quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Cap II - Magna Carta: em um canto do bar...











Cristiano Silva Rato*

Suas pernas deleitam os olhares agressivos que sobressaem aos rostos pálidos, ao canto direito da mesa, no bar. Cheio de vozes, ecoando por entre os canos. Os bonés, abas retas, deletam quem quer se parecer bandido. Há alguns dias a polícia bateu suas mãos ásperas nas nossas nucas, pernas, peitos e caras. São uns desgraçados mesmo, todos, uns pés rapados, presos na cadeia dos gestos, repetindo a ilusão do Leviatã.

Os cabelos voavam em todas as direções, desregulando o harmonioso cheiro de fritas, cervejas, pingas e outras porcarias cujo sabor fica suspenso em meio à necessidade. Sua voz não se ouvia, perdida nas ondas podres de falas roucas, com fumos, bebidas e cheiradas. Homens malditos, que enxergam os outros olhares, mas fatigados do holocausto da vida se entregam à delinqüência de viver os sabores amargos das bebidas.

Busquei seus olhos, grandes e belos, no rosto, escondidos entre a consciência e a ilusão. Voltei o copo de pinga à minha boca, fechei os olhos para não sentir o sabor queimando meu estômago. Não queria mais, mas não sou mais dono da vontade. Acho que é deste modo que os malditos que estudam as condições do homem devem fazer todo santo dia: viciar mentes, depois viciar corpos, levar os sonhos até uma base concreta, demonstrar que todo sentido é possível. Planejar tudo, em longo, médio e curto prazo. Consumir tudo: básicos, espetáculos e drogas; medianos, trabalhos e estudos; delongados, o meio e a mensagem.

E tudo não passou de uns copos de conhaque, dois ou três baseados, e o amargo indescritível da bile sendo ejetada de meu corpo para o copo. Mesmo assim lembrei que você era a desculpa, desta vez, para minha via sacra do dia. A dor que sinto é a dor que sempre tive. Um riso alto ecoa no fundo do bar, corta minha viagem. Odeio ter que voltar. Sempre a uma imagem do mundo.

*cristpsilva@gmail.com