quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Notas de um leitor infiel











Paulo Lima*

Nesses últimos dois anos, poucos escritores me deram tanto prazer com seus livros quanto o chileno Roberto Bolaño, morto aos 50 anos em 2003. Com o lançamento de seus romances e contos num mercado refratário a autores estrangeiros como o americano, Bolaño atinge um sucesso jamais obtido antes por um escritor latino-americano em língua inglesa, exceção talvez de Gabriel García Márquez, graças ao boom do realismo mágico. O êxito sugere uma espécie de bolañolatria. Seu romance póstumo 2666 foi eleito pelo New York Times como um dos 10 mais importantes de 2008.

O mais curioso é que meu primeiro contato com um livro de Bolaño passou longe do que eu poderia chamar de uma epifania. Havia lido notas esparsas sobre uma nova geração de escritores no continente que questionavam os velhos totens literários, como García Márquez. Esses novos autores argumentavam, não sem razão, que a realidade de países como Colômbia e outros da América Latina já era por demais fantástica, com seus índices de violência endêmica e caos social. Esse território literário tão desafiador, julgavam eles, deveria ser explorado mediante novas fórmulas narrativas. Adiós, realismo mágico.

Um desses rebeldes era Roberto Bolaño, e o primeiro livro dele que me caiu às mãos foi Noturno do Chile, o primeiro publicado no Brasil. Naquele momento, a novela me soou um tanto modernosa, com sua narrativa em bloco e a inexistência de parágrafos. E a imagem de Bolaño, olhando de modo esquivo para a câmera e segurando um cigarro entre os dedos, me sugeriu tudo menos a figura de um revolucionário.
O encontro de um leitor com uma obra é um desses mistérios da literatura. Por que um romance pode entusiasmar o leitor X e soar como uma decepção para o leitor Y? Talvez isso sugira diferentes gradações de amadurecimento ou idiossincrasias próprias de cada leitor.

Em relação a Bolaño, a epifania ocorreu com a leitura do romance Os detetives selvagens. O romance me capturou não apenas pela forma original, mas também pela narrativa delirante. Como toda a obra de Bolaño, Os detetives selvagens até poderia flertar com gêneros conhecidos, mas não se enquadrava em rótulos. Era como desbravar um território desconhecido. Bolaño falava de sua geração e de um contexto político - os anos de terror na America Latina dos anos 1970 - sem incorrer em sociologismos ou análise política. O leitmotiv do romance era simplesmente literatura em altíssimo nível. E literatura com humor, como se embarcássemos numa montanha-russa e fôssemos conduzidos por uma sucessão infinita de achados narrativos.

Tornei-me um leitor monotemático. Quer dizer, enquanto lia Bolaño – e depois de ler Os detetives selvagens passei a ler tudo dele que me caiu às mãos em português e espanhol -, percorria também outros autores, mas a prosa anárquica e selvagem do chileno ditou, por assim, um padrão literário pessoal. Como bem frisou um crítico recentemente, Bolaño era um animal literário. Prova cabal de que vivia exclusivamente para a literatura é o fato de ter negligenciado o próprio tratamento médico, que poderia ter lhe prolongado a vida, para se dedicar ao seu último romance, 2666. Havia uma preocupação paterna com o futuro dos seus filhos, e talvez um sentimento de que o fim era iminente. Mas os inúmeros testemunhos de amigos que conviveram diretamente com ele, expostos em livros como Bolaño Salvaje (inédito no Brasil), dão conta de que Bolaño respirava 100% literatura.

Conto aqui algumas peripécias que fiz para conseguir alguns livros de Bolãno que chegaram ao mercado espanhol, movido pela convicção de que, por conta da lerdeza das editoras brasileiras, tão cedo eu não iria lê-los em português.

O lançamento de Bolaño Salvaje me deixou eufórico. Se você quer conhecer um autor, o caminho lógico é: leia sua obra. Mas os entornos biográficos e críticos estão inextricavelmente ligados à obra de um autor e ao nosso interesse por ela. E Bolaño Salvaje reunia uma fortuna crítica sobre a obra do chileno, com artigos, análises e testemunhos pessoais. Além disso, trazia como bônus um DVD com o documentário Bolaño Cercano, que incluía depoimentos da viúva Carolina López e amigos íntimos, como o escritor Enrique Vila-Matas. Mobilizei então uma rede de contatos na internet – onde mais? – e pude receber o livro.

A um amigo que visitou Buenos Aires à época do lançamento do mega romance 2666, fiz um pedido explícito: que me trouxesse o livro. Livre do frete e com o peso argentino caindo pelas tabelas, o livro me sairia por uma pechincha. Finda que não me custou um centavo. O amigo não só trouxe o livro, como avisou que era um presente.

A Cia. das Letras publicou recentemente mais um romance de Bolaño, Estrela distante, e promete para março o lançamento de 2666. Confesso que li Estrela distante com uma sensação de déjà-vu. Está lá a criatividade vertiginosa de Bolaño, o contexto político no qual poetas rebeldes lutam e sucumbem perante o terror. Literatura pura, cult, senão no mesmo nível de obras como Noturno do Chile ou Os detetives selvagens, mas ainda assim com o selo Bolaño de qualidade literária.

É bem verdade que, como leitor voraz, li nesses dois anos escritores dos mais diversos quadrantes geográficos e estilísticos, em quantidade e qualidade. Eles constituíram, por assim dizer, minhas universidades. E é natural que essas leituras tão distintas tenham ampliado meu eixo de interesse. Receio, como já ocorreu em outras ocasiões, com as obras de outros escritores, que minha bolañolatria atingiu um declínio. Mas, para nós leitores, a literatura não é dotada de uma força inesgotável? Cada autor não é um universo diferente? E cada grande obra não carrega uma magia em si? Tudo o que resta a quem de fato ama a literatura é mergulhar nesse universo sem fim.

*paulo_val@uol.com.br