quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A nudez de Alice











*Paulo Lima

A gente nunca sabia quando Alice ia dar o show. Ela irrompia rua abaixo aos gritos, cabelos alvoroçados como se tivesse acabado de ver assombração. Os pés estavam sempre descalços. Usava uma saia um pouco acima do joelho, naquele limite suficiente para fazer disparar a imaginação. Uma camiseta, que ela usava sem sutiã, completava o conjunto.

Alice tinha uma idade indefinida. A gente sabia que não era moça, mas não era velha como nossas mães.

Vivia trancada em sua casa, como alguém que sofresse de uma moléstia contagiosa. Mas às vezes a família afrouxava a guarda, e Alice aproveitava e fugia. Descia a rua gritando frases incompreensíveis, e seu ritmo não era páreo para ninguém.

Por sorte, ela se detinha sempre no mesmo lugar. A praça ao final da rua. E lá permanecia entregue a uma dança com uma coreografia desencontrada, como as palavras que insistia em falar.

Ali era o seu palco. A hora do show. Primeiro, ela tirava a camiseta com rapidez, como se tomada por uma volúpia incontrolável. A peça era arremessada para longe.

Nessa hora, as pessoas já tinham formado um grupo, como uma platéia. Uns se apiedavam. Outros debochavam e torciam para que a exibição evoluísse com rapidez.
Alice era uma mulher atraente. Se a gente olhasse direito, percebia os traços de beleza camuflados pelas marcas do sofrimento e da doença.

A dança atingia um ritmo frenético, como se Alice tivesse sido possuída por uma força estranha. Os olhos se abriam como se dobrassem ou triplicassem de tamanho. O rosto inteiro estremecia como se alvo de descarga elétrica.

A apoteose vinha minutos depois. Com uma habilidade que fazia lembrar um número circense, ela se livrava da saia. Era um número previsível, mas recebido com assobios e aplausos.

Dependendo do dia, a plateia podia ver Alice em pelo. Às vezes uma calcinha era a cortina que impedia o êxtase.

Depois desse ato final, alguém da família surgia e envolvia Alice num lençol. Ela se deixava conduzir sem resistência de volta para seu mundo sombrio.

Eu nunca vi Alice nua, mas os garotos da rua Direita viviam se gabando de que tinham visto. Eles se gabavam de tudo. Diziam que já tinham conhecido mulheres. Talvez falassem só pra impressionar. Eram quatro anos mais velhos do que a gente. Então, podia ser o tipo de conversa que se fala só para impor respeito, como a gente faria com um irmão mais velho.

A gente matava aula e ia jogar bola. Eles normalmente venciam. Diziam que éramos otários, que nunca tínhamos visto Alice nua, nem qualquer mulher. Xingavam a gente o tempo todo, e maricas era o mínimo que diziam da gente.

Mas a gente tolerava porque aprendia com os garotos da rua Direita. Comentavam até que um deles já tinha matado um homem, mas a gente achava que isso tudo não passava de um exagero. Era tudo fanfarrice, uma estratégia de auto-afirmação, pois no fundo não passavam de uns cagões.

Eles, porém, podiam ostentar um trofeu: já tinham visto a nudez de Alice. Decidi que ia reverter o jogo em nosso favor. Passei a rondar a casa de Alice. Com alguma sorte, eu poderia ver o show do começo ao fim. Os maricas iam calar os cagões.

A casa de Alice era de madeira, ficava no alto da rua, e era silenciosa como um túmulo. As janelas estavam sempre fechadas, a qualquer hora do dia. Estabeleci minhas rondas em turnos diferentes. Algumas vezes, matava uma aula e ia bisbilhotar a casa. Talvez eu desse sorte.

As fugas não tinham um sentido lógico, não obedeciam a um horário, daí porque ver Alice nua era um prêmio difícil de obter. Era preciso ter sorte e estar na praça na hora certa. Sorte que os cagões tinham.

Certo dia, fiquei tão impaciente que resolvi forçar as coisas. Atirei uma pedra numa janela da casa de Alice. Podia ser um estopim para fazê-la sair em disparada rumo à praça. A pedra explodiu contra a madeira, fazendo um pou! seco. Nada aconteceu.

Comentam que Alice era noiva, e que perdeu o noivo num acidente. Por isso ela tinha ficado daquele jeito. Tem gente que afirma que foi de tanto estudar. Mas dizem ainda que foi estupro, daí porque ela tem essa coisa de ficar nua durante os shows.

Uma vez quase consegui. Ouvi o barulho na praça. Só podia ser Alice. E era. Vi quando ela estava sendo envolta num lençol. Um seio ainda estava do lado de fora. Um seio. Foi tão fugaz, um vislumbre apenas, mas para mim foi como uma redenção. A gente agora podia ter o que dizer aos cagões. Eu vira um seio de Alice.

Mas eu não podia imaginar que as coisas não iriam além de um seio. Mudei de escola, de bairro e de cidade. Essa os cagões venceram. Fiquei torcendo para que na minha nova cidade existisse outra Alice. Talvez eu tivesse mais sorte.

*paulo_val@uol.com.br