segunda-feira, 25 de maio de 2009

O crime artístico do século











Paulo Lima*

Em 7 de agosto de 1974, o francês Philippe Petit realizou uma façanha inimaginável. Ele venceu a distância entre as duas torres do World Trade Center – cerca de 60 metros - a partir do topo caminhando sobre um cabo de aço. Petit fez o percurso oito vezes, permanecendo ali 45 minutos. Interrompeu sua performance porque um helicóptero da polícia já rondava o local e ameaçava tirá-lo de lá.
Petit foi imediatamente detido por policiais assim que retornou a uma das torres e condenado a prestar serviços comunitários. Ainda assim, foi agraciado com uma credencial de observador permanente do WTC. Os detalhes da proeza de Petit, considerada pela imprensa da época como “o crime artístico do século”, estão no documentário O Equilibrista (Man on wire), do diretor James Marsh, vencedor do Oscar de 2009.

James Marsh não tinha em mãos apenas uma grande história. O próprio Petit é um personagem fabuloso. Hoje com 60 anos e vivendo em Woodstock, ele narra os pormenores do seu feito heróico com um entusiasmo contagiante, como se tudo estivesse acontecendo naquele instante.
Mágico e equilibrista, Petit começou sua carreira em 1968. Seu sonho de cruzar as torres surgiu aos 17 anos, quando ele viu por acaso numa revista uma matéria sobre a futura construção do World Trade Center, enquanto aguardava uma consulta com um dentista. Ele vislumbrou ali a grande chance de sua vida.

Em ritmo de thriller, o documentário de James Marsh mostra o histórico da preparação de Petit até o clímax da travessia entre as duas torres. Marsh utilizou vários dispositivos que asseguram ao filme uma pulsação vibrante. Combinou imagens de época com a reprodução das ações de Petit e amigos entrando clandestinamente em uma das torres. Até um pouco de videografismo foi aplicado para ilustrar as idas e vindas de Petit de Paris a Nova York. Não faltou uma trilha sonora com ares de Hitchcock. E, claro, as entrevistas emocionantes de Petit, de sua ex-namorada e amigos, todos cooptados por seu idealismo obsessivo.

Para chegar lá, Petit fez uma preparação meticulosa. Ensaiou algumas travessias perigosas, mas nada que chegasse próximo às dimensões das Torres Gêmeas. Vemos no filme Petit se equilibrando entre as torres dos sinos da Catedral de Notre Dame, em Paris, e entre as torres do porto de Sidney, tudo sob os olhares incrédulos do público. Numa propriedade afastada de Paris, Petit fez vários exercícios simulando a distância que percorreria de uma torre a outra do WTC. Numa das cenas registradas em imagens de arquivo, amigos de Petit e sua inseparável namorada balançam os cabos de aço para recriar as reais condições que ele enfrentaria no WTC.

Uma das maiores dificuldades de Petit era o ingresso nas dependências das Torres Gêmeas, acesso que ele acabou conseguindo graças à cooperação de um dos funcionários do WTC. Para esticar o cabo de aço de um lado a outro entre os prédios, Petit e amigos se valeram de um prosaico arco e flecha.

O momento culminante do filme ocorre quando Petit, por fim, realiza a travessia entre as torres, a uma altura de 411 metros, ao som das “Gnossiennes” de Erik Satie. Um ser etéreo flutuando acima do tempo e dos homens. Uma cena de extrema simplicidade e beleza. Só então é que entendemos a dimensão do seu sonho e do que a audácia humana é capaz.

Uma dos aspectos mais curiosos no gesto de Philippe Petit é como ele é destituído de qualquer sentido de utilitarismo. Ele acabou se convertendo numa celebridade instantânea, mas não era esse o seu objetivo primordial. Tudo o que ele queria era realizar um sonho que parecia impossível aos nossos olhos. Tanto que Petit encarou com desdém as indagações dos repórteres americanos sobre por que tinha feito aquilo. Mas não havia um sentido imediato, não havia um porquê. Era apenas um homem em busca de um sonho.

Ficamos nos perguntando como é que se forma um ser de uma natureza tão incomum como Petit, com essa inclinação para enfrentar alturas com destemor, para correr riscos como se fosse um jogo lúdico. Isso não é explorado no documentário, e talvez não fosse essa a intenção de James Marsh. Porém, em dado momento o próprio Petit acena com uma resposta: "Talvez eu quisesse fugir de minha época, por isso eu queria ver o mundo de cima. Mas isso os psicólogos que descubram".

Ironicamente, o espetáculo descompromissado de Petit acabou rendendo um comercial inesperado para o World Trade Center, na época ainda com boa parte de seus escritórios vazios esperando a vez de serem alugados. Um dos momentos emocionantes do documentário mostra as etapas iniciais da construção do prédio, um colosso da engenharia americana que ultrapassaria em tamanho um velho ícone de Nova York , o Empire State Building. Por causa dessa supremacia, o WTC ainda não era visto com bons olhos pelos novaiorquinos mais conservadores.

Talvez o feito de Petit soe demasiado romântico hoje em dia, mas é possivelmente esse romantismo que o tenha transformado em algo ainda mais inusitado. No filme ele conta que era cumprimentado pelas pessoas nas ruas de Nova York, que lhe agradeciam pelo belo momento. Um triunfo artístico, afinal de contas. No final ele resume sua filosofia de vida: “Para mim é muito simples: viver no limite, cada dia, cada ano, cada ideia como se fosse um verdadeiro desafio.” Levar a vida na corda bamba é o que impulsionava Philippe Petit.

Paulo Lima é jornalista, editor da revista eletrônica Balaio de Notícias (http://www.sergipe.com.br/balaiodenoticias)