quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Minha música











*Eduardo Sigrist

Ei, você,
Burocrata da cultura!
Já lhe disse:
Não faço acordos
Faço acordes
Faço cortes
Na carne do violão.
Não me vendo.
Não me venha falar
De lucro.
Minha calculadora emperrou
Não é dessa máquina
Que eu tiro som.
Não faço pactos
Compartilho.
Comprometo minha arte
Com a parte que não cabe
No contrato
Nas letras miúdas
De um texto
Sem canção.
Não faço a moda
Faço modas.
Não inventei a roda
Que move o mercado
Da diversão.
Não faço sua música
Eu marulho
Sem entrar nessa onda
Tão muda e imunda
De barulho.
Não faço cifrões
Faço refrãos
Que não rimam com nada
Que não caem na graça
Que não ecoam na praça.
Não faço seu jogo
Faço versos loucos
Para ouvidos moucos.
Nada do que faço, enfim,
Vai ser embalado pra presente
No aniversário de alguém.
Minha música não serve
Pra embalar neném
Nem vai garantir meu futuro
Com algum vintém.
Faço apenas o que ninguém
Espera de mim.

*eduardosigrist@gmail.com