quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Elementar, meu caro Watson











*Paulo Lima

Clássicos do romance policial têm sido reeditados por editoras brasileiras em um ritmo crescente e, em muitos casos, a preços acessíveis. É uma demonstração de que o interesse por esse tipo de literatura, para o qual muitos ainda torcem o nariz, como se fosse algo menor produzido por escritores menos talentosos, mantém-se vivo. E não se tratam apenas de reedições. Novos autores, ao injetaram contemporaneidade às tradicionais histórias de mistério, obtiveram um resultado surpreendente, que se traduziu em sucesso instantâneo.

O caso mais conspícuo é o do sueco Stieg Larsson, cuja trilogia Millenium, publicada no Brasil pela Cia. das Letras, já vendeu mais de 15 milhões de exemplares no mundo todo. O leitor não vai encontrar nas histórias de Larsson a típica figura do detetive. É uma jovem hacker, Lisbeth Salander, e suas ações quase sobrenaturais que irão operar o milagre de manter o leitor com a respiração suspensa da primeira à última página.

Mas existem opções para todos os gostos e bolsos. A L&PM está lançando títulos já conhecidos dos leitores brasileiros e inéditos do belga Georges Simenon, com a promessa de publicar os romances não policiais do autor. A editora gaúcha também está publicando os romances de Raymond Chandler, Ross MacDonald e Dashiel Hammett, para não mencionar a dama do crime, Agatha Christie, e sua conterrânea Ruth Rendell.

Se terminasse aí, a festa já estaria de bom tamanho, mas temos ainda a Coleção Negra, editada pela Record, e a série de ficção policial da Cia. das Letras, que trazem ao leitor uma diversidade de autores das mais variadas procedências, alguns jovens e premiados, como o norueguês Jo Nesbø.

Ao elaborar este breve inventário, noto que as coleções citadas não contemplam autores latino-americanos. Exceção ao carioca Luiz Alfredo Garcia-Roza, que comparece na série da Cia. das Letras com cerca de cinco títulos. O que explica o fato de o gênero não ter florescido entre os autores brasileiros? Por que não temos uma tradição de escritores dedicados à ficção policial? Logo o nosso país, com sua espiral incontrolável de violência urbana e enredos de crimes de fazer inveja às mentes mais febris. Tantos que basta esticar a mão e colher as histórias como se brotassem em árvores.

Pode ser por isso? A gratuidade daquilo que permeia nosso cotidiano afastaria nosso interesse? Ou seria mero preconceito, por julgar a literatura policial menos digna dos esforços mais elaborados?

Se assim for, cabe uma defesa. O que faz o charme e o atrativo do romance policial – que pode ser bom ou ruim, assim como a dita alta literatura – é exatamente sua qualidade, é a capacidade de produzir verossimilhança e beleza com extrema secura (“É preciso ser compacto, reduzir tudo ao osso”, relevou Simenon numa entrevista). E conseguir aquilo a que todo escritor almeja: capturar o leitor da primeira à última página.

Pode-se argumentar que, no Brasil, romancistas como Rubem Fonseca e alguns de seus seguidores produzem narrativas policiais. Não sei. Prefiro imaginar que suas ficções, ao retratar a violência urbana, incorporam ingredientes da ficção policial, mas transcendem seu objetivo. São antes romancistas. Não são autores policiais, não constituem uma linhagem. O chileno Roberto Bolaño, que faz um jogo sofisticado com os limites do gênero em sua literatura, disse certa vez que nada como um crime para prender a atenção do leitor. Mas também Bolaño, que afirmou que gostaria de ter sido detetive se não fosse escritor, não pode ser inserido no rótulo de autor de romances de mistério. Muito pelo contrário. Se existe algo que não cabe em sua literatura são rótulos.

Seja como for, a literatura policial segue arrebanhando leitores, impregnando e influenciando gerações de escritores. E o que é melhor: os grandes títulos estão bem ao nosso alcance, em boas traduções e a preços estudantis. Só não lê quem não quer.

*paulo_val@uol.com.br