quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Ela não é carioca











Paulo Lima*

Um relato ficcionalizado sobre os dias de Janis Joplin no Rio de Janeiro.

Janis Joplin está sonhando. Suas pálpebras se movem de forma quase imperceptível. Ela sonha que está cantando para uma plateia imensa. É o Festival de Monterey. Janis dá tudo de si. É sua primeira grande apresentação. De repente, uma pane no sistema elétrico. A banda para de tocar. Indiferente, Janis continua cantando. Ela gesticula, move os quadris, acentuando o fraseado da canção com chutes no vazio. O público é tomado por um frenesi. Talvez imagine que tudo seja parte do número. Um cabeludo da banda se aproxima. Toca o ombro de Janis. Com delicadeza. Sussura algo em seu ouvido. Ela acorda do torpor. E do sonho. Ou melhor, do pesadelo. Ela tenta então se situar. Cai na real. Está numa poltrona. De um avião. A caminho do Rio de Janeiro. Em pleno Carnaval. É fevereiro de 1970.

No Galeão, as pessoas se detêm naquela mulher de visual incomum arrastando uma mala pequena. Algumas acham graça. Como agiriam se soubessem que aquela mulher era Janis Joplin? O relógio marcava 8h. Ainda sentindo os efeitos do jet lag, Janis Joplin está com sono. A luz excessiva dos trópicos a obriga a apertar os olhos claros escondidos atrás dos enormes óculos redondos. Uns penachos coloridos se misturam aos seus cabelos cheios e desalinhados. Ela abre caminho entre as pessoas e vai até o bar do aeroporto. Nem sinal do holandês. Cadê o filho da puta?, ela pensou, enquanto pedia um suco de laranja ao garçom. Talvez o voo de Paris estivesse atrasado. Ela esperou mais meia hora. Depois, determinou: o holandês que se fodesse.

Janis Joplin chamou um táxi. Hotel Copa, disse arrastando as palavras. Lá fora, alguma coisa na paisagem lembrava sua Port Arthur, no Texas. Talvez a linha do mar. Ela ficou surpresa. Nas ruas não havia índios. Nem onças e serpentes. Tampouco macacos. Mas ela se assustou ao avistar um tanque do Exército. O táxi ultrapassou um ciclista. O cara era um crioulo. A cara de Jimmy Hendrix, ela achou. Os homens são uns filhos da puta, pensou. Eu faço amor com 25 mil pessoas no palco, mas vou para casa sozinha.

Uns foliões batucavam numa esquina. Janis acendeu um cigarro e tentou acompanhar o ritmo tamborilando no assento do táxi. O sol explodia em êxtase, inundando a manhã. Largada no banco de trás, ela cantarolou os versos iniciais de Summertime.

O táxi chegou ao Copa. Janis estendeu uma nota ao motorista. Entrou determinada no hotel, sem aceitar ajuda com a mala. Miss Joplin? Reserva confirmada. O check-in foi rápido e sem qualquer cerimônia. Ali ela era uma desconhecida. O elevador a deixou no 6º andar. Janis quase arremessou a mala num canto. Inspecionou rapidamente o quarto. Impessoal, como qualquer quarto de hotel. Como tantos outros quartos de hotel. Ela se despiu. Encheu um copo de scotch, que derrubou de uma vez só. Nua, a pele clara como as areias de Copacabana, se meteu na banheira e lá se deixou quedar, meditativa. Nos Estados Unidos, a versão oficial é que ela tinha ido conhecer o Carnaval do Rio. Mas todos sabiam que o objetivo era tentar se livrar do vício da herô.

Janis não desceu pro almoço. Nem chamou o serviço de quarto. Não ligou nem recebeu telefonemas. Não há como saber se mergulhou numa de suas trips. Ou se simplesmente dormiu. Ela apareceu no meio da tarde andando na calçada da praia de Copacabana. Estava ao seu lado um gringo alto e bronzeado como um deus grego. Talvez fosse o holandês. Talvez tivessem finalmente se encontrado. O fato é que Janis Joplin estava feliz em suas sandálias de dedo, trajando uma bermuda bem colada ao corpo e uma bata branca. A estrela do rock parecia uma moça bem comportada curtindo o namorado numa tarde despretensiosa da Cidade Maravilhosa.

Mesmo sendo um das estrelas de Woodstock, Janis Joplin podia rodar como uma absoluta anônima pelo Rio de Janeiro. Mas isso não impediu que fosse reconhecida, ao prosseguir com seu passeio em Copacabana. Janis, Janis Joplin! Era um músico viajado que sacava a cena do rock americano. Ele levou Janis para conhecer uns amigos. E assim ela se enturmou. Com as novas companhias, ela começou a mergulhar em altas viagens pelo bas-fond carioca. Nos pequenos atos, mostrava por que era um dos ídolos da contracultura. Um dia Janis tentou tomar banho nua na piscina do hotel.

Um tremendo bafafá. Ela acabou sendo expulsa do Copacabana Palace. Alguns turistas foram solidários. Certamente viram naquela jovem inconsequente um reflexo da rebeldia dos próprios filhos. Um senhor francês chegou a pedi-la em casamento.
Janis achou abrigo no apê de um novo amigo carioca. Passava o dia em altas viagens. Mas o impulso de transgredir extrapolava as quatro paredes. Ela e os amigos resolveram desbundar nas areias de Copacabana. Quase foram em cana. Quando cantava, Janis Joplin era uma descarga de energia de poderosa voltagem. Numa entrevista que deu ao Dick Cavett Show, disse que permanecia ligada por muitas horas depois de uma apresentação. Em outra entrevista, afirmou que cantava com todo o corpo. A gente entende por que ela era tão agitada no palco.

Ei, cara, me leva à praia?, pediu ao amigo. Saíram no meio da manhã. O amigo fez uma inspeção prévia do local. Não queria passar pelo sufoco de novo, quando quase foi preso com Janis por transar na praia. Ele a levou a um recanto meio sossegado, e não ficou nem um pouco surpreso quando Janis tirou a parte de cima do biquíni com a naturalidade de quem passa um bronzeado. Ele aproveitou e fez umas fotos. Não se sabe se Janis chegou a ver essas fotos, mas, nelas, parece estar à vontade. Os seios são de tamanho médio, nem empinados, nem vencidos. A pele parece um pouco castigada. Mas, no geral, Janis não era o patinho feio que diziam ser, um estigma que tanto a perseguiu desde os tempos de escola em sua distante Port Arthur, no Texas.

Bem que os amigos tentaram um espaço para que Janis cantasse na cidade. Mas ninguém queria saber da riponga. Janis Joplin então, quem diria, acabou cantando num bordel, para delírio de seus frequentadores. E isso foi tudo. Ela passou pela cidade como um meteoro flamejante. O lema hippie era ligue-se, sintonize, caia fora. Janis Joplin foi fiel a ele até o fim. Depois de sua temporada no Rio, seguiu para a Bahia de carona, numa motocicleta.

*paulo_val@uol.com.br