terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O dilúvio











Eduardo Sigrist*

No ponto de ônibus, nem sinal do 7282. Devia estar enroscado em algum canto do Parque Continental ou boiando junto com as melancias da Ceagesp, lá pelos lados da Gastão Vidigal. A chuva mais uma vez não perdoou os paulistanos e impediu muita gente, como eu, de chegar ao trabalho. Era melhor voltar para casa e ligar para a chefe avisando que seria impossível aportar no escritório, acrescentando um quase sincero pedido de desculpas por faltar ao serviço.

Eu já estava abrindo o guarda-chuva para ir embora quando percebi a moça ao meu lado. Morena, cabelos escorridos. Ela chorava, enquanto cochichava no ouvido do celular. Como pude ter ignorado aquela pessoa, que chamava a atenção justamente por usar o aparelhinho de maneira tão discreta, numa época em que todo mundo pensa que celular é megafone e passa a gritar todos os detalhes de sua vida íntima para quem quiser ouvir? É claro que, para um escritor, é bastante instrutivo e inspirador ouvir o modo como as pessoas se expressam, observar gestos, captar aqui e ali uma frase do tipo "Meu pai não foi no casamento da Tânia porque ficou com o papagaio", imaginar histórias e criar personagens verossímeis. Mas chega uma hora em que a gente quer sossego e não tem o menor interesse em saber que uma das peruas do banco de trás passou a comprar uma nova marca de absorvente por ser mais confortável.

Talvez por isso a moça que chorava fosse tão encantadora. Era discreta na sua conversa, apesar de o choro não ser nada contido ‒ ao contrário, ele corria desembestado, sem vergonha de demonstrar toda a tristeza daquela alma. Seriam aquelas lágrimas as causadoras da inundação de São Paulo? Pensei na saudosa viola que declamava: "O rio de Piracicaba vai jogar água pra fora quando chegar a água dos olhos de alguém que chora". Cheguei a levantar as mãos para pedir que a moça parasse, e quase ordenei que não chorasse mais, mas percebi que São Paulo e o Tietê zombariam de meu romantismo e de minha ingenuidade de interiorano. Além disso, não achei justo interromper um choro tão exuberante.

Aguardei mais alguns minutos, olhando de vez em quando para o final da rua, só para disfarçar certa preocupação com a chegada do ônibus. Meu interesse, porém, era unicamente a moça que chorava. Qual o motivo de tantas lágrimas? Uma briga com o namorado é sempre a primeira hipótese no caso de alguém daquela idade. Mas a conversa tão discreta e delicada ao celular não denunciava qualquer sinal de briga. Era algo mais profundo. A morte de um parente? Do cachorrinho de estimação? A reprovação em alguma matéria da faculdade? A chuva a estava impedindo de participar de uma entrevista de emprego? A melhor amiga estava muito doente? O irmão mais velho e querido havia se mudado para o exterior? Não era possível reconhecer nada naquele rosto de cerca de vinte anos. Ah, por que os jovens são tão indecifráveis?

Eu fazia mil conjecturas no momento em que ouvi um motor conhecido. Meu ônibus se aproximava, e eu, mesmo sem saber o que fazer da vida ‒ tentar chegar ao trabalho, voltar para casa ou ficar ali observando a cena ‒, acabei dando um sinal automático e embarquei. Fiquei sem resposta para minha dúvida.

Dentro do veículo, ainda olhei pela janela e vi pela última vez a moça que chorava. Ela acabava de guardar o celular na bolsa e levantar o rosto para o céu. As lágrimas continuavam a cair. Em meio ao vermelho das órbitas e ao cinza do dia, os olhos verdes se destacavam.

Tenho certeza de que nunca mais a verei. Em São Paulo, as pessoas chegam e desaparecem como as águas da enxurrada e as promessas dos políticos. E mesmo o choro delas acaba se dissipando tão depressa quanto as nuvens de dezembro, e é tão efêmero quanto as palavras desta crônica. Parece que todos, mesmo na infelicidade, têm vergonha das próprias lágrimas. Infelizmente.

*eduardosigrist@gmail.com