sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Memórias de um escritor subversivo











Paulo Lima*

O escritor J. G. Ballard, que morreu em abril deste ano, é conhecido no Brasil por dois de seus romances mais famosos, O império do sol e Crash. Ambos ganharam as telas de cinema, o primeiro filmado por Steven Spielberg, e o segundo por David Cronenberg. Por aqui foram publicados também Terroristas do milênio e O reino do amanhã.

Em obituário publicado no Guardian de Londres, o escritor Martin Amis escreveu que “Ballard será lembrado como o escritor inglês mais original do século passado”. Essa originalidade advinha de suas obsessões sobre o impacto que a vida moderna e suas pulsões destrutivas provocam em nossa psiquê. Crash, por exemplo, narra a fascinação sexual de um grupo de pessoas por acidentes automobilísticos. Em O reino do amanhã, o universo de um shopping center é visto como centro irradiador do consumo e da xenofobia.

Nascido em 1930, em Shanghai, Ballard presenciou o horror de uma guerra e suas atrocidades; viu o império britânico perder seu domínio; foi prisioneiro de um campo de concentração. Em 2007, ao ser diagnosticado com um câncer de próstata em estágio avançado, decidiu escrever suas memórias. O livro Milagres da vida – de Shanghai a Shepperton(Cia. das Letras) acaba de ser lançado no Brasil, e para os fãs (e até para os não-fãs) de Ballard, essa autobiografia representa uma oportunidade para se conhecer a gênese de um grande escritor.

Diferentemente do experimentalismo de sua literatura, o livro segue uma cronologia: vai da infância do escritor na China, até a vida adulta na Inglaterra. Contudo, é na objetividade da narrativa (escrita com a secura de quem sabia que estava com os dias contados) que reside sua beleza sombria. A meninice em Shanghai beira o improvável. “Ver as coisas todas fora do lugar, dispostas ao acaso, foi meu primeiro contato com o surrealismo da vida diária – apesar de Shanghai já ser bem surrealista”, escreveu. “Shanghai me impressionava como um lugar mágico, uma fonte inesgotável de fantasia que deixava no chinelo a minha própria imaginação infantil”.
O pai de Ballard era engenheiro químico e aceitou o desafio de emigrar para a China, em 1929, para trabalhar na subsidiária de uma indústria têxtil inglesa. As condições insalubres da Shanghai daquela época tornavam o estar vivo um milagre, tantas eram as epidemias, os níveis alarmantes de pobreza e a violência que assolavam a cidade.

Era uma existência vivida no fio da navalha mesmo para sua família, que morava dentro dos limites do Assentamento Internacional, um espaço reservado a ingleses e outras nacionalidades europeias; um mundo à parte animado por uma vida social intensa. A invasão de Pearl Harbour, em 1941, representou o fim do idílio na China. Os japoneses declararam guerra aos aliados, e, logo em seguida, estavam em Shanghai. “A velha Shanghai deixou de existir”, lamentou Ballard.

No livro, o escritor revela um episódio da infância que já indicava a existência de uma precoce imaginação literária. Forçado a copiar trechos de romances como forma de castigo escolar, um dia resolveu inventar a trama de um livro. Foi advertido pelo professor de que, da próxima vez, não copiasse um escritor ordinário. “Foi a primeira crítica literária que recebi”, divertiu-se. O ambiente familiar lhe proporcionava também os primeiros estímulos: Ballard tinha à sua disposição várias publicações americanas, como The New Yorker, Life, Times e inúmeras revistas de quadrinhos.

Curiosamente, a temporada passada num campo de concentração japonês foi uma etapa feliz de sua vida. Com o fim da guerra, a família parte para a Inglaterra. Lá ele se torna estudante de um colégio interno, escreve e procura compreender a realidade dos ingleses. Mergulha na leitura dos clássicos do modernismo – Kafka, Joyce, Camus, Dostoiévski. Aos dezesseis anos descobre Freud e os surrealistas. Passa a acreditar até a vida adulta que a psicanálise e o surrealismo explicam a chave da existência. Não é à toa que na introdução a Crash, escrito em 1973, Ballard escreveu que sexo e paranoia eram os “leitmotiven gêmeos” do século XX.

A fantástica experiência da infância ocupa a primeira parte do livro, mas é a partir da segunda parte, com um Ballard já adentrando a vida adulta, que o escritor começa a tomar forma. Em Cambridge, início da década de 1950, ele tenta seguir a medicina, mas, premiado num concurso de contos (“um conto à La Hemingway”), desiste do curso para se tornar escritor. Este não foi, porém, seu primeiro conto. Ele já havia escrito vários outros, que foram enviados para revistas literárias. Embora influenciado pelos pintores surrealistas, Ballard descreve a si mesmo, por essa época, como um “contador de histórias à moda antiga”.

Do curso, porém, ele extrai uma lição: “Meus anos passados na sala de dissecação foram importantes porque me ensinaram que, embora a morte seja o fim, a imaginação e o espírito humano são capazes de triunfar sobre a nossa dissolução”. Ele prossegue: “De certa forma, toda a minha obra de ficção consiste na dissecação de uma profunda patologia que presenciei em Shanghai, e mais tarde no mundo do pós-guerra”.

Perseguindo a carreira de escritor, Ballard experimenta várias profissões: redator publicitário, carregador, vendedor de enciclopédia (emprego no qual foi bem sucedido). Impossível não pegar carona em suas reminiscências: “Foi uma época fascinante, perambulando pelas cidadezinhas da região de Midlands com minhas amostras, dormindo em hotéis baratos junto com operários das indústrias têxteis”.

No próximo lance autobiográfico, vemos Ballard como piloto da RAF (a Real Força Aérea inglesa). Por essa época, ele já tinha produzido várias histórias de ficção científica. “Nessa altura eu estava confiante de que minha carreira de escritor estava prestes a começar”. Em seus deslocamentos, foi parar no Canadá. E no vai e vem entre aquele país e os Estados Unidos, ele se deu conta das transformações que aconteciam naquele hemisfério, as mudanças que chegavam rapidamente e que não tardariam em atingir também a Grã-Bretanha. “O que me interessava fazer era interiorizar a ficção científica, procurando a patologia subjacente à sociedade de consumo, a paisagem da tevê, a corrida nuclear – um vasto continente de possibilidades ficcionais, ainda intocado”, escreveu. Bingo! se você pensou que aí estava o embrião de obras radicais e subversivas como Crash. Aliás, Ballard dedica vários parágrafos para explicar suas teses mais radicais que desembocaram nesse romance: “Em Crash eu proporia abertamente uma forte conexão entre a sexualidade e o desastre de automóvel, fusão motivada sobretudo pelo culto à celebridade”.

Não poderia faltar na autobiografia uma referência emocionada às mulheres da sua vida. Mary Ballard foi a companheira que sempre acreditou no escritor. “Mary procurava ler tudo que eu escrevia. Pela primeira vez eu tinha uma pessoa que acreditava em mim, e que estava pronta para dar apoio concreto a essa confiança suportando uma vida bastante modesta”, escreveu ele sobre a esposa. Perder Mary precocemente foi um duro golpe para Ballard, que teve de criar os três filhos do casal sozinho. Ao longo do livro, ele não poupa referência à importância dos filhos em sua vida. A eles o livro foi dedicado.

Também não faltam inúmeras menções aos interesses de Ballard pelo cinema. O livro inclui um capítulo sobre o filme O império do sol e bastidores das filmagens.

Como se fechasse um ciclo, ele dedica um capítulo do livro ao retorno que fez a Shanghai, em 1991. “Shanghai tinha se esquecido de nós, assim como tinha se esquecido de mim”, queixou-se. Uma pena. Logo Shanghai, em cujas ruas Ballard viveu um dia, e onde foi forjado o grande escritor no qual ele se transformou.

***

Para quem se interessar um pouco mais pela história de J.G.Ballard, recomendo o documentário que a BBC produziu em 1991, e que pode ser visto clicando aqui (http://www.ubu.com/film/ballard.html)

* paulo_val@uol.com.br