domingo, 7 de março de 2010

Literatura do além











Paulo Lima*

A editora espanhola Anagrama acaba de publicar um romance inédito póstumo do escritor Roberto Bolaño. El Tercer Reich foi escrito em 1989. A notícia provocou mais uma onda de agitação entre os fãs de Bolaño. Outro romance póstumo dele, 2666, havia sido eleito um dos dez romances de 2008 pelo New York Times. A fama do escritor chileno só fez crescer, mesmo depois de sua morte, ocorrida em 2003.

A literatura pode ser incluída no rol das atividades que conduzem à grande imortalidade. A arte, de um modo geral, significa a grande imortalidade. Os pequenos atos cotidianos representam nossa pequena imortalidade. A divisão foi sugerida pelo escritor Milan Kundera.

Eu também tenho minha dicotomia. A obra de um escritor, produzida e publicada em vida, é o seu curriculum vitae. Já a obra que ele produziu e engavetou seria seu curriculum mortis. Uma é a vitória, a afirmação do escritor diante de suas exigências pessoais. A outra é sua derrota, o reconhecimento de que foi subjugado por essa senhora misteriosa, a literatura. A gaveta – ou o computador – é o cemitério das ilusões. E lá repousará para sempre o original. Para sempre ou até o dia em que um herdeiro, quando o escritor já tiver partido, tome a decisão de abrir a gaveta.

Esse é um ato herético? Eis a questão. Se o escritor resolveu não tornar público um dado livro, ele certamente tinha suas razões. O esforço estava aquém de suas exigências estéticas; ou, no decurso do tempo, a obra poderia ser retomada sob outra perspectiva. Expor o curriculum mortis do escritor não seria uma traição ao seu ideal literário?

O exemplo de Roberto Bolaño não é único. Recentemente, um herdeiro de Vladimir Nabokov abriu a gaveta e de lá sacou um original que o escritor russo mantinha guardado a sete chaves. As razões desse herdeiro são bem conhecidas. Ele admitiu que necessitava de dinheiro para custear um tratamento de saúde.

Mas, e as idiossincrasias de Nabokov? O que o levou a rejeitar O original de Laura, seu romance publicado postumamente? A resposta parece ser apenas uma: Laura não estaria à altura de Lolita, o clássico nabokoviano. Simples assim. Por qual motivo então o livro não foi oferecido a um editor? Não faltaria a quem submeter um novo trabalho, mas o próprio escritor russo negou-se um imprimatur. Se suas motivações não foram de estrita observância da qualidade literária, quais seriam? Façam suas apostas.

A crítica não poupou O original de Laura. O livro estaria a milhas de distância do melhor Nabokov. Sem novidades no front. Nabokov estaria dando gargalhadas no túmulo. Ele próprio não teria deixado de consagrar mais um personagem feminino, se julgasse que o livro tinha mérito próprio, não é?

Os exemplos não terminam em Bolaño ou Nabokov. A literatura beat parece ser um filão inesgotável, e foi com pompas e circunstâncias que se anunciou um romance póstumo produzido a duas mãos por Jack Kerouac e William Burroughs. Você acredita que a dupla teria deixado na gaveta um original à altura de On the Road e Almoço nu,se acreditasse que valia a pena publicá-lo? Nem mesmo sob os efeitos de uma viagem de mescalina. O romance E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques foi lançado e está bem aí para quem quiser por o pé na estrada.

Há quem possa argumentar: conhecer o curriculum mortis de um escritor é válido para que se possa compreender seu processo criativo. Afinal, o insucesso faz parte do jogo, e nenhum escritor ostenta apenas obras bem sucedidas em seu currículo. É possível que eles possam aprender até mais com os equívocos, embora os livros que dão certo são os que lhe asseguram a sobrevivência material e o reconhecimento.

Mas existe aqui uma sutileza. Um romance pode vencer o crivo do escritor e ser derrotado pelo julgamento da crítica e do leitor. Pululam exemplos. Neste caso, o livro teve o aval prévio do seu criador. Porém, o que se discute é a obra que sequer foi autorizada pelo escritor em vida, por razões que apenas ele poderia esclarecer.
Em que momento o editor entra nessa história? Ah, o editor. Ele tem nas mãos um produto livro com o selo de um nome consagrado. O objetivo do editor é auferir lucro. Se qualidade fosse o único critério a ser considerado, teríamos uma retração radical na oferta de livros.

Romances póstumos, herdeiros e editores sempre vão existir. Não faltarão personagens para dar vida a esse enredo. J. D. Salinger morreu há um mês e já se cogita a existência ou não de originais escondidos em alguma gaveta. A celeuma atinge níveis estratosféricos, uma vez que Salinger não publicava havia décadas. Existirá o tal romance desconhecido? Será superior ao Apanhador no campo de centeio? A temporada de apostas está aberta.

* paulo_val@uol.com.br