segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A ilha











Joaquim Moncks*

Estou longe de casa, perdido de amores. O toque fica impossível.
Somente a palavra e sua baba espumarenta. Tenho em casa duas gatas amorosas. Felinas a todo o tempo. E o volume de meus escombros sugere o poema próprio dos suicidas.

A tarde sumarenta de calor e verdes... Pampa de minhas desgarradas andanças. Andréa é a felina dos lençóis. Malhada, a de quatro patinhas que deita junto às teclas do computador e dorme sobre minhas fatigadas coxas. Ambas deitam comigo suas estridentes cócegas. Uma mia triste o pré-suicídio dos pelos. A outra ressona notívagos humores e tratos.

Andréa me conta que Malhada, há dois dias, fica olhando o monitor do computador e a põe ao telefone, a ouvir o que conta a saudade. Constata que a gatinha molha os olhos e se espanta, porque não sabia que os gatos choravam.

Pouco sabemos dos afetos, porém degustamos todos os dias os sabores dos venenos...

Os filhos poderiam ser plácidos, ao menos em alguns dias crepusculares de afetos. Talvez pudessem curtir o ronroneio agradecido do mistério de se saberem vivos e sem culpas.

E a baba dos signos me aperta a garganta.

– Do livro "Alma de perdição", 2009-2010.
Publicado também no Recanto das Letras


*joaquimmoncks@gmail.com