sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O tombo e o cubismo











Paulo Lima*

Mr. Bean é uma espécie de Buster Keaton moderno. No tempo do cinema mudo, Buster Keaton nunca sorria em seus filmes. Nem por isso deixou de ser considerado um grande comediante. Mr. Bean, na verdade o ator britânico Rowan Atkinson, jamais fala em suas comédias. Ele se comunica com grunhidos e esgares. Nem por isso se torna menos engraçado.

Em “Mr. Bean, o filme”, Atkinson é um atrapalhado funcionário da Royal National Gallery, de Londres. Uma galeria de arte americana compra um valioso quadro exposto na sua similar britânica. Mas é estipulada uma condição: que a galeria envie um especialista para apresentar a obra em solo americano. Como vingança, despacham Mr. Bean.

Nos Estados Unidos, Mr. Bean se instala na casa do curador David Langley. Chega então o momento de ser apresentado ao quadro. E, zás!, ocorre um acidente. Mr. Bean mancha uma área da pintura. O que vem em seguida confere a graça e o humor do filme. Que, no fundo, não deixa de ironizar as galerias e seus objetos supervalorizados.

A vida imita a arte. Nesta semana, uma mulher perdeu o equilíbrio e caiu sobre um quadro de Picasso exposto no Metropolitan Museum of Art, de Nova York, provocando um rasgo de 15 centímetros na obra. Segundo informação do avaliador Gerard van Weyenbergh ao Washington Post, a pintura nunca irá recuperar seu valor. Trata-se de uma perda de pelo menos 50%. "Mesmo sendo um buraco pequeno, colecionadores de Picasso, como Steven Spielberg, não se interessarão", disse.

Logo a notícia sobre o infausto correu o mundo. Afinal, a tela, cujo preço é estimado em 65 milhões de dólares, é um legítimo Picasso pertencente à chamada “fase rosa” do artista.

Nesse episódio, que diz mais sobre a segurança da galeria e menos sobre o tombo em si, é possível que especialistas e técnicos tenham tido noites insones pensando em como restaurar o legítimo Picasso. Eu perdi meu sono pensando na desafortunada destruidora. Ela será penalizada? Terá de pagar pelos reparos? Sentiu-se devastada por seu ato involuntário? Responderá perante algum tribunal?

Seja lá como for, ocorreu um grande rebuliço digno de movimentar placas tectônicas, ou de provocar oscilações nas bolsas de valores. Porque um Picasso danificado é como um blockbuster de Hollywood sem efeitos visuais. É como um hamburger sem fritas. Só que pior, pois mexe com um dos mestres da arte do século XX.

Escrevi rebuliço. Mas Millôr Fernandes, o mestre-humorista, alfinetou em uma de suas máximas: arte é intriga. Se é intriga, então acrescentarei minha pitada pessoal. Lá vai. Prefiro qualquer quadro de Edward Hopper a qualquer Picasso. Guernica incluído. Prefiro qualquer quadro de Vincent van Gogh a qualquer Picasso. Prefiro qualquer quadro de Matisse a qualquer Picasso. Prefiro qualquer quadro de Lucien Freund.

Tumulto. Vozes de protesto. Xingamentos. Minha cabeça a prêmio.

Não tenho elementos estéticos para contrapor. Não descerei a tecnilidades que me são estranhas. Poderia até pesquisar em um desses almanaques de História da Arte argumentos plausíveis e, de lá, retirar as razões do meu anticubismo.

Mas não precisa tanto. Se opto por um Hopper, ou um van Gogh, ou um Matisse, ou um Freund em detrimento de um Picasso, é que aqueles falam às minhas preferências estéticas. Aos meus olhos. Ao meu coração. Simples assim.

Guernica, um painel pintado em homenagem à população da pequena cidade espanhola destruída pela aviação nazista em 1937, é um ícone da arte engajada. Da arte com mensagem política. Mas, efêmera, a política passa. A arte fica. Guernica?

Em oposição aos críticos, Gertrud Stein saiu certa vez em defesa de Picasso. Ela fez notar que a paisagem vista do alto revela formas geométricas, próximas do cubismo. Correto. Já contemplei o mundo de cima diversas vezes a bordo de um avião. Sim, aquele quadriculado lá embaixo é cúbico. Não resta dúvida. O escritor Joseph Conrad atribuía um objetivo a sua literatura. Ele escreveu: My task is to make you see (“meu papel é fazer você enxergar”). Talvez Picasso tenha nos ensinado a ver pela primeira vez o que não éramos capazes de enxergar. Arte como transmutação, transcendência. Enlevo. Ou intriga, diria Millôr.

Justificando sua filosofia de superação - a filosofia do super-homem (ou além-homem) -, Nietzsche afirmou, referindo-se a si próprio: alguns nascem pósteros. Toda grande arte nasce póstera, e se reafirma pelo tempo afora. O cubismo tornou-se um movimento influente, uma estética que mostrou novos caminhos para a arte. Póstero? Mas não me impressiona.

Gosto de pensar que talvez esse incidente do Metropolitan carregue em si uma forte simbologia: não foi atingida apenas a tela de um pintor famoso. O ato em si representaria o fim da arte e o sentido que ela possa ter tido um dia. Como se a arte não fosse capaz de sobreviver a um rasgo de 15 centímetros.

*paulo_val@uol.com.br