caverna, de forma que só podem ver a parede diante deles. Não podem nem mesmo voltar a cabeça para a luz do mundo exterior. A única coisa que conseguem ver são as sombras dos homens que transportam objetos além da caverna. Mas como só conhecem isso, desde o nascimento, é natural que tomassem as sombras como realidade e fizessem teorias a seu respeito. Se um dos escravos um dia se libertar e deixar a caverna, a luz seria por demais dolorosa. Ele custaria a se adaptar e desejaria com todas as forças o regresso à caverna, tomando como falso o mundo iluminado.

Se o ex-cativo se libertar de verdade das criações do mundo escuro e retornar à caverna para alertar os outros, certamente seria ridicularizado. (talvez perseguido e morto por quem construiu castelos no mundo das sombras).

No “Ensaio sobre a Cegueira”, a caverna é a paisagem urbana. Todas as cores e formas da vida contemporânea não passam de um universo de sombras. Tudo é o escuro. E, em meio a tantas ideias fabricadas, onde encontrar a essência humana?

É a cegueira que lança os personagens ao encontro de si mesmos, tirando-lhes da caverna. Não por acaso, Saramago chama a doença de cegueira branca (o branco só pode estar relacionado com a luz). O médico, antes de cegar-se, não consegue fazer o diagnóstico do primeiro atingido pela suposta doença. “Não há nada de anormal com os olhos dele”, comenta com a esposa. A “cegueira” coloca os personagens diante de seus próprios abismos, um mundo real, mas ignorado, profundo demais para quem se acostumou à superficialidade das imagens prontas. Um mundo que parece, à primeira “vista”, pura escuridão.

Ao longo do texto os personagens vão encontrando a sua verdadeira natureza. Alguns tendem ao ódio, outros à pureza e à solidariedade. Diante da dúvida tudo é estranheza. Há quem a renegue com ódio e os que, pacientemente, a abraçam. O conhecimento é gradual e leva à verdadeira visão. A mulher do médico já estava fora da caverna, desde o início da história. E sobre ela cai o peso do conhecimento. “Se conhecemos”, dizem os filósofos gregos, “é impossível que encaremos a ignorância com indiferença”.

Quando, aos poucos, os personagens vão retomando a visão, renasce a dúvida. Tornando a distinguir as formas do mundo, após viverem uma experiência inigualável longe das imagens, eles estariam se libertando ou regressando à caverna? Nos diálogos finais, Saramago nos dá uma pequena luz:

“Por que foi que cegamos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem.”

*eduardosabino1986@yahoo.com.br