sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Made in China











*Eduardo Sigrist

Relógio cansado já não gira
Nem nas horas da pilha chinesa
Nem no pulso da chinesa vazia.
Com a corda no pescoço escravo
Ela produz sua própria cova
Para enterrar o coração exausto
Que parou por falta de corda.

Oh, povo infinito e efêmero,
Sua carne padece de fome
Sua carne carece de carne
Sua carne parece sem nome.
Na carnificina de suas fábricas
Fabricam a fome do homem
Exportam o relógio de ferro
Expõem a ferida sem fundo
Do feroz mundo do consumo.

Seu patrão é sem pátria certa
Sua pátria é um pátio coberto
De produtos fabricados de lata
E corpos fatigados de sucata.

Enquanto isso, no Ocidente,
Ninguém vê (nem quer ver)
Embutido no preço tão ínfimo
De um relógio importado da China
O salgado valor do imposto
Do suor de uma chinesa sem rosto
Cujo pulso, igual pilha palito,
Não veste relógio nem pele:
Só osso.

*eduardosigrist@gmail.com