quinta-feira, 29 de outubro de 2009

[10] atropelos nos anthroponymos











*Glauco Mattoso

Si não me falha a memoria, Graciliano Ramos pilheriou, quando assignava as chronicas posteriormente reunidas no volume "Linhas tortas", que cada um poderia escrever seu proprio nome como bem entendesse, e um sujeito chamado Camelo tinha todo o direito de usar dois ou até trez "LLL", ainda que um camelo tivesse no maximo duas corcovas. Blagues à parte, tracta-se duma incontestavel prerogativa individual dum cidadão, tanto que nenhuma reforma conseguiu obrigar ninguem a refazer documentos em chartorio, chegando os reformadores, quando muito, a recommendar que os nomes de pessoas mortas fossem phonetizados, como os de Raymundo Correa e Luiz Delphino, que ficariam "Raimundo Correia" e "Luís Delfino".

Por esse criterio, Vinicius de Moraes ja teria que ser graphado com accento agudo no segundo "I" e com outro "I" no sobrenome. Chico Buarque que se prepare para perder um "L" em Hollanda, e outro Buarque para se revirar na tumba quando, em vez de Christovam, escreverem "Cristóvão". Horror maior seria Caetano supportar que graphassem sem geminadas seu maravilhoso nome completo, Caetano Emmanuel Vianna Telles Velloso!

Verdade seja dicta que nem todos fazem questão das lettras no devido logar, a começar por Caetano, que assigna "Veloso" com um "L" só, sem fallar na Ritta Lee com um "T" só, na Ignezita Barroso sem o "G", no Sylvio Santos sem o "Y", na Heloiza Hellena, no Aloysio Mercadante ou no proprio Luiz Ignacio Lula da Silva.

Nunca me esqueço daquella phase em que a "Folha de S. Paulo" cahia nas mãos da geração do Octavinho Frias e, na soffreguidão de reformar o manual de redacção, a molecada quiz graphar até o nome do Sarney como "Sarnei"... e fico me perguntando si o actual editor do jornal se assigna como Octavio ou como "Otávio"...

Na "Encyclopedia de litteratura brasileira" (titulo que obviamente estou "desreformando" por vingança), organizada originalmente por "Afrânio" Coutinho, meu proprio pseudonymo apparece com um só "T" em Mattoso, ao lado de coisas terriveis como "Gregório de Matos" em vez de Gregorio de Mattos, ou "Tomás Antônio Gonzaga" em vez de Thomaz Antonio Gonzaga. O peor é que a obra faz isso tambem com os vivos. Um escriptor que se chamasse Augusto dos Anjos Seraphim Cherubim teria seu verbete entrando como "Querubim, Augusto dos Anjos Serafim", na lettra "Q", calculem só!

Alceu Amoroso Lima, si vivo fosse, teria o desprazer de ler seu pseudonymo Tristão de Athayde como "Ataíde", ja pensaram?

Caso algum jornal embarcasse actualmente numa arbitrariedade dessas, me ponho a imaginar o problema que se crearia para disciplinar, no caderno de esportes, os singellos nominhos dos jogadores de futebol... Si nem siquer os technicos conseguem disciplinar aquelles marmanjos balladeiros e mascarados, que dizer de seus primorosos prenomes, tão bem escolhidos por seus papaes e por suas mamães (inclusive com um pedacinho do nome da mamãe e um do papae, typo Magdalennon ou Izabelvis)? Como teriam que figurar, na legenda das photos que exhibem seus pezões com a sola em
primeiro plano voltada para a camera, durante uma sessão de exercicios, aquelles craques cujo salario passa da conta e cujo QI não conta? Um Kaykawan viraria "Caicauã"? Um Moacyrlyson viraria "Moacírlissom"? Um Keyrsthon viraria "Quêirstom"? E um Damnrleyrryson, como ficaria?

Prefiro conciliar os extremos. Os paes têm o direito de baptizar seus filhos como quizerem, sem que os grammaticos se intromettam, os jogadores têm o direito de ser chamados pelo nome de baptismo, sem que os jornalistas se intromettam, e os escriptores o direito de usar um pseudonymo sem que ninguem os "corrija", siquer depois de mortos. Para brincar mais um pouco com este assumpto serio, escolhi trez sonetos:


SONETO PARA O BAPTISMO DOS FILHOS [1808]

No terceiromundismo brasileiro
ninguem se chama Pedro nem José:
a gente se depara, o tempo inteiro,
com nome que vernaculo não é...

Sempre um "son", sempre um "ton", é o que primeiro
a um pae na idéa vem... À mãe até
occorre um "ley" ou "ney" alvissareiro
que ao filho no futuro traga fé...

Pedrilson, Josezilton, Pedriney,
Joseley... Meu nominho? Ja nem sei
mais como ficaria a escripta disso...

Si eu fosse um jogador de futebol,
então, alguma coisa mais de escol
seria: Pedrizélysson, Zezylsson...


SONETO PARA O BAPTISMO DAS FILHAS [1809]

Peor é quando os paes acham bonito
dar nome que de indigena pareça
num filho ou numa filha. Apenas cito
alguns que vêm agora na cabeça:

Kauan, Kauê, Tayná, Luan... Que attrito
tal coisa causaria entre a condessa
do imperio e o proprio conde, nesse rito
sagrado, si a palavra fosse avessa?

Naquelle tempo um homem se chamava
Antonio ou Manoel! Até uma escrava
seria Joaquina ou Benedicta...

Agora é ja mania: Si não for
Whitnéa ou Waldisney, local a cor
terá si é Moacyrson ou Pepytha...


SONETO PARA O BAPTISMO DOS BISNETOS [1810]

E quando o sobrenome for um bicho?
Coelho, Leão, Lobo... ainda vae!
Carneiro e até Bezerra são um nicho
de estirpe familiar, de avô e de pae...

Ha casos, todavia, que um capricho
extranho nos parece, e, quando cae
na bocca deste cego um delles, picho
meu muro, e aquella tinta nunca sae...

Formiga, Aranha, Cobra e até Barata
estão na minha lista, e, nessa nata
ainda muitos mais vou ommittindo...

Lacraia, Escorpião, Sapo, Minhoca...
Não tarda, alguem no filho ja colloca
prenome e sobrenome... Não é lindo?

*Glauco Mattoso (paulistano de 1951) é poeta, ficcionista e ensaísta, autor de mais de trinta títulos, entre os quais as antologias "Vícios perversos: contos acontecidos" e "Poesia digesta: 1974-2004", além dos romances "Manual do Podólotra amador: aventuras & leituras de um tarado por pés" e "A planta da donzela". E-mail: glaucomattoso@uol.com.br