sexta-feira, 5 de março de 2010

Falta uma obra para a Copa de 2014











Alessandro Faleiro Marques*

Começam a ser acionadas as primeiras máquinas que prepararam o Brasil para a Copa do Mundo de Futebol de 2014. Nos próximos anos, os palcos de concreto e grama serão totalmente reformulados para as partidas do torneio mundial. Com pirotecnia política e incenso da imprensa chapa-branca, estão sendo anunciadas obras importantes em ruas e estradas, aeroportos, hospitais e monumentos. Parece faltar só uma coisa: os ajustes no nosso espírito.

Peço a você, leitor, a permissão para eu tomar como exemplo a gigantesca e provinciana Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. Nascida com jeito para o moderno, BH foi um laboratório privilegiado para o projeto de Brasília, antes de esta ser base para outras cidades planejadas. O concreto e o asfalto falam bem mais alto na ex-Curral del-Rei, a ponto de ela perder, na mesma pressa que ganhou, o título de Cidade Jardim. Quanto às obras físicas, enfim, Belo Horizonte tem boa chance de dar espetáculo. Estou curioso, no entanto, para saber qual seria a reação dos hospitaleiros mineiros ao se verem diante de povos mais liberais.

Há pouco tempo, depois de uma profunda restauração, quando se devolveu o antigo charme à Praça Raul Soares, no Centro, houve um fato contundente o qual gostaria de partilhar. Uma publicitária, moradora de um prédio vizinho à praça, resolveu aproveitar o sol, tudo ao som da música clássica que dá fundo ao movimento dos esguichos da fonte. Trajada de biquíni, estendeu uma toalha na alameda e esticou-se. Até aqui, nada de anormal, se ela não estivesse na moderno-conservadora BH. Guardas municipais, sob a desculpa de a tatuada moça ter desacatado a autoridade, acabaram levando-a para a delegacia. Nos jornais, nada além do que a insossa tentativa de criar mais uma personagem para o deleite masculino e chamar a mulher de “Musa da Raul Soares”.

Desse dia em diante, comecei a contar os minutos para a chegada dos estrangeiros que testemunharão o primeiro apito no futuro reformadíssimo Mineirão. Melhor ainda: rezando para estar vivo e ver, no sorteio, as bolinhas cuspindo tirinhas de papel, determinando “Suécia”, “Holanda” e “França” para o grupo da terra do pão de queijo.

Já posso ver alguns homens e mulheres de quase dois metros e pele cor de leite fresco se bronzeando no julho frio (para os belo-horizontinos), sob a vista da Serra do Curral. As fontes das praças da Estação e da própria Raul Soares se transformando em praias urbanas e os boreais devotos do sol caídos nas alamedas da Praça da Liberdade. Quero ver a cara dos guardas e dos representantes da rota “tradicional família mineira”. Espero sentar-me ao lado de pelo menos uns cinquenta leitores ávidos poliglotamente a devorar clássicos sobre os bancos de concreto da Praça da Rodoviária, hoje pouco mais do que um mero ponto de referência. E mais, prometo não me assustar se, na sempre talvez limpa Lagoa da Pampulha, vir alguns nórdicos, do jeito que eles e nós viemos ao mundo, com suas pranchas e pés-de-pato, curtindo essa ponta da Bacia do Velho Chico.

Engana-se, no entanto, quem pensa essa indireta-direta ser somente para BH. Caros patrícios, ainda dá tempo dos “espertos” e dos “não capiaus” ajustarem a própria alma e, desta vez, empreenderem a verdadeira obra para a Copa: a do senso de urbanidade. É hora de voltarmos a ocupar os espaços, sempre nossos. Façamos isso antes que mais uma leva de argamassa cubra nossos olhos.

*faleimar@hotmail.com