quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Um a zero











*Eduardo Sigrist

Fred, eu sei que esta não é a hora certa, mas vou ter que falar. Sou seu melhor amigo, eu tenho que falar isso. Você matou a Silvinha, cara. Matou! Sabe o que é isso? Tirou ela de mim e de você. Agora ela não é de ninguém. Ou é, sei lá o que vem depois. Mas ela morreu. É como aquela história que a gente ouvia quando era menor, na casa da sua vó: veio uma fada com uma varinha mágica e puf, a Silvinha sumiu do mundo. Ou como as colas que a gente trocava na prova e desapareciam quando o professor olhava torto. Ele procurava, procurava, e nada. Quando ele se virava, você me cochichava sua frase preferida: “Um a zero pra mim”.

Pra você, era tudo competição. A sua piada era mais engraçada que a minha? Um a zero pra você. O seu Corinthians ganhava do meu Palmeiras? Um a zero pra você. Eu até achava graça, e nunca liguei de perder. Aliás, esse era nosso trato. Quem perdesse qualquer disputa nunca devia reclamar nem chorar. Aí você saiu com a Sílvia só pra me provocar, só pra mostrar que era melhor que eu em tudo. Aí doeu, cara. Fiquei com raiva, quis te matar. Mas não chorei. Em vez de chorar, eu queria brigar, queria sumir, sei lá. Porque aquilo foi traição, cara. Carrinho por trás. Você sabia o quanto eu tava a fim dela. E pra que você fez isso? Pra levar a Silvinha no carro do seu pai e enfiar a cara dela num poste da Consolação? Foi pra isso?

Pô, que ideia essa de pegar o Santana do velho? Quinze anos, cara. Sem carta, sem idade. Seu pai pode ser preso, sabia? Vai ficar contente vendo o velho na cadeia, a Sílvia no cemitério? Se liga, não é assim que as coisas funcionam. Dar uma voltinha dentro do condomínio vai lá, o máximo que podia acontecer era dar uma ralada no importado de alguma baranga cegueta. Lembra aquele dia que a gente tava passando na frente da casa da dona Júlia e o poodle dela correu na frente do carro? Você desviou, passou por cima da calçada, tirou da moto parada ali e o cachorro escapou por pouco. Você, achando que tinha feito uma baita manobra, disse pro bicho: “Um a zero pra mim”.

Irresponsável você sempre foi, né. Aliás, eu também, mas muito menos. A nossa disputa na escola não era para ver quem tirava as melhores notas, e sim pra ver quem recebia mais advertências da diretoria e mais suspensões. Você ganhava disparado. Começava com um a zero, eu empatava, depois você fazia três a um, seis a dois... Até quase ser expulso, aí dava uma segurada. No outro ano, começava tudo de novo.

Não posso discordar, você sempre foi melhor em tudo. Desde criança. Lembra os campeonatos de botão? Eu conseguia no máximo um empate, de vez em quando. O melhor em tudo, hein Fred! Era inclusive o mais bonito, sempre o queridinho das meninas. Tinha tantas lá na rua que davam em cima de você. A Roberta, a Lu, a Bete, puts, e até a Refugo, credo! E quem você foi catar? Logo a Silvinha...

O enterro dela foi muito, muito triste. O Fábio que disse, porque eu não quis ir. Fiquei lá em casa sozinho, pensando. Fiquei lembrando o sorriso dela, a boca que nunca beijei. Era bom o beijo dela, Fred? Me conta.

Não sei se sofri mais no dia em que ela falou que vocês estavam namorando ou no sábado em que ela morreu. Eu estava em casa, tentando tirar Stairway to Heaven na guitarra. Meu pai entrou no quarto com uma cara tão estranha que eu já adivinhava qualquer coisa. Qualquer coisa, menos aquilo. E de manhã ela havia me falado que você tinha comprado um brinco pra ela. Ela colocou na orelha e me mostrou. Estava tão linda... Você tem bom gosto, cara. Será que ela estava usando o brinco na hora do acidente?

Ah, mas não pensa que eu tô bravo contigo não, cara. Não mesmo. Ainda mais agora, depois de tudo isso. Eu sempre vou ser seu melhor amigo, sempre. E nem esse seu namoro com a Sílvia separou a gente. Olha, desculpa eu falar, não vai ficar magoado. Mas eu tinha planejado que, se vocês casassem, eu ia ser amante dela. Se ela quisesse, lógico. Pelo menos íamos ficar os três juntos pra sempre. Que tal?

É, mas agora ela morreu. Foi enterrada faz dez dias. Você aguentou um pouco mais, Fred. Até achei que ia sair dessa, os médicos deram um pouquinho de esperança. Mas ontem a esperança acabou. Seu coração parou, uma complicação com o pulmão, sei lá. Você ficou em coma por todo esse tempo, e várias vezes eu fui lá, tentar conversar. Não me deixaram entrar na UTI. Por isso tô falando agora, antes que o gordo da funerária venha fechar o caixão.

Vou sentir sua falta, cara. Saudade das nossas competições. Lembra quando a gente discutia sobre quem ia viver mais? Eu falava que ia viver até 80, você até 100, eu aumentava pra 150, aí você terminava a conversa dizendo que era imortal. Não era. Eu ainda estou vivo, finalmente ganhei uma disputa. Um a zero pra mim, Fred. Mas confesso que é uma vitória com gosto de derrota – aliás, uma derrota por dois a zero. E não repara não, dessa vez eu tenho que chorar.

*Eduardo Sigrist é formado em Letras e trabalha como revisor e tradutor freelancer. Natural de Indaiatuba-SP, foi cronista do maior jornal da cidade, e atualmente mora em São Paulo. Poeta e contista, escreve no blog http://trilhosdasletras.blogspot.com. Contato: eduardosigrist@gmail.com.