segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A bênção, Senhor Di Bacco!











Joaquim Moncks*

Observo, entre o espanto e o fôlego,
a silhueta da mulher quase menina,
desabrochada de semideusa.

Ela nada quis além de um cálice,
um gole (sôfrego!) no sangue da terra.
Dadivosa bênção das uvas,
o seu mistério secular.

Tez morena, varinha mágica da música.
Arfam os seios, rutilam os olhos.
Volúpia nos quadris, o samba fazendo alma.
Apenas um cálice... Cale-se!

Passos ritmados, o estandarte doido.
O corpo. Ao diabo as penas do corpo!
Tamborilam todas as fibras.
Expiram os últimos anjos.

Valei-me, Gabriel,
que a minha espada é flamejante!

– Do livro "Ovo de Colombo". Porto Alegre, Alcance, 2005, p.28.
Publicado também no Recanto das Letras

*joaquimmoncks@gmail.com