segunda-feira, 22 de junho de 2009

Luzes











Eduardo Sabino*

Ameaçam o tombo os prédios pendurados no céu. A cabeça pressionada na lataria almofadada. É um mundo bonito daquele ângulo. Dezenas de luzes acesas já são festa para os olhos mais bobos (o que diriam os insones se soubessem que fazem alguém sonhar?). Por um instante nem sabe quem é, onde está, e sorri. Logo ouve o respirar ofegante, marcando a música eletrônica.

Preparou-se durante a semana. O salão de beleza, as compras, o vestido nem um milímetro sequer afastado da moda. Embaralha a memória: a marca da loja, as bolsas de couro, o ar condicionado, pessoas em peregrinação por entre vitrines.

Deitada em um banco de couro, sente a umidade do líquido no dorso. Quase foi aos prantos quando, em meio às gargalhadas e gestos bruscos, o copo de vinho se inclinou. Agora a mancha não importa. Quer voltar para os pontos cintilantes no tapete negro, lugares onde nunca esteve ( mas o carro continua no trajeto familiar).

Ergue a cabeça, meio zonza, e vê a estrada deserta. Não tarda a surgir o letreiro luminoso, o truque de uma semana agitada.

“Pare o carro”.

A resposta vem arrastada:

“Quê isso gatinha, tá maluca?”

Mão na perna, chute de tamanco, puxão no pino da porta. Salta e trepida, um pé calçado, outro não.

O carro, às súplicas, acompanhará a garota certo tempo, até que dele fique apenas um rastro de palavras sujas.