sexta-feira, 8 de maio de 2009

Até que a vida nos separe











Alessandro Faleiro Marques*

Ela veio chegando mansamente e, mais ou menos, nos últimos três anos, entrou em minha vida. De repente, a inesperada companheira começou a andar comigo aonde eu ia. Não perguntava se poderia, simplesmente entrava comigo no carro, no ônibus e me seguia nos meus passeios, que, a cada dia, tornaram-se mais escassos.

De cara, já digo: não gostei. Era feia. Feia não, era assombrada como palavrão em sexta-feira de Quaresma. Eu tentava reagir, mas não adiantava. Pudera, a intrusa parecia não respeitar desejo de ninguém. Ela fazia o que queria, quando e onde bem entendia.

No início, era só um micromote para piadas ou outras conversas para passar o tempo. Entre risadas e goles, descobri: eu não era o único escolhido. Um amigo próximo chegou a confessar que passou em claro uma noite com a tal. Uma não, várias e várias noites. Mais tarde, ele me disse: foram também dias. Não fiquei com o menor ciúme, posso garantir.

Aos poucos, ela foi tomando conta de minha vida. Começou a implicar comigo quando eu me sentava ou me levantava. Era tão possessiva, que dançar eu nem podia mais. Por causa dela, minha rotina começou a mudar. As gargalhadas dos amigos e até as minhas começaram a diminuir quando ela era o tema dos colóquios ora gratuitos. Tive até de parar de fazer as tais caminhadas prescritas pelo telejornal da tarde. No fundo, confesso, até achei bom, pois meu espírito sedentário andava louco por colocar a culpa em alguém para voltar à cômoda posição ociosa. Nesse ponto, tenho pouco me queixar da que forçava ser minha parceira.

Mesmo que ela insistisse, não tinha a menor intenção de juntar-me, amasiar-me, amigar-me, sei lá. A presença da ordinária não me inspirava nenhum sentimento de poesia, de fidelidade, de cumplicidade, de qualquer união estável, contratual civil ou religiosa, ou o que fosse. Rezava todos os dias para que a vida nos separasse.

Não me largava a infeliz. Pelo contrário, a cada dia, ela estava mais afeiçoada a mim. Parecia uma possessão das grandes. Cruz credo! Deixei de ter vontade e de ser livre. Dei-me conta de algo que, ao mesmo tempo, é e não é, controlando-me inclusive por dentro. Ave Maria!

Eu me rendi. Agora, não conseguiria resolver esse problema sem ajuda de outros. Uma lição de humildade que, infelizmente, sou obrigado de novo a creditar à companheira egocêntrica. Lamentei mais uma vez receber coisa boa dela, dessas que nos fazem crescer. Isso só vou contar aqui. Vou fazer tabu do aprendizado. Não vou espalhar. Não farei propaganda da dita cuja. Não estou com a menor vontade de agradecê-la por nada. Afinal, ela me ensinou, mas foi caro. Custou-me tempo, dinheiro e os comentários maliciosos de alguns.

Armei verdadeira estratégia bélica. Resolvi: eu faria de tudo para tirá-la de minha vida. Entre idas e vindas a benzeções, banhos pouco aromáticos, terapias e aconselhamentos, quase fui atropelado, perdi tempo, meu telefone móvel e, algumas vezes, deixei até de comer bolo de aniversário de meus colegas de trabalho.

Quando soube dos meus planos pouquíssimos secretos, a sirigaita, em atos surreais de zombaria, começou a acompanhar-me também na luta que armei contra ela, acredite. Como vingança, tirou o meu pouco garbo. O peso daquela cruz acabou interferindo em minha postura. As olheiras e a barriga aumentaram em mim. E ela, tal qual no início, cheia de si. Ela nem queria saber se eu tinha boa aparência. As meninas deveriam aprender isso dela, contra a minha vontade, dou esse conselho.

Certa vez, por causa desse arremedo de bicho ruim, eu me senti uma atração de zoológico. Isso aconteceu em uma dessas terapias alternativas. O que eu estava fazendo lá, meu Deus? Não tive tempo de arrepender-me. Não houve passe, reza, nada! Só encheram meu corpo de fios, e descarregaram progressivamente incômodos volts em mim. Meus músculos começaram a pular e, para uma pândega observação pseudocientífica (para mim, é claro), o responsável prendeu o respiro do riso, observando aquele pequeno terremoto muscular. Vieram outros e mais outros. Em poucos minutos, eu era dissecado virtualmente pelos especialistas. Eu soube até mesmo o nome técnico da minha nádega direita, dito por uma torta senhora vestida de branco. E a cruel companheira lá, faltando pouco ter um acesso de tanto gargalhar. Reza brava, sacramento, unção de tudo quanto há... Que nada! Meu “encosto” não me deixava nem eu ficar de joelhos direito.

Ultimamente, para o meu júbilo, anda meio desanimada. Será que a relação anda monótona para a ela? Bem feito! Tomara que sim. Às vezes, a danada chega tarde, sem dizer por onde andou, mesmo sabendo que nunca perguntaria isso a ela. Não quero nem saber! Vou continuar fazendo de tudo para livrar-me dessa pagã, essa tal dor nas costas que eu arrumei.


Alessandro Faleiro Marques é professor, redator e revisor de textos (faleimar@hotmail.com).