quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Catéteres











Márcia Barbieri*

Prendo meus cabelos no topo da cabeça. Cores e cílios postiços. Transformista. Frente e verso. Dois lados de uma mesma moeda. A cavalgada das Valquírias. Hoje sou porta-bandeira.

- Cara ou coroa?
- Tanto faz.
- Tanto faz não, Carlinhos!!! Você tem que escolher!

Nunca fui bom em escolhas, me dava um frio na espinha. Não imaginei que um diálogo banal traduziria tão bem o meu destino incerto e meticuloso. Ó abre alas que eu quero passar... Meus lábios doem e sustentam rosas incultas. Escondo-me nos abismos gerados pela falsa fragilidade da água batendo nos corais. Um peixe arredio, porém de carne branca e tenra.

Redemoinhos trazem os discursos da infância. Polifonia. Tapo os ouvidos para não escutar o trote enlouquecido dos cavalos nos engarrafamentos. Palavras enraízam como fetos na terra úmida, morrem e renascem na atemporalidade cíclica e frágil dos dias. Ninhos de cobras. Girassóis nas tempestades.

Hoje, todas as facas apontam para o mesmo corte, desmontam as mesmas vísceras, submersas num azulado mórbido. Labirinto de veias e artérias, um jogo arbitrário de sentimentos. Sento e sinto a aspereza das grades que me enjaulam. Sou um animal morto, esperando os dias coagularem minhas mágoas e a mortalha amortecer os golpes.

Noites brancas de Tchecov. Em toda chuva há cortes profundos de canivete. Orelhas sendo arrancadas por amores brutos. O espelho engorda minha dor. Lateja como um dente inflamado no céu obscuro da boca. Meu ventre inchado disfarça certas ruínas. Carcaças e alegorias de antigas escolas de samba.

Anoiteceu na passarela. Tiro minha longa cauda. Já não é carnaval. Ainda hasteio o mastro. Retiro dos seios minúsculas serpentes. Amanheço. Gargarejo um mar verde de solidão.

*marcia_barbieri@hotmail.com