sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Querem esterilizar a história











Alessandro Faleiro Marques*

Em vários contextos e por motivações diferentes, está havendo uma campanha contra os crucifixos. Algumas autoridades dizem que o Estado é laico, e não deve ter símbolos religiosos nas dependências de suas instituições. Os incrédulos já procuram outro “enfeite”, e até os religiosos andam trocando o crucifixo no pescoço por um potente pen drive, talvez mais útil para eles nestes tempos pós-modernos.

Dias atrás, em um curso muito proveitoso, ouvi de um frei que, na nova configuração dos templos católicos, tende-se a um destaque aos ícones do Cristo ressuscitado, substituindo os crucifixos colocados segundo as atuais normas litúrgicas. O foco em Jesus vitorioso sobre a morte é justíssimo entre os cristãos, afinal é o evento mais célebre dessa fé. Preocupa-me, porém, o ponto não necessariamente religioso da pendenga.

A palavra “sacrifício” tem origem no latim “sacrificium” (“sacer”: sagrado; “facere”: fazer), ou seja, fazer sagrada alguma coisa. O paralelo com o pensamento pós-moderno foi inevitável. Neste início de milênio, o individualismo, o prazer instantâneo, a pressa irracional e o excesso de informações fragmentadas nos sufocam e, ao mesmo tempo, nos envolvem. De repente, estamos nós a propagar valores questionáveis. Quando nos damos conta, já somos parte ativa da estrutura. Esforçar-se pacientemente para realizar um sonho, dar um passo de cada vez viraram coisa do passado.

Se os seguidores de Cristo comemoram a Páscoa, a ressurreição do Ungido, é porque, antes, houve a morte dele. A cruz era, no Império Romano, um instrumento de terror usado para executar pessoas extremamente perigosas para aquele sistema; e Jesus era uma dessas. Os primeiros cristãos a rejeitavam como símbolo, pois conheciam de perto o que ela representava. Era sinal de medo e vergonha. Só mais tarde, talvez no século III, a cruz ganhou uma conotação religiosa, celebrando a passagem de Jesus por ela para tornar sagrado o seu projeto.

A atitude de ignorar a cruz hoje pode reforçar algumas injustiças. Se vale somente o Jesus ressuscitado, já pronto, nesta nova concepção, doentes, encarcerados, miseráveis e outros excluídos podem ser esquecidos, inclusive pelos cristãos mais distraídos. Será um incremento à “teologia da prosperidade” (outro reflexo do atual hedonismo), segundo a qual, só os que possuem são os abençoados.

Ignorar os marginalizados, certamente representados naquele crucificado, é dar outro golpe no Deus que “sacia de bens os famintos e despede sem nada os ricos” (Lc 1, 53). E mais: a sociedade do descartável agradece; agora tem outra boa ideologia para justificar-se. Enfermos, idosos, crianças, desempregados, analfabetos serão aterrados, pois não produzem e nem compram, são peças quebradas, inúteis nas engrenagens insaciáveis do “mercado”, feito de carne e osso.

Mesmo quem não professa o cristianismo ou qualquer outra fé deve refletir sobre essa onda de jogar para debaixo do tapete o sangue, a sujeira, a tortura, o sofrimento divino e humano ao mesmo tempo. Isso pode refletir-se em valores que transcendem escolhas espirituais e afetar a vida de todos. Nós também precisamos do Deus imundo e ensanguentado.

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Em tempo, veja os comentários feitos por alguns leitores sobre o texto “O palavrão do livro didático”, o último que publiquei no Caos e Letras. Alguns são impagáveis! Recomendo antes, durante e depois das refeições.

* faleimar@hotmail.com