sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Sobre pedras











*Eduardo Sigrist

Não vendo, não. Nem troco por esse pão seco. Fui eu que roubei, faço o que eu quiser com ele. Acho que vou guardar no bolso, pra admirar de vez em quando. Ou usar. É mesmo, vai pegar mal pôr no dedo um anel com uma pedrona dessas. Vão pensar que sou mulherzinha. Vou só guardar, então, pra de vez em quando dar uma espiada e lembrar o olhar carinhoso da moça que era dona dele. É, carinhoso, e não medroso. Você tá surdo ou o quê? Acha que ninguém pode sentir carinho na hora que tá sendo roubado? Pois ela sentiu. Eu senti que ela sentiu. No começo se assustou, deve ter pensado que eu era bandido. Sou ladrão, é diferente. É claro que é diferente. Bandido faz maldade. Eu só roubo pra comer. Eu sei, eu não comi esse boné aqui. Mas é que achei ele tão bonito, tão bacana, tão, sei lá, vermelho. Você já viu um vermelho tão vermelho? Prefere preto? E eu com isso? Pra você tudo é escuro, você tem ódio de tudo. Desse jeito vai matar alguém só por raiva e acabar na cadeia. Eu prefiro vermelho, tá! É a cor do vestido que minha mãe usava naquela noite, quando saiu de casa. Disse que ia ganhar dinheiro pra me comprar um carrinho. E nunca mais voltou. Sei lá se morreu ou se fugiu com homem. Só sei que fiquei sozinho. Três dias. E não vem tirar sarro, mas eu chorei, sim. Que tem de errado? Só por que você acha que é o dono da rua pensa que não pode chorar? Eu chorei e ainda choro. Sou menino. Dizem que a gente vira homem depois que faz dezoito anos. Então ainda falta um tempão. Até lá, quando eu ficar triste de fome, triste de frio, triste de sozinho, vou abrir o berreiro, mesmo. Não tenho vergonha. Só vou ter vergonha se minha mãe me encontrar aqui, todo sujo. Mas também, é um pouco culpa dela, né. Passei três dias esperando. Quando não tinha mais o que chorar nem o que comer vim pra rua. Foi no ano passado, eu acho. Nossa, faz tão pouco tempo e eu já tô esquecendo a cara da minha mãe. Do vestido eu não esqueço, mas da cara... Será que eu não gosto mais dela? Agora toda vez que penso na minha mãe me vem na frente o rostinho da moça do anel. Bonita igual, só que mais nova. Ah, eu tava falando dela e você veio com a história do boné. Pois é. De tão bonita, tão coradinha, ficou branca de susto quando me viu tirar a faca e pedir a bolsa. Quase se borrou. Abriu a bolsa tremendo, disse que só tinha documento. Eu dei uma olhada, parece que não tinha nada legal, mesmo. Pra que eu ia querer documento de mulher? Aí vi o anel no dedo dela. Uma belezura de pedra verde, maior do que o mar lá da minha terra. Pela hóstia, fiquei bobo de encantado. Até meio desnorteado. Segurei a mão dela por um tempão e só disse “que bonito”. E ela não tirou a mão. Então olhei pra cima e vi que me encarava. Me olhava tão forte que perdi até o jeito. Olhar de mãe. Meigo. Deve ter ficado com pena e pensado “o que um menino como esse tá fazendo na rua?” É, todo mundo acha que por ser loirinho eu devia ter família, casa, uma vida melhor. Vê você, negão desse jeito. De você ninguém tem pena, não, e até atravessam a rua quando trombam contigo. Mas de mim ninguém espera coisa ruim. Só percebem que sou ladrão quando tiro a faca. A moça se assustou no começo, depois ficou me olhando com um zoião mais verde que o anel. E mais brilhante. Só que era um verde triste, doía mais que bordoada de polícia. Quase saí correndo de vergonha, de tristeza, de saudade da mãe, sei lá. Fiquei desenxabido. Larguei a mão dela. Larguei a faca. Larguei minha cara no chão e saí devagar. Parecia que eu tava roubando minha mãezinha. E você não vai acreditar, eu já ia virar a esquina quando ela perguntou “não vai levar o anel?” Voz de anjo. Não sei como eu consegui, mas voltei. Catei o anel, que ela já tinha tirado do dedo, olhei a última vez pra ela e me mandei. Saí correndo. Não queria que ela visse minha cara de cachorro quando ganha um osso. Só ouvi ela gritar “troca por um lanchinho”. Pode? Troco não. Esse anel é meu. Vou guardar bem guardadinho. Sou bobo de vender? O Migué ia me pagar quanto? Três contos, o babaca? Isso não tem preço, é lembrança de anjo, de fada. Ou será que minha mãe morreu, e era o fantasma dela me protegendo? Cruz-credo, não gosto de fantasma, mesmo que seja de mãe ou de criança que não nasceu. Lembra aquele que a gente viu no muro do armazém, carregando um saco cheio de cabeças? Se a gente não tivesse corrido, hoje ele ia ter mais duas cabeças lá dentro. Eu hein. Fantasma é pior que vampiro. Ãh? Como não? Deixa de ser besta. É claro que existe vampiro, todo mundo sabe disso. Fantasma também. Mas ela não era fantasma não, acho que era uma fada. Ou então era gente de carne, mesmo. O Olavo me contou que existe gente boa. Isso eu juro que nunca tinha visto até conhecer a moça. Ela deve ser uma gente boa, sim. E é por isso que não vendo o anel. De jeito nenhum. Ele nem é roubado, se for ver bem. Eu já tinha saído, desistido do roubo. Aí ela me chamou pra entregar o anel. Então é dado. Presente. Será que ela me deu porque gostou de mim? Você sabia que, quando um homem gosta de uma mulher, ou quando casa, ele dá um anel de presente? Já viu casamento? Eu vi o do meu vizinho. Ele botou um anel dourado no dedo da mulher. E ela no dele. Tá certo que depois de uns dias o que ele botou foi um chifrão nela, do tamanho do pé de manga lá do campinho. Mas que a festa foi bonita, foi. Tinha até bolo! O casamento da minha mãe eu não vi, só em fotografia. Ela me mostrou uma foto de um homem de bigode, vestido de branco. Disse que era o meu pai. Eu vou usar bigode. É importante. Queria um bigodão federal igual do meu pai. Quê? Não, não conheci. E minha mãe nunca falava dele. De vez em quando ela levava homem pra casa, e eu sempre achava que era meu pai. Só que toda vez era um diferente. Branco, preto, japa, gordo. Tudo sem bigode. E nem me davam bola. Por isso vou usar bigode só pra me vingar deles, mostrar que sou o bom. Quando eu casar, minha mulher só vai ter eu de homem. E eu só vou ter uma mulher, a mais bonita. Vou chegar do trabalho com roupa branca, maleta e chapéu. E bigode. Limpinho. Ela vai casar de vermelho, com esse anelzão aqui no dedo. Só preciso arrumar um pra mim, porque no casamento homem também usa anel. Bem que aquela moça podia me dar outro igual. Eu até que casava com ela... Ei, Carniça, acorda. Eu não disse que você só pensa em ruindade? É só eu falar de coisa boa que você nem dá atenção, começa a dormir. Eu tava falando que vou casar com a moça do anel. Vou sim. Quê? Sai pra lá. Não vou apostar nada. Você nem tem o que apostar, fora esse pão seco que ganhou ontem e nem teve coragem de comer. Quem aposta come bosta. Sou bobo não. Eu vou casar e pronto, e com a moça do anel. Vai ser a festa mais bonita do mundo. Você vai estar aqui na rua e vai ver eu passar com minha mulher num daqueles carrões de gigante. Já sei! Você vai ser meu padrinho. Vai sim, eu juro. Contanto que não afane o relógio dos convidados. Vou ficar de olho. E você vai comer um pedaço tão grande do meu bolo que nem vai caber nesse seu estômago magrelo. Ah, agora você acordou, né. É só eu falar de comida. Pois vai ter rango e tubaína pra cidade inteira. Você não vai mais querer sair da festa pra rasgar saco de lixo na calçada. A gente vai virar parceiro, mas não de ladroagem. A gente vai é ser advogado, pra defender esse povo daqui, debaixo da ponte. Defender os moleques que apanham do Migué quando não conseguem roubar nada pra pagar o bagulho. É isso aí. Tô cansado do Migué. Você viu a cara dele hoje, quando cheguei com esse anel? Ficou babando na pedra verde, perguntou se eu não queria trocar por outro tipo de pedra. Sai fora, eu disse pra ele, não uso essas coisas não. E ele tentou me tomar o anel, me deu um soco na fuça. O Olavo me protegeu, mas o Migué disse que volta amanhã pra me pegar e pra levar o anel. É por isso que eu vim falar contigo. Vim dizer que tô caindo fora. Tava pensando em ir lá pra onde eu morava, ver se minha mãe voltou. Isso eu tava pensando antes de a gente conversar. Agora mudei de ideia. Eu vou é lá pro bairro dos gringos encontrar a minha noiva. Vou casar ainda hoje. O que você acha? Acha que tô louco, que eu cheirei cola? Já disse, não uso nada disso. Moro na rua, sou ladrão, mas sou de família, viu. Fui até pra escola. E nem vem, não vou cair na do Migué. Trocar essa pedra linda por aquela outra, fedida... Você diz que fumar pedra é bom, que faz a gente viver melhor, faz encontrar nossa mãe. A pinoia! Quando acaba o efeito, você tá sempre na pior, e em vez da mãe quem vem é o Migué ou a polícia descendo o cacete. E você fica com essa cara de lagartixa atropelada. Parece o esqueleto que vi no cemitério outro dia. Se pedra pelo menos matasse a fome, em vez de fazer de conta. Ela vai acabar matando é você mesmo, igual fez com o Pirata. Prefiro a minha pedra verdinha, presa no meu anel de casamento. Quando olho pra ela, vejo a minha noiva, vejo o mar sem fim onde a gente vai morar. Não preciso fumar pra enxergar essas coisas. Olha aqui, dá pra ver até a minha vó contando história de rei. A vó morreu faz tempo, nem lembro dela. Só lembro que ela disse que eu ia ser príncipe, ia casar com uma princesa. Será que é isso, a moça é uma princesa e veio me trazer um anel encantado? Então tenho que correr lá, encontrar com ela, porque ouvi dizer que esse tipo de encantamento acaba meia-noite. Besteira nada. Você é que é um estraga-prazeres e não tem sonho. Eu tenho sonho, sim. A rua não vai ser sempre minha casa. Vou morar na praia, numa mansão, lá perto de onde eu nasci. Com cachorro e tudo, e com um parquinho enorme. Vou virar na roda-gigante, eu e minha mulher. E toda a molecada daqui. Subir, subir, até chegar no céu. Tá bom, vou ficar quieto, porque você tá com sono. Pra falar a verdade, eu também tô um bagaço. Acho que vou deixar pra casar só amanhã, agora é muito tarde e a igreja já fechou. Mas não comi nada hoje, e não consigo dormir com fome. Vou tentar dar uma cochilada, quem sabe eu sonho com o bolo do meu casamento e aproveito pra comer um pedaço. Amanhã cedinho eu vou lá procurar a moça. Então é melhor dormir logo. Nossa, o chão tá mais duro hoje. Me dá um pedaço do seu papelão, que o meu levaram embora. O meu é que era bom, era de caixa de televisão. Minha mãe tinha televisão, sabia? Eu via um montão de filme. Sempre passava um que eu adorava. Tinha um cara forte que batia em todo mundo e no final casava com a mulher mais linda! Igual vou fazer amanhã: dar um murro no Migué e ir lá casar com a minha princesa. Mas ela é mais bonita do que as artistas. Você vai ver, eu vou aparecer na televisão com ela. Tá bom, seu chato. Dorme aí, molão, enquanto eu planejo meu futuro. Ouvi um homem de bigode dizer isso num filme: planejar o futuro. Tão bonito falar assim!

Carniça! Tá dormindo? Eu só ia te perguntar uma coisa. Rapidinho. É que eu tava pensando... se eu não conseguir encontrar a moça amanhã, você jura que me dá aquele pão seco em troca do anel?

*eduardosigrist@yahoo.com.br