quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Mendigo











*Cristiano Silva Rato

E como o vento, a sombra se esvai. Os dias passam com a velhice, e o eterno se torna cada vez mais áspero. José residia na rua, entre as palmeiras e arbustos das praças. Nos cantos, esquentando-se do frio, ou nas sombras, escondendo-se do sol. De dia sentia a grama verde e o orvalho da madrugada evaporando com o calor e os primeiros raios da manhã. Mas quando esses batiam, ao meio dia, junto com a mão do tira que fica parado na esquina todo santo dia, toda música que toca parece um jazz de um letrista abandonado e um saxofonista com dor de barriga.

Toda tarde sua mão erguia aos céus e aos transeuntes que por ali transeuntavam, clamando por louvor e “um pouco de misericórdia pelo amor de Deus”. A misericórdia custava R$ 1,00, para um prato de comida, e o amor de Deus, R$ 0,50, para o jantar, mais à tarde. Olhos sempre amargurados, o olhavam de cabo a rabo, insultando o seu cheiro de convívio pleno com etanol de primeira qualidade. De vez ou outra, uma mão se estende e uma prata ou outra cai. Quando isso acontece, ele é obrigado a se jogar ao chão, em meio aos pés, ao peso das pessoas.

As sombras dos prédios sobrepõem as das árvores e estas as dos carros e estas a do homem e a esta, nenhuma. A noite chega rápido, como um voo de avião do Rio Tietê, em São Paulo, à torre de Paris, onde as luzes não cessam de se ascenderem, riscando as estrelas do olhar humano. Parece o mundo ser uma válvula de escape, de onde os gritos entupidos não param de rosnar. A solidão só não é mais dura que a saudade. As lembranças vêm à tona. Ainda bem que você ficou comigo, João.

Seguimos por entre as praças. Seguindo os passos, desacelerando, as luzes ficando nas folhas, refletindo a noite. Bem próximo das escadas, na parte superior da praça, estava aquela presença múltipla. Os lábios mexiam em direções adversas. Sons grotescos misturados com o bafo da bebida eram soltos como se fossem vômitos de poetas ou filósofos declarando amor à vida através do suicídio. Tudo estava tão perto, o princípio, a escadaria, a força. Por que não?

Sabe João, não há uma necessidade real. Uma possibilidade certa de que existo. Às vezes me perco em olhares e tudo não passa de sons abstratos dançando à minha frente. As sandálias que uso sempre tropeçam no ar. Junto ao canto, andei durante muito tempo com os encantos que regulavam meu peito. Surpreendi-me diversas vezes com o pesado assombro dos ecos chicotiando a razão.

João ouvia tudo calado. Em um gesto bruto em direção ao nada, as mãos voavam como urubus lutando por um pedaço de rato morto.

Você está me perguntando se penso em morrer de vez em quando? Pois vou te dizer: “To-dos os di-as pen-so na mor-te!”. E o choro seco de uma carcaça feriu os olhos de quem passava.

“Vamos embora José”. João pegou José em suas costas. Ajeitou-o de modo que ficasse confortável para ambos.

*cristpsilva@gmail.com