sábado, 10 de outubro de 2009

A volta por cima

*Paulo Lima

Eli Gottlieb começa seu romance O homem que você vai ver (Rocco, 240pp.) com algumas questões que parecem espelhar bem o estranhamento destes tempos sombrios.

“Seria justiça dizer hoje em dia que as pessoas, de certo modo, começaram a duvidar da própria vida? Que desconfiamos do que comemos, que tememos nossos filhos e que, consequentemente, cada um de nós se fecha no topo da pirâmide da ironia defensiva para de lá observar funestamente a paisagem?”

Uma vez estabelecido esse promissor início, se torna difícil para o leitor não aceitar o convite do autor para seguir em frente numa história de vidas bruscamente interrompidas, relações desfeitas, crime e castigo, tendo como cenário uma pequena cidade americana.

Monarch é um daqueles lugarejos cercados por montanhas onde a vida besta transcorre desprovida de novidades, até que esse equilíbrio é abalado pela notícia de um homicídio. Típico, diria o leitor. Mas não sob a prosa perspicaz de Eli Gottlieb. Mais uma vez, uma regra pode ser aqui confirmada, no universo sem regras da literatura. Vale mais a forma de como se conta, do que aquilo que está sendo contado. É a linguagem do autor e seus recursos que imprimem verossimilhança à narrativa.

O livro conta a história de Nick Framingham, o protótipo do pacato cidadão de meia idade enredado num casamento que há muito perdeu a chama. Seu trabalho é insípido. Seus filhos não lhe demonstram afeto. Só que ele é incapaz de tomar uma decisão sobre sua vida. A inércia o conduz. Até que um dia ele toma conhecimento de que Rob Castor, seu querido amigo de infância, um escritor bem sucedido,cometeu um homicídio.

O episódio não põe apenas a sonolenta Monarch de pernas para o ar. A vida de Nick sofre uma guinada drástica. Afinal, Rob Castor era uma espécie de mentor, de avatar, de ídolo para Nick. Cresceram juntos, e juntos atravessaram os turbulentos anos da adolescência. Foi somente quando Rob se tornou um escritor famoso e mudou-se para Nova York com a namorada Kate Pierce (assassinada por Rob), que a distância cresceu entre os dois amigos. Ao repassar essa amizade de alta voltagem emocional com Rob, Nick relativiza sua vida e seus afetos, mergulhando numa profunda crise de identidade.

“Os artistas vivem principalmente da própria imaginação e às vezes lhes é difícil acreditar que realmente existem”, reflete Nick sobre a natureza do seu amigo Rob Castor. Talvez a afirmação sirva também para Nick, que é impelido rumo a um torvelinho inesperado depois da tragédia. O que ocorre a partir daí é um progressivo distanciamento da família, resultando em divórcio. Nesse meio tempo, Nick acerta as contas com os pais, comete adultério com uma paquera da juventude (que por acaso vem a ser a Irmã de Rob Castor) e parte para uma vida nova.

O romance reserva um final surpreendente, mas no meio do caminho o leitor já terá sido capturado pelos insights psicológicos de Nick Framingham sobre a verdadeira natureza dos relacionamentos, do sucesso e da amizade.

*paulo_val@uol.com.br