domingo, 7 de março de 2010

O nome das coisas











Larissa Minghin*

- Do que você mais sente falta?

Ele me perguntou do que eu mais sentia falta, com a cara mais lavada do mundo!
Eu sorri fingindo não entender a pergunta, enquanto procurava desesperadamente o maço de cigarros dentro da bolsa que parecia não ter fim.

Ele sorriu fingindo não perceber que eu queria acender um cigarro e mudar de assunto e continuou com aquele olhar esperando por uma resposta que poderia mudar todo rumo das coisas.

Segundos, foram segundos que pareciam meses, aqueles meses todos que dividimos cama, pão e vida.

E enquanto as mãos procuravam maço de cigarros e isqueiro, eu pensava sobre o que mais sentia falta.

Poderia dizer que eram das horas e horas de papos e risadas e descobertas juntos na madrugada, das voltas pra casa com o dia amanhecendo ou de trocar olhares de longe. Eu poderia contar sobre a falta absurda que sentia do telefone tocar e ouvir a voz dele dizendo qualquer coisa sobre o mercado, o aluguel, a política, nós dois.

Poderia dizer que sentia falta de chegar do trabalho tarde-tarde, entrar no quarto e encontrar ele dormindo feito criança no chão e então tirar o vestido devagarinho e sentir a pele dele na minha: dormir e acordar amando.

Eu poderia dizer, mas eu encontrei o maço de cigarros, acendi e, olhando nos olhos dele, disse que o que mais sentia falta era do cheiro de mar.

*laraminghin@gmail.com