sexta-feira, 8 de maio de 2009

Autobiografia com giz











Pedro Salgueiro*


para Dalton Trevisan


Apareceu na cidade um palhaço com um ouvido imundo.

Vaga pelas ruas com a impunidade que apenas os saltimbancos tentam demonstrar. Teve a petulância de, mal chegado, negar umas linhas para o nosso prestigioso jornal: quando muitos aqui venderiam a mãe, ou a mão. Diz ter poucas idéias por ano, e que não sabe a hora em que elas vêm ou vão. Fez sua casa no prédio antigo da cadeia — paredes robustas, chão áspero; como ornamentos somente dois armadores e a rede grossa e a mesa gasta onde lapida suas preces. Quando a idéia vem, quando vem, puxa o tamborete, afia a faca, apruma o esmeril entre os joelhos, e sua que sua. Da pouca frase resta o cascalho que joga pelas ruas nas raras manhãs em que se arrisca a sair. Deixar a toca só à tardinha, aí não mais de rosto limpo — o sorriso agora pintado na face: a boca fala, o ouvido escuta. Tudo é impunidade nestes gestos loucos: puxa a língua-de-sogra, enrijece a gravata, dá banana para o secretário de governo — tudo pode no final da tarde, a máscara lhe impede o pranto.

Anda pela cidade um médico insano. Diz que veio curar as doenças do mundo. Montou consultório na praça, cobra pouco, e já possui uma freguesia respeitável. Durante a manhã rega o jardim, poda os galhos do flamboyant — espalha as rosas frescas pelo chão, que somente as apanhará murchas: quando então realiza o ritual das três da tarde. Respira fundo; veste o macacão; põe as luvas, o nariz de cera, a peruca; pega o velocípede e sai por aí, fingindo a alegria de sempre.

Corre pelas calçadas um homem doido. Procura com insistência as praças, esmaga as flores, espanta o casal de namorados, consola dois velhos que conversam em silêncio. Atravessa as ruas em disparada, desmantelando o trânsito; mas quando o observamos atentos, assustado puxa um caco de espelho, que vira sorrindo em nossa direção.

Desliza pela noite um sorriso insano. Ouve coisas, distorce loisas. E nunca olha para frente...

[Conto do livro inédito: Movimento Esperado]

Pedro Salgueiro — nasceu no Ceará (Tamboril, 1964). Publicou O Peso do Morto (1995), O Espantalho (1996), Brincar com Armas (2000), Dos Valores do Inimigo (2005) e Inimigos (2007), de contos; além de Fortaleza Voadora (2007), de crônicas. Recebeu o “Prêmio de Contos da Biblioteca Nacional para obras em curso” e o “Prêmio da União Latina/Concurso Guimarães Rosa de Literatura”, dentre outros. Tem contos em suplementos literários, sites na internet, revistas e antologias (Geração 90, Os Menores Contos Brasileiros do Século, Quartas Histórias, etc.). Algumas faculdades (História, Pedagogia e Agronomia), diversos prêmios literários, um emprego público vitalício e outras inutilidades afins. Dentre várias atividades: desbravador de abismos, perquiridor de caminhos e descobridor de atalhos(pedrosalgueiro64@yahoo.com.br).