sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O tamanho do que não enxergamos











Eduardo Sabino*

Sonhei, certa noite, que todos éramos formigas. Caminhávamos por um desfiladeiro. Algumas com gafanhotos nas costas, outras com migalhas, outras se arrastando com as vísceras expostas e com fome. Mas todas predestinadas ao fim.

Fernando Pessoa, no auge de sua loucura – onde poucos sábios estiveram – diz algo aparentemente simples: “O homem é do tamanho do que vê”. Talvez por isso os homens tidos como grandes pareciam enxergar o mundo de cima. A mensagem na garrafa de Adorno não nega a solidão de seu autor. Alguns deixaram o formigueiro para vê-lo melhor. Não há pensamento sem distanciamento.

Deve ser por isso que as pessoas fanáticas, dessas que praguejam contra os pecadores em praças públicas, parecem ser tão pequenas. Definiram o seu campo de visão, aceitaram as regras e as paisagens serão sempre as mesmas, oscilando, é claro, entre o céu e o inferno. Sem a dúvida, os homens viram pedras. Destas acostumadas a esticar um dedo, de quatro em quatro anos, para dar sequência ao show de talentos do Planalto, onde os artistas fazem de tudo para não serem eliminados: cantam, dançam e representam.

Mas o olhar limitado é antes de tudo um olhar direcionado. Houve quem embaçou a vida dos outros ao longo dos séculos. O Zaratustra de Nietzche, ao cruzar com pessoas pobres de espírito, não pôde ter outro sentimento senão a compaixão. Quem pode ser culpado pelo que não vê? “Alguns homens ensinam os outros a serem pequenos”, ele observou do alto de seu cavalo.

Adorno motivou uma cena clássica do filme The wall: as crianças, em fila indiana, em uma esteira rolante de uma fábrica. Elas passam por um reator e saem, do outro lado, sentadas em carteiras escolares, concentradas na resolução de um exercício. Vejamos as esteiras universitárias. Elas fabricam, todos os anos, milhares de especialistas, cada qual no seu galho, mantendo a produção acelerada e recebendo troféus de responsabilidade social e sustentabilidade.

Criamos uma sociedade de formigas caminhando para o abismo.

Tornar comum as incertezas, nos meios de comunicação, é quase um pecado. Estão ali para informar. Muitos são os veículos para a divulgação de respostas. “O quê”, “como”, “onde”, “quando” e “por quê”. Palavras para consumo diário. Não engrandecem. Alimentam os famintos por fatos e evaporam. Como o personagem do romance “A Hora dos Náufragos”, de Pedro Maciel, estamos todos nos afogando na superfície.

Talvez por isso alguns optem pela “busca da totalidade do real”, cunhada por Zizek. Para apreenderem uma realidade vivida superficialmente, cortam os pulsos ou colocam uma microcâmera em uma vagina durante um filme pornô. O real e o sonho se confundem. Há muitas imagens nos outdoors e, como nos ensinaram, elas valem mais que mil palavras. A poesia, universo onde poucas palavras remetem a milhares de imagens, fica para os cegos.

Formigas mudas diante das vitrines, é tudo o que somos.

Alguns querem se ver de modo diferente. Sem a compaixão de Nietzche, mas com a arrogância de um jornalista miúdo perdido entre os gigantes de Gulliver. Do alto de sua ilusão, pensam: “Aquelas manchas alaranjadas lá embaixo, a varrer o mundo, não passam de merda”. Pequenez é não enxergar-se pequeno em um mundo precário, construído por homens à imagem e semelhança dos que vemos no espelho.

Movemos engrenagens ainda. Especialistas, cada qual enxergando as imagens mais interessantes para a própria retina e o próprio bolso.

Quantos hoje se arriscam a andar pelos labirintos de Borges? A maioria dos formadores de opinião prefere manter distância de quem mexe em abismo. É porque somos pequenas, nós, as formigas destes tempos; e Borges tinha um problema nos olhos: enxergava demais.

*eduardosabino@caoseletras.com