sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Campos ceifados











Márcia Barbieri*

“Não há falta na ausência. / A ausência é um estar em mim. / E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços (...)”.

Carlos Drummond de Andrade


O rio é um mar pequeno, infinito e tenebroso. Cavalos marinhos devorando submarinos de todas as cores e mastigando cadáveres frescos. Carvalhos sentimentais. Cardumes de olhos me olham. Espiões. Peixes esperando serem fisgados.

Relembrar é estranho... É viver duplamente o que deveria ser subtraído da memória. Reencarnações. Engulo estranhas pílulas brancas. Não se compra a paz. A sanidade num frasco de vidro. Medley. Duzentos anos para decompor. Tarja preta.

O divã é um culto intelectual às emoções mortas. Lázaro e suas roupas em farrapos.

- O que você está sentindo?

Moscas mortas. É o que eu vejo toda vez que fecho os olhos. O perolado das moscas mortas. Varejeiras.

- Conte mais. O que mais você vê?

Redes resgatando enguias. Cristo mergulhado em ódio e silêncio. Sinestesias. Mantos revestindo pedras. Sanguessugas cobrindo meu corpo.

- E a sua infância? Qual o cheiro da sua infância?

Vísceras frescas. Leitos. Vidas submersas. Chuvas e escombros de janeiro. Velas queimando sobre carne. Diálogos escorregando entre os vãos obscuro da portas.

- E a morte? Você tem medo da morte?

Não. Penso na morte como números cabalísticos. Inevitável. Roda da fortuna.

- A morte não te surpreende?

A morte, algumas vezes, não é surpreendente. Não chega feito um batedor de carteiras. Vem mansa e certa, como a correnteza... Como uivos em noite de lua plena.

Como o suicídio previsível dos desesperados.

- E a sua mãe, gostaria de falar dela?

A minha mãe estava na beira do rio comigo no colo, não me recordo nitidamente, acho que meu irmão brincava um pouco mais distante, aí então...

- pode continuar.

... foi então que ela perdeu os sentidos, a vida perdeu o sentido. Eu puxei-a pelos cabelos e gritei, gritei, gritei, mas a correnteza foi levando, levando... Ainda sinto seus cabelos escorregando entre meus dedos finos e enrugados, sua vida se tornando fluida e transparente.

Era um aquário, depois virou rio, depois virou mar.

- E o mar?

O mar é apenas um rio grande, infinito e tenebroso. Tão somente... Campos ceifados.

*marcia_barbieri@hotmail.com