domingo, 7 de março de 2010

Mangueira, teu cenário é uma beleza











Sônia Araripe*

Lançamentos de livro costumam ser sempre a mesma coisa, com pequenas variações sobre o tema. Formais, informais, cheios ou vazios. Mas, sempre, lançamentos de livros. Não tem jeito.

Há alguns tantos anos recebemos o convite para o lançamento do livro, em 1998, Mangueira, a nação verde e rosa. Não poderíamos faltar. Primeiro pelo autor, ninguém menos do que o lendário jornalista Sérgio Cabral, famoso muito antes de seu filho mais velho, Serginho para os íntimos, tornar-se Governador do Rio de Janeiro e um dileto discípulo do presidente Lula. E não só pelo autor. Mas também pelos citados, pelos personagens do livro. Todos, os principais bambas e fundadores da escola de samba carioca, ainda remanescentes dos tempos de Angenor de Oliveira, o famoso mestre Cartola.

E lá fomos nós, numa noite quente, só não me lembro bem se verão ou primavera. Dado irrelevante. Em se tratando do que estava por vir, nada faz diferença se era verão alto ou primavera. O fato é que chegamos lá na quadra da Mangueira, que os íntimos chamam de “Palácio do Samba”, bem cedo. Na hora marcada, ao contrário da maioria, que chega já com o turno rodado, torcendo pelo movimento agitado.

O autor, claro, estava assinando o livro. Uma mesa grande, feito de churrascaria de domingo, em almoço de família. Ao seu lado, também estavam os personagens da escola, a nata da Estação Primeira. Como Dona Zica, viúva de Cartola; Dona Neuma, filha do lendário Saturnino Gonçalves, o primeiro presidente da Escola; o compositor Carlos Cachaça; Nélson Sargento e uma fila de nomes tão históricos no samba quanto gentis.

Rapidamente pegamos nosso livro. Projeto patrocinado pela Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), se aproximando do povo, da comunidade, da vida real. A bolsa de mercadorias, nesta época, ainda não tinha se unido com a Bolsa de Valores, a Bovespa. Fato também irrelevante, está certo. Vamos ao que interessa.

Ganhamos um livro só. Claro. Produção de luxo, suntuosa. Um livro para cada convite, que dava direito a duas pessoas. Mas um livro só por convite e estamos conversados. Como tivemos o privilégio de chegarmos cedo, deu para conversar com calma não só com o autor, mas também com os bambas, os sambistas da raiz.

Todos assinaram em suas fotos, junto do texto que contava sua participação na história da Mangueira. Um luxo! Mas, maridão, Newton Victor - um mangueirense roxo da raiz, nascido e criado nas ruas do Cachambi (Zona Norte do Rio), goleirão em muitas peladas pelo subúrbio, que rodava tudo aquilo de ônibus ou trem - não estava satisfeito. Tal qual menino colecionando figurinhas, ou botões para impulsionar com paletas (a criançada não sabe o que está perdendo), contava os “trunfos”: tinha não só a “Velha Guarda”, mas também de Alcione, Carlinhos de Jesus, Rosemary etc. etc. “Mas falta o principal”, me advertiu. Confesso, apesar de mangueirense desde sempre, não lembrei quem pudesse estar faltando em seleção tão premiada e luxuosa.

“Falta um? E está aqui? Quem é?”, questionei. Ele não respondeu, tampouco deu pistas. Disse que iria resolver o assunto sozinho. E partiu para um canto da quadra da escola. Fiquei observando. Ah! Sim, o samba tocando alto, bateria da escola já presente. Sambas históricos, enredos clássicos, todos felizes da vida.

“Alvorada lá no morro que beleza...”, de Cartola. Ou também “A Mangueira é tão grande, que nem cabe explicação”, de Paulinho da Viola e Hermínio Belo de Carvalho. Por aí ia a noite solta, alegre, agitada.

Olhei para onde o maridão partiu. Não vi mais ninguém. Estava escuro naquela parte da quadra. E distante. Míope, vejo só que ele conversava com um senhor já de idade. Como se fossem amigos de infância. O senhor estava com um chapéu destes típicos de sambista. Foi só o que deu para ver.

Passam-se uns dez minutos e lá volta ele, com fôlego de garoto com seu “trunfo” em mãos. “Consegui! Este é só nosso, ninguém tem!”, comemorou, como se fosse Copa do Mundo das figurinhas ou jogo de botões. Eu não entendi nada. Ele abriu, então, o livro na página certa e mostrou: “Um abraço vascaíno, do Jamelão”.

Morri de rir. Newton é flamenguista roxo. “Como assim, vascaíno?”, questionei. Foi então que ele contou seu tento. Outros tantos convidados para a festa já tinham tentado conseguir o autógrafo de Jamelão. Sem sucesso. Foi quando ele se lembrou que o puxador de samba (ele detestava ser chamado de “puxador”) era vascaíno doente. E chegou perto como se fossem amigos de jogos do Vasco. O “pobre” Jamelão mordeu a isca.

Falaram um bom tempo sobre o Vasco e aí Newton sacou o livro e pediu um autógrafo. Jamelão titubeou, tentou recuar e, finalmente, explodiu em alegria: “Como é para um vascaíno doente, feito eu, aí eu dou. Só no seu e pra mais ninguém.”

E foi verdade. Ranzinza, de cara fechada, Jamelão saiu da festa de fininho. Nem cantar num quis. Disse que estava cansado. E foi se embora. Deixou, em nosso livro, uma homenagem.

O livro, aqui na estante, em lugar de destaque, não nos deixa mentir. Mangueira, teu cenário é mesmo uma beleza, como um dia Enéas Brito e Aloísio Augusto da Costa imortalizaram. São lembranças de um Carnaval que não passa. Que não sai de nós, não sai.

*Sônia Araripe é jornalista e mangueirense roxa. Assiste aos desfiles todos os anos. Editora de Plurale em revista e Plurale em site, com foco em Sustentabilidade. Contato: soniaararipe@plurale.com.br