quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Roendo o osso











Eduardo Sigrist*

Todo domingo tem bisteca no boteco do Pereira. E tem pagode no boteco do Pereira. Mas eu não gosto desse tipo de batuque, então vou lá só pela bisteca, que na verdade é a mulher do Pereira quem faz. Carne deliciosa – a da bisteca, claro. Não perco uma semana. Como sem frescura, segurando o osso com a mão e me lambuzando. A mulher do Pereira, ao retirar o prato, todo domingo repete: “Roeu até o osso, hein, seu Eduardo!”

É gozada essa mania que certas pessoas têm de chamar você de doutor ou de senhor, mesmo quando somos mais novos. Sinal de respeito que não entendo. Lá no boteco, antes eu era só o Eduardo. Um dia o Pereira me perguntou o que eu fazia da vida. Respondi naturalmente: revisor. Revisor? O que faz isso? Expliquei que um revisor corrige os erros de português dos livros. E não é que, a partir desse dia, passei a ser o “seu” Eduardo? Fiquei importante porque trabalho com livros, mesmo sendo um mero peão em todo o processo editorial.

O Monteiro Lobato já disse que um país se faz com homens e livros. Talvez. Às vezes discordo disso, principalmente quando estou comendo a bisteca do boteco do Pereira, feita pela mulher do Pereira. Aí esqueço que existe o Baudelaire, aí rebaixo o Machado de Assis à categoria do mais reles mortal, por ele não ter provado a bisteca do boteco do Pereira. Bisteca com cerveja carrega mais recordações do que há em mil madeleines.

Assim passo uma parte do domingo: esquecido da política, esquecido do trabalho, esquecido dos problemas – problemas que, de uma maneira ou outra, sempre envolvem a política e o trabalho. Ouço as histórias dos bêbados, rio das piadas indecentes do Pereira e até consigo encontrar algum verso inspirado na voz dos pagodeiros. E dou cabo do meu almoço só para ouvir a mulher do Pereira dizer: “Roeu até o osso, hein, seu Eduardo!”

O boteco do Pereira fica ali pertinho do metrô Anhangabaú. É só perguntar que todo mundo conhece. O ponto é feio, mas a comida é caprichada. E tenho certeza de que você, se for até lá e experimentar a bisteca da mulher do Pereira, vai virar freguês. E vai roer o osso e se lambuzar. Mas eu garanto: quem come bisteca sabe que sempre fica uma lasquinha de carne em algum ponto da incomensurável imensidão do osso. Por mais que você se esforce, vai sobrar esse pedacinho, destinado ao lixo. E mesmo sobrando esse último e quase invisível naco de carne, a mulher do Pereira vai retirar o prato e dizer: “Roeu até o osso, hein, seu André, hein, doutor Gervásio, hein, dona Luciana!”

Foi o que aconteceu no Carnaval do ano passado. Os pagodeiros pela primeira vez não estavam por lá. Mas o Pereira, a mulher e a bisteca, sim. E eu também. E eu novamente pedi bisteca. E roí o osso. E deixei uma lasquinha de carne. E ouvi a mulher do Pereira dizer a frase habitual. E vi o osso indo pro lixo. E batuquei um samba na mesa. E pedi outra cerveja. E outra. E notei o bar se esvaziando. E vi o Pereira levando o lixo para fora. E vi o Pereira com cara de quem quer fechar o bar. E paguei a conta. E ouvi a mulher do Pereira dizendo: “Até domingo que vem, seu Eduardo”. E me vi meio zonzo caminhando pelo Vale do Anhangabaú.

Tudo deserto. Nesses dias, o povo ou foge de São Paulo ou está de ressaca assistindo à televisão. Sentei num dos bancos e fiquei vendo os poucos corajosos que passavam por ali: um cidadão com o filho e o cachorro, um motorista de ônibus voltando para casa, vários mendigos. Um deles, com uma camiseta preta rasgada, em que se via o símbolo da Nike, me pediu uma moeda. Apesar de minhas desculpas tão sinceras e, posso até dizer, tão pungentes, ele não acreditou que eu estivesse liso e saiu praguejando. Enrolei ainda uns minutinhos ali e resolvi ir embora, pois tinha ficado melancólico com o episódio.

Para chegar à minha casa, na Consolação, tenho que passar pela frente do boteco do Pereira. Já estava fechado, mas se via uma luz pelo vão da porta. Na frente, os sacos de lixo se amontoavam ao lado do poste. A princípio achei que, por ter exagerado na cerveja, estava tendo alucinações: o lixo se mexia. Depois, olhando com calma, notei um símbolo da Nike em meio à negritude de uma camiseta e de um rosto encardido. Na boca desse lixo ambulante, um osso de bisteca. O osso que eu havia rejeitado e que fora retirado pela mulher do Pereira e levado para fora pelo próprio Pereira dentro de um saco preto agora era devorado, degustado como se fora a mais suculenta refeição. O homem matava sua fome ancestral com a lasquinha de carne que eu não conseguira encontrar.

Uma voz interrompeu o banquete: “Some daqui, vagabundo”. Era a mulher do Pereira, carrancuda, pouco amigável. O mendigo não era um freguês, não merecia respeito nem uma palavra simpática, do tipo: “Roeu até o osso, hein, seu mendigo!” Ele não era senhor, doutor, revisor, escritor, dono de boteco, prefeito. Não era nem um homem com fome, não tinha estômago, não tinha dignidade. Era um arrombador de lixos, um vira-lata.

Atravessei a rua e fiz de conta que nem ouvi alguém me chamando: “Ainda por aqui, seu Eduardo?” Naquele momento eu não queria ser visto, não queria ser reconhecido como um ser humano. E pensei no Monteiro Lobato. Se é mesmo verdade que um país se faz com homens e livros, estamos todos fodidos, principalmente no que se refere aos homens. Homens que, quando precisam matar sua fome de poder e dinheiro, não pensam duas vezes em roer o osso do próprio vizinho.

*eduardosigrist@gmail.com