quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Valentina e o laranja intenso











Marcelo Mirisola*

Conto integrante do livro "Memórias da Sauna Finlandesa", lançamento da Editora 34.

Não foi de repente. Um final de tarde acontece todo final de dia. Foi esperado, e muito. Portanto o sol estava mais laranja naquele final de tarde. Então, foi assim: ao sabor de um encontro que devia ter acontecido há muito tempo, e sem filtro solar, que tive uma filha pela primeira vez. Não sei se estou mais apaixonado pela mãe, ou pela garota, Valentina. A menina que eu procurava desde o meu primeiro livro.

Bem diferente daquela garota de olhos tristes e amendoados que olhava para baixo nos meus contos, crônicas e romances, Valentina me pediu para construir um castelo de areia perto do mar, e eu acabei comprando um brinquedo que soltava bolhas de sabão para ela.

E a ensinei a assoprar bolhas a favor do vento. Quase incrédulo. Não porque desacreditasse em castelos que se desmancham na areia (a imagem é brega, mas necessária), mas porque me surpreendi comigo mesmo.

Um final de tarde cor de laranja. Ali estávamos: Valentina, a mãe e eu... logo Eu!!, o “Capiroto”, como a mãe da Valentina me chamava, a ensinar uma garotinha de sete anos a assoprar bolhas de sabão na direção do vento. Nunca me imaginei ensinando qualquer coisa pra ninguém.

Nem seria preciso dizer: bolhas de sabão não são “qualquer coisa”. Nem seria preciso dizer que o sol era mais laranja naquele final de tarde por causa da Valentina.

Nem seria preciso dizer: bolhas de sabão são feitas com o mesmo material dos castelos que se desmancham na areia. Sonhos. Não há diferença. Apenas uma questão de localização. Se eu fosse poeta, e se acreditasse em sonhos, diria: um se desmancha no ar, e o outro é arrastado pela correnteza.

Ou ainda: uma coisa remetia à outra, e, talvez, inconscientemente, o medo de perdê-las, mãe e filha, tivesse uma ligação direta com aquele instante feliz de praia, bolhas de sabão e biscoitos de polvilho. Mas sobretudo tinha uma relação direta comigo mesmo: eu traía mãe e filha. Explico. Além do encantamento em si, tentei mas não consegui desviar o olhar da mulata que estendia a canga ao meu lado. Sei lá, acho que me faltava vocação para ser o pai (ainda que postiço) da Valentina, e marido da mãe dela. Sobrava felicidade.

Não queria — outra vez — perdê-las. Dessa vez não, resolvi que não. Valentina e Camila. Duas garotas, uma com sete anos de idade, e a outra com vinte e poucos. Mãe e fi lha. E eu lá, do outro lado. Um quarentão sem muita convicção a cofiar o cavanhaque grisalho. Tentando — a essa altura da vida — entrar em um acordo com a minha libido esfrangalhada. Claro que não ia ter acordo nenhum. Quando de repente — agora sim —, de repente, Valentina apareceu.

Foi mais laranja que o final de tarde, e mais rápida que a mulata. Que, naquele instante, acabava de empinar a bunda sobre a canga estendida na areia:

— Tio Marcelo?

— Oi, Valentina.

— Você é namorado da minha mãe?

Quando o sol se pôs as levei ao ponto de táxi. Valentina — é claro — em cima do meu cangote, e Camila a reclamar que eu, o Capiroto, estragava a garota com os meus mimos.

Valentina me assoprou um beijo quando o táxi partiu, Camila fazia bolhas de sabão com o brinquedo da filha. Voltei à praia, e considerei seriamente a hipótese dos Castelos de Areia e das Bolhas de Sabão. Mas o que prevaleceu mesmo (pelo menos na minha memória, e apesar do laranja intenso) foi a imagem do táxi indo embora.

*Marcelo Mirisola, 42, é paulistano, autor de Proibidão (Editora Demônio Negro), O herói devolvido, Bangalô, O azul do filho morto (os três pela Editora 34), Joana a contragosto (Record), entre outros. E-mail: marcelomirisola@yahoo.com.br