quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Militância Juvenil: dos anos 60 aos anos 2000











Cristiano Silva Rato*

A juventude sempre marcou presença nas grandes transformações vividas pela humanidade. Hoje, no Brasil, segundo dados das Organizações das Nações Unidas (ONU), 50% da população total do País são jovens. Desse percentual, uma boa parcela, que ainda não foi medida, envolve-se em atividades culturais e políticas, contrariando a ideia de apatia dos jovens.

Nos anos 60, quando as cenas política, cultural e educacional sofreram grande influência das reivindicações e construções da juventude, tivemos uma das maiores representações da organização juvenil.

Essa década foi marcada pelo início de ditaduras militares em vários países, principalmente na América Latina. No Brasil, o cenário político não escapou da regra da militarização: em 1964 foi anunciado o Regime Militar. A censura e os Atos Institucionais inflamaram os movimentos sociais a criarem alianças entre si para resistir à implantação daquele novo modelo de governo. A turbulência política desse período foi um dos principais motivos para a concepção das organizações juvenis, especialmente a estudantil.

“Na década de 60 nosso inimigo era concreto, lutava-mos cotidianamente contra a ditadura, contra a polícia, contra o Estado repressor", afirma Luiza Lafetá, presidente da União Estadual de Estudantes (UEE) de Minas Gerais. O contexto, atualmente, é outro. As formas de participação da juventude foram ampliadas, assim como o discurso de seus representantes. "Hoje o movimento estudantil tem inimigos cruéis, mas com outra feição. Lutamos contra a mídia, que aliena e submete nossos jovens, lutamos contra a desmobilização, lutamos contra a precarização do Estado", defende Luiza.

Na década de 70, o clima na cena política do Brasil era mais explosivo. A instituição do Ato Institucional Nº 5 (o famoso AI5) obrigou vários grupos juvenis à clandestinidade e à militância armada. Várias expressões da cultura urbana jovem foram proibidas e artistas, exilados. O jovem passou a reivindicar, além da abertura política, o fim da censura. Os movimentos pela livre expressão tornaram-se ícones da juventude brasileira.

O processo de abertura política já havia começado em 1979, mas até 1984 não havia caminhado muito. Cansado do marasmo da transição de modelo político, o jovem brasileiro, lutando há quase 20 anos contra a repressão militar, foi às ruas de diversas capitais do País pedindo pelas "Diretas Já". Logo em seguida a juventude voltou às ruas, em 1992, com as caras pintadas, uma demonstração de revolta.


Século XXI

A década atual é marcada por diversos escândalos políticos, e por uma aparente apatia da juventude. Para o cientista político, Alvino Carvalho, é preciso, no mínimo, problematizar essa apatia. "O rosto do jovem mudou. As causas e as estratégias de luta também são outras", avalia.

Nos dias de hoje, com novas preocupações e roupagem, a juventude não se privou das lutas e conquistou espaços que pareciam inalcançáveis. "A juventude ganhou mais espaços institucionais, principalmente a partir de sua inclusão na agenda política do País, com a criação das Secretarias Estaduais e Nacionais da Juventude, junto aos conselhos municipais", explica Adriano Guerra, membro da Frente de Defesa dos Diretos da Criança e do Adolescente e coordenador da Rede ANDI (Agência de Notícias dos Direitos da Infância) de Minas Gerais.

A juventude, agora, milita por causas diversas. "Não existe uma juventude, mas juventudes, no plural", analisa Guerra. Apesar da abertura política, conquistada pela juventude, a sociedade ainda cobra participação do segmento, mas, em contrapartida, segundo Adriano Guerra, falta também respeito com a voz do jovem. "Nos conselhos de juventude, por exemplo, muitas vezes, os espaços de participação não são legítimos. As instituições não reconhecem o jovem como indivíduo, é preciso mais abertura nessas instituições, e também na família”.

Considerando o fato de que, nesta década, a juventude é constantemente comparada com a dos anos anteriores, Alvino Carvalho faz uma avaliação: "No geral, não se pode dizer quer as causas da militância juvenil dos anos 60 são melhores ou maiores ou mais nobres. As necessidades hoje são outras". "Os movimentos juvenis estão mais setoriais: hip hop, movimento negro, grupos de jovens ligados a projetos de ONG's", avalia o coordenador da ANDI.

Em 2007, quando estava desenvolvendo sua tese de mestrado "Movimentos culturais e justiça social: um estudo da cultura hip hop mineira", pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Alvino conheceu o grupo D-ver Cidade Cultural, de Belo Horizonte. "O grupo me proporcionou a experiência de muitas linguagens no mesmo espaço, o que contribui para romper barreiras, sair do gueto".

D-ver Cidade Cultural

O grupo D-ver Cidade Cultural, formado por jovens da periferia de Belo Horizonte e Região Metropolitana, começou a atuar em 2003, a partir de uma formação oferecida pelo Observatório da Juventude da UFMG, coordenado pelo professor Juarez Dayrell.
O curso foi ministrado para 36 pessoas de 17 comunidades, as quais integravam 16 grupos diferentes. A primeira ação efetiva do D-ver Cidade Cultural foi a realização do 1° Seminário de Políticas Públicas da Juventude, em 2004. Além disso, o grupo apoia o desenvolvimento de projetos dos seus integrantes e de outros jovens artistas de periferia.

Conforme Roberto Raimundo, coordenador do grupo, o nome D-ver Cidade Cultural surge como um trocadilho que envolve três sentidos principais: o da diversidade cultural, o ver a cidade pela ótica cultural e a própria diversidade do grupo".

Roberto reforça que o D-ver Cidade Cultural é organizado em prol do coletivo e tem concepção diferente das ONG's, pois adota a postura de grupo. Uma das grandes preocupações é fazer acontecer a arte e o protagonismo juvenil. "O D-ver Cidade faz a cultura e a arte acontecerem, aliás, essa é a essência do grupo", conclui Roberto.

Hoje, o D-ver Cidade reúne jovens que militam por causas variadas, entre elas a juventude negra, o movimento hip hop, mídia independente, o direito à livre orientação sexual, acesso à produção de arte e cultura, abertura de espaço para artistas das vilas e favelas, políticas públicas para juventude (tema que perpassa todos os outros), entre outros.

O movimento estudantil atual

Retomando a perspectiva do movimento estudantil, Luiza Lafetá faz uma comparação entre as causas de hoje e as anteriores. "Hoje podemos dizer que a UNE consegue pautar as mudanças no rumo da educação do País como jamais foi possível para uma organização estudantil". Segundo ela, porque há diálogo com o governo.

Matéria também publicada no site http://www.favelaeissoai.com.br/noticias.php?cod=135.

*cristpsilva@gmail.com