terça-feira, 27 de outubro de 2009

Libertinagem











*Eduardo Sigrist

O clima na agência não estava nada bom naquele dia. Alguém seria mandado embora por quebrar uma das únicas regras morais criadas pelo chefe: não usar a internet para ver pornografia. Em outras questões o Herbert era liberal, mas quanto a isso era taxativo. Ele alegava que os publicitários da casa seriam influenciados pela sem-vergonhice dos vídeos e das fotos que, sem trocadilho, abundavam na rede, e essa erotização lhes embotaria a criatividade e os faria elaborar apenas propagandas e anúncios com mulher pelada. É por isso que se recusava a pegar serviço de fabricantes de cerveja, que “só pensam naquilo”, segundo ele. E é também por isso que ele estava irado, ao descobrir que alguém vinha baixando fotos pra lá de picantes.

Havia na sala um computador quase aposentado, mas que ainda quebrava o galho quando dava pau na máquina de alguém. Como ele ficava ao lado da mesinha de café, sempre havia algum desocupado ali, lendo notícias enquanto beliscava um biscoito de polvilho. Era um iMac velho de guerra chamado carinhosamente de Charlie Brown. O Herb não o vendia de jeito nenhum, pois tinha sido o primeiro Mac da agência e era uma espécie de mascote. E foi nesse querido computador que se deu o crime.

Com o almoço lhe pesando nos olhos, a Shirley tinha ido tomar sua dose sagrada de cafeína e aproveitou para ligar o Charlie e abrir o site de fofocas, a fim de saber se o Miguel Jorge ficaria com a Maria do Rosário numa das novelas mexicanas que ela não perdia. Logo que o computador funcionou – o que demorou minutos suficientes para ela tomar duas xícaras de café, comer uma bomba de chocolate que haviam comprado e experimentar “só uma lasquinha” do bolo de cenoura que a dona Júlia, mãe do Herb, tinha feito para o pessoal –, ela notou um arquivo estranho no desktop e clicou. A imagem ejaculada pela tela, cruz-credo, era coisa que nem seu namorado, o Bernardinho, tinha coragem de fazer. Não perdeu tempo: abandonou em brasa o Charlie e foi correndo avisar o chefe.

Herb fez uma reunião urgente, e já veio descendo a lenha na turma, dizendo que os colaboradores deviam se respeitar, que o espírito de equipe ficava fragilizado e que a ética profissional havia sido corrompida, o que representaria um grande retrocesso na busca pela excelência empresarial. Em seguida iniciou uma sessão de brainstorming para que cada um expusesse suas desconfianças e tentasse descobrir quem havia quebrado as regras de maneira tão desavergonhada.

Foi uma baixaria! Todos se acusando e se apontando o dedo do meio. As maiores perversidades foram relatadas e inventadas. A Rita da faxina se trancava no banheiro com o estagiário de design. A Shirley chegava atrasada todos os dias porque passava a noite com o irmão do Bernardinho. O seu Norberto, coitado, um revisor já beirando os cinquenta anos e católico de hábitos ortodoxos, foi acusado de sair de madrugada vestido de Carmen Miranda. A coisa estava ficando cada vez mais cabeluda, e só não sobrou para o Herbert porque, na hora em que iam contar sobre seu caso extraconjugal com a cadelinha da própria esposa, o técnico de informática entrou na sala. O salvador! Seria muito fácil para ele vasculhar o computador e descobrir quem havia baixado a foto.

O pessoal se reuniu em volta do técnico e do Charlie. Alguns suavam frio. Outros faziam a cara mais casta do mundo. E dois ou três quase se estapearam, ainda no clima da reunião. Mas a tensão durou pouco. Depois de clicar aqui e ali, testar senhas e procurar arquivos temporários, o rapaz consultou o histórico de buscas do Google e encontrou a pista essencial. A princípio ninguém conseguiu entender, depois todos começaram a gargalhar e apontaram para a única pessoa que poderia ter feito uma pesquisa com tais palavras: “fotografias pornográficas de raparigas devassas”.

Hoje seu Norberto morre de vergonha quando cruza com algum dos antigos colegas de trabalho. Mas não tem jeito, ele precisa sair de casa para entregar o currículo. Sua maior esperança é conseguir um emprego de revisor em alguma revista de sacanagem.

*eduardosigrist@gmail.com