sábado, 20 de junho de 2009

Com o muro na cabeça










 

Paulo Lima*

O historiador Klaus-Dietmar Henke costuma se referir à queda do muro de Berlim como uma “revolução pacífica”, a única bem sucedida na história da Alemanha. “Os alemães orientais acrescentaram à história de nosso país um de seus momentos mais esplêndidos, uma contribuição à nossa maneira bastante conturbada de encontrar e aceitar as liberdades individual e política como valores de suma importância”, ele afirmou.

A reflexão está citada no livro Stasilândia , da jornalista australiana Anna Funder. Publicado no Brasil pela Companhia das Letras, na série “jornalismo literário”, o livro mostra como funcionava a Stasi, a temida polícia secreta da ex-Alemanha Oriental. A Stasi controlava a vida dos cidadãos com uma precisão cirúrgica. Seus números superam sistemas de vigilância como a Gestapo de Hitler e a KGB soviética. A Stasi tinha à sua disposição 97 mil funcionários e 173 mil informantes, para controlar uma população de 17 milhões de pessoas. No varejo, de cada seis habitantes da ex-Alemanha Oriental, um era informante da Stasi.

Anna Funder contou essa história sob a perspectiva dos dramas de seus personagens, gente que sentiu na própria pele a tirania do totalitarismo, e é esse mergulho que humaniza sua narrativa e a torna tão emocionante. Quando Anna Funder começou sua reportagem, no inverno de 1996, a “revolução pacífica” de 1989 já era uma página do passado, mas mesmo assim as marcas do antigo regime ainda estavam por toda parte. “A Alemanha Oriental desapareceu, mas seus restos ainda estão lá”, ela escreveu.

A idea do livro surgiu a partir de uma carta que Anna Funder recebeu enquanto trabalhava no serviço internacional de uma emissora de TV, no lado que já foi chamado de Berlim Ocidental. Na carta, um alemão residente na Argentina sugeria matérias em que os próprios ex-alemães orientais contassem suas histórias. Naquele momento estava em curso um esforço de reunificação entre os ossis (os alemães do lado oriental, pobres e atrasados) e os wessis (os alemães do lado ocidental, capitalistas e ricos), separados durante décadas pelo muro. Anna abraçou a ideia e a ela se lançou com entusiasmo.

Os dramas que preenchem sua narrativa são tão fantásticos que beiram o inverossímil. Seguindo a tradição dos melhores repórteres, Anna Funder gastou muita sola de sapato para desencavar sua história, movendo-se por um cenário ainda assombrado pelos fantasmas da Stasi. Mudou-se para um apartamento na ex-Berlim oriental. Conversou com vítimas e algozes. Uma dessas vítimas é Frau Paul, e seu relato talvez seja o mais forte de todo o livro, um emblema de como o muro dividiu e destruiu vidas.

Em janeiro de 1961, Frau Paul deu à luz um menino, que em seguida apresentou problemas de saúde. Torsten Rührdanz foi internado e passou a necessitar de remédios especiais que Frau Paul obtinha do outro lado da fronteira, ainda não dividida pelo muro, mas sob controle. Na noite de 12 para 13 de agosto, o muro foi erguido e Frau Paul se viu impedida de ir buscar os medicamentos. Sem eles, Torsten Rührdanz piorou e foi transferido para um hospital do lado ocidental, sem que Frau Paul e o marido tomassem conhecimento.

Personagens marcantes e suas histórias incríveis é o que não faltam no livro. O toque literário da narrativa nos permite atravessar suas quase 400 páginas sem esforço. Algumas experiências parecem ter sido extraídas de um desses melodramas de Hollywood povoados por temíveis tiranos da ex-Cortina de Ferro. É o caso de Miriam, que aos 16 anos, em companhia de uma amiga, resolveu escrever e distribuir panfletos contra o regime de Erich Honecker. A peraltice custou caro. Foram descobertas e postas numa solitária durante um mês. Depois de libertadas, ficaram aguardando julgamento. Miriam decidiu fugir e pular o muro. Sem qualquer plano, viajou sozinha de Leipzig a Berlim, e só não atingiu seu objetivo por ter esbarrado num fio de arame que disparou um alarme, a centímetros da liberdade.

Frau Paul, Miriam e todos os que confiaram seus segredos a Anna Funder o fizeram ainda sob intensa emoção, como se os fatos longínquos representassem o presente. Era a Stasi ainda em ação, mesmo decorridos vários anos da derrubada do muro. Mit die mauer im kopf é a frase que os alemães criaram para manifestar essa sensação de aprisionamento. Essas pessoas viviam “com o muro na cabeça”. Anna Funder entrevistou ex-membros da Stasi, e todos ainda mantinham as mesmas convicções. No cenário de desemprego que se estabeleceu na ex-Alemanha Oriental após a queda do muro, muitos desses funcionários não tiveram dificuldade em encontrar trabalho.

Em 2000, Anna Funder retornou a Berlim e tentou reencontrar alguns de seus personagens. Sentada num banco de praça, perto do prédio onde estava morando, ela conversa com alguns desocupados que perambulavam por ali. Havia nessas pessoas um clima de saudosismo quanto aos velhos tempos. O capitalismo, para o qual jamais estiveram preparados, estava mudando a vida de todos. E para pior, segundo eles. Para os jovens, é como se nada daquilo tivesse existido. Anna Funder os observa. Eles se beijam e passeiam em suas bicicletas sob o brilho de um sol forte, numa manhã berlinense.

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Há no You Tube uma reportagem sobre Anna Funder e seu livro Stasilândia, que pode ser vista clicando aqui. Num momento do vídeo Anna Funder faz uma visita a Frau Paul. Frau Paul aparece ainda conduzindo um grupo de turistas por uma das prisões da Stasi.