sexta-feira, 10 de julho de 2009

Impressões da visita à Rainha Morena (3ª parte)











Alessandro Faleiro Marques*

“Infeliz quem não te conhece, padece em vão, sem consolo.” Esse trecho de um antigo hino à Padroeira do Brasil era um dos cantados pelos romeiros quando, em voto de silêncio, iam a Aparecida para prestar contas a Deus e ainda voltar no lucro, com o bolso espiritual pleno de paz. Assim ficamos ao visitar aquele lugar, excluído, é claro, o jejum de palavras. Mais do que conhecer a dona da casa, o principal sentimento foi de sentir-nos reconhecidos por ela.

Na parte anterior destas impressões, o nosso espanto renovador diante da maior coletânea mística por nós já vista: a Sala dos Milagres da Basílica Nacional. Fotos, vestidos, armas, tudo quanto é objeto contando um pouco não só de fé. É tratado vivo de Antropologia, Teologia, Psicologia, História e outros saberes que, como os peregrinos, permitirem-se a tal experiência.

Faltaram-nos outros ex-votos afamados. Como as correntes quebradas do escravo Zacarias. Alforriado pela própria Mãe de Deus, feita negra para o Brasil. Quilombola-mor, guerreira plácida de uma aldeia multicor. Por ela tem cada filho contado e nomeado, tal qual em casa pequena. Ali coube mais um. Como ela, quem entende melhor de liberdade?

Na Sala das Promessas, não vimos também a pedra carimbada pela ferradura da montaria do incrédulo fazendeiro. Cabeça quente. Tentou entrar na casa da Mãe sem pedir licença. Malcriado corrigido sem palmadas, mas com susto dos bons. Ex-infeliz. Água em vinho. Braveza amansada. História mais rica. Em sabedoria oriental, a anfitriã hoje pensa melhor: “Imagine se prego no liso todos os que entrarem no santuário com alma pesada... quantas marcas de sandálias, sapatos, coturnos, pneus... Haja pedra e haja museu! Haja blog.” O ralho ficou para aquele incrédulo. Afinal, há digno de entrar em casa feita santa? De que vale remédio para são?

Essas e outras relíquias as encontramos na torre do Santuário. Depois do assombro com as formas do templo, da serra e do Vale do Paraíba apontadas do mirante, descemos ao museu.

Lá estavam os testemunhos dos favores divinos mais conhecidos dessa parte do continente. Também as rosas de ouro dadas pelos papas. Honra nobre à hebreia humilde. Coroas, fotos e recordações. Restos do incidente: pequena imagem de barro virou pó. Ícone atacado por um jovem vítima dos próprios neurônios e de quem os manipulou. Mais uma terminada bem, contudo.

Tudo foi experiência. Mas a sede espiritual do Brasil também tem lá suas mazelas. No último artigo desta série, as nossas desventuras e cutucadas. Queixas contra os filhos. Só. Porque, se depender de nós, pobres romeiros, nossos pés passarão soltos no granito da entrada.

1ª parte

2ª parte

4ª parte

*faleimar@hotmail.com