sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Clube da Luta: um soco na sociedade do consumo











*Eduardo Sabino

“Eu sou o frio na espinha de Jack. Aquele frio de ódio de estar em vários lugares. A onipresença do que não existe dentro de cada um de nós”

Dezenas de homens estão reunidos no porão de um boteco. Eles rodeiam dois novatos do grupo que, sem camisas e sapatos, espancam-se de punhos cerrados. No grupo, há garçons, executivos, cozinheiros, advogados, médicos e até policiais. Mas ali nenhum deles tem nome ou profissão. No clube, eles são um só. Nesse instante, entram em cena o proprietário do bar e seus capangas. Armados. Interrompem a luta e ordenam que aquele bando de “irresponsáveis” saiam dali para sempre. Tyler Durden, o líder, pede permissão para continuarem as reuniões. Recebe como resposta um soco. Continua a provocação e leva uma surra do dono do bar. Tyler recebe os golpes às gargalhadas, assustando os membros do clube. Por fim, se joga em cima do agressor que, desesperado com o homem maltrapilho e surrado cuspindo sangue em seu rosto, acaba aprovando a continuidade do clube. Após a surra, Tyler é carregado pelos outros e colocado numa cadeira. É o momento em que passa a primeira lição de casa para os membros do clube. “Nesta semana”, diz com dificuldade, “vocês vão provocar uma briga com alguém... e vão perdê-la”.

Essa é uma cena de um dos filmes mais representativos dos tempos pós-modernos, Clube da Luta, de David Fincher, lançado em 1999. Fincher adaptou o livro homônimo do escritor norte-americano Chuck Palahniuk e brindou os amantes da telona com uma verdadeira obra-prima.

Clube da Luta toca na ferida da sociedade de consumo. Apresenta a negação do ser humano ao mundo das mercadorias globalizadas como raras vezes se viu no universo artístico. O filme aponta: tão vazio como as coisas são os consumidores atuais, perdidos entre cartões de crédito, logomarcas e informações para consumo.

O protagonista e narrador (Edward Norton) é um executivo de uma companhia de seguros, do qual, do início ao fim do filme, não saberemos o verdadeiro nome. O seu trabalho é investigar acidentes e fazer relatórios, preferencialmente com argumentos capazes de isentar a empresa dos pagamentos de seguro. Ele tem uma vida confortável, um apartamento luxuoso e o hábito de trocar, mês a mês, toda a mobília. Mas existe algo errado com sua vida. E por não saber o motivo, não consegue dormir.

A primeira solução para o vazio é participar de sessões de terapia. Em meio a doentes terminais de câncer, parasitas do cérebro, doenças respiratórias, entre outros graves enfermos, acaba encontrando mais sentido para a vida. Passa a dormir como um bebê. A alegria dura até o surgimento de Marla. Uma mulher aparentemente saudável que começa a frequentar também as reuniões. Logo percebe: outra impostora. Diante disso, a sua mentira se torna vulnerável, e a insônia restabelece.

É Tyler Durden (Brad Pitt) quem resgata o narrador do abismo. Conheceu-lhe no avião, numa viagem a trabalho. Após uma suspeita explosão de seu apartamento, o protagonista acaba dividindo um casarão abandonado com o estranho. “Perdi tudo”, confessa a Tyler. “Não perdeu”, retruca o novo amigo. “Você achava que possuía aquelas coisas, mas eram elas que possuíam você”.



A partir daí, os dois começam o confronto direto com o mundo do consumo. Tayler, alegando não querer morrer sem uma cicatriz, pede para o outro batê-lo na cara, com força. Os que assistiam àquela espécie de briga entre amigos tornam-se os primeiros integrantes do clube.

O Clube da Luta não é sobre perder ou ganhar, muito menos violência gratuita, mas uma espécie de refúgio para a verdadeira violência, a das belas imagens dos outdoors. Ali acontece o que o filósofo Zizek chamaria de busca da totalidade do real. Os homens do clube se confrontam com o mesmo objetivo clinicamente comprovado das pessoas que se dilaceram para ver o sangue correr. Sentiam-se mortos, num mundo de imagens, e os socos e pontapés é a maneira de se sentirem vivos.

O que era um subterfúgio para a realidade ilusória do capital transforma-se em confronto direto com o sistema. A ideia alastra por cidades, Estados, ganha filiais. O Clube da Luta transpõe o limite físico, vira conceito. Quando Tyler ordena, “vocês vão provocar uma luta e vão perdê-la”, diz o oposto dos gestores do mundo do consumo. A briga agora é com a própria competitividade mundana, essa necessidade de sempre vencer no mercado-vida. Enquanto o marketing trata você, cliente, como um ser especial, Tyler grita aos seus discípulos por um megafone: “Vocês não são especiais. Vocês são a merda ambulante do mundo”.

O clube desenvolve para o Projeto Caos, uma teia tão grande como as redes do mercado, com técnicas semelhantes (embora aplicadas às escondidas) para novas adesões. Destruição de outdoors, boicote de eventos empresariais e até coisas que seriam classificadas simplesmente pela mídia como terrorismo, tornam-se os meios para o Projeto Caos cumprir sua “missão”. A ideia, pasmem, é destruir os alicerces da civilização e recomeçá-la.

Há quem defina o filme como um surto, bancado pelas mesmas corporações contra as quais se choca. Há quem não entenda nada, comparando-o aos enlatados estadunidenses. Outros, como eu, incomodam-se com o soco na cara. Golpe violento, mas que nos lança para além das cavernas de granito.

Concluo por minha conta e risco, um dos longa-metragens mais corajosos de todos os tempos. E nem mais uma palavra. Já descumpri bastante as duas primeiras regras do clube.

*eduardosabino1986@yahoo.com.br