segunda-feira, 25 de maio de 2009

Viagem (conto beat-estudantil)










 

Rinaldo de Fernandes*

A estrada, de início, entre eucaliptos.
Casa
pasto
casa.
Mundo de taipa.
Capim no rodapé da cerca.
Cabelos crus de Cristina.
Atrás do morro, a carne limpa do crepúsculo.
Certo azul temperando-se de estrelas.
Legião no cd.
Kerouac ainda na (a)horta.
P-r-o-c-i-s-s-ã-o no povoado.
Lágrima cagada por pombo na face do Cristo na capela.
Mulher pedalando fardo.
Roçado no ombro do morro.
Sorriso dália de Cristina.
Chuvisco.
No asfalto molhado, pegadas do pisca-pisca.
Salmoras de cansaço nos olhos dos bóias-frias.
Casa
pasto
casa.
Seio de Cristina respirando.
Galho seco da aroeira pesado de rolinhas.
Carnaúbas nervosas.
Jumento mastigando o relincho.
Língua de fogo amolada na mata.
Fumaça na garupa da nuvem.
Aceno seco das lavadeiras sob a ponte.
Coalhada de duna no beiço do rio.
Flor no pensamento de Cristina.
Casa
pasto
casa.
Lamparina no alpendre.
Foice da lua retalhando cirros.
Sexo de Cristina colhido na grama do acostamento.
Primeiras luzes da cidade.
Sorriso no outdoor: ramo reimoso envergado sobre a avenida.
Pendurado na grana e no olhar de Cristina.
Bairro
barracos
brejo ao fundo.
Limões dos mirins azedando as esquinas.
Luminosos
vitrinas
muros de louça.
Magnólias cansadas regadas na praça.
Chegada.
Boa-noite pai mãe já é a novela?
Certo medo da sala.
Banho.
Bagagem desfeita – e o coração pulsando na mochila.

Rinaldo de Fernandes é contista, romancista e antologista. Obteve, em 2006, com o conto “Beleza”, o primeiro lugar no Concurso Nacional de Contos do Paraná. Autor dos livros de contos O Caçador (EDUFPB, 1997), O perfume de Roberta (Rio de Janeiro: Garamond, 2005) e do romance Rita no pomar. Organizador das antologias Contos cruéis (São Paulo: Geração Editorial, 2006) e Quartas histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa (Rio de Janeiro: Garamond, 2006).