domingo, 21 de março de 2010

Pietá











Eduardo Sigrist*

Noite de são João. E eu lá, no útero. Prontinho pra reabrir a madre. Prontinho pra conhecer o apavorado pai (ai, ai, o sexo frágil). Prontinho pra desvendar o continente da mãe. Prontinho pra testemunhar o milagre e ser protagonista do.

Vai nascer. Corre, Alberto. Me leva pro hospital. Um rojão pro santo. Ou pra mim?

As ruas tão geladas. As ruas tão daninhas. Não quero sair do meu pote de geleia.
Pega as roupas, Alberto. O macacão do Miguelzinho. Um rojão pros pais. Dia de festa. O segundo filho. O planejado segundo filho. O planejado último filho.

Mais do que dois eu não quero, Alberto. Depois do Miguelzinho chega. Esses planos dedilhados na calculadora científica. Quero só dois. Quero que seja menino. Quero que seja santista. Quero que tenha os olhos do vovô. Quero que seja dentista.

Por que ninguém quer um aleijão, um esquizofrênico, um maldito dum poeta de subúrbio, um bendito dum proxeneta? E se eu nascer sem nariz, ou com um espanador no lugar da orelha, vão me querer mesmo assim? Ou vão jogar seu carneirinho na boca de lobo?

Um rojão pro primogênito. Vai ganhar um irmão pra jogar fubeca. Pra exibir na escola. Pra ensinar palavrão. Pra bater. E pra amar.

Não esquece de buscar o Cacá na casa da minha mãe. Ele vai ficar tão feliz! Legal já ter um irmão pronto, sem a agonia de ver o danado espigar na barriga da mãe. É bom ser o caçula, o coitadinho. Decidi que nunca vou comer brócolis nem lavar a louça.

Um rojão pro obstetra. Nome mais obsceno. Eu queria sair da toca pelos dedos de cebola da dona Inácia. Sentir a tesoura banguela da dona Inácia. Não gosto do bafo de creolina que sai das consoantes do obstetra.

Vai dar tudo certo, Alberto. Vai tudo certo, né, doutor? Um rojão pra lua, um rojão pro caminhão de lixo, um rojão pras formigas rodeando a defunta borboleta, um rojão pra loirinha na janela esperando o lobisomem.

Eu no útero. Esperando a hora. Já quero nascer de tatuagem. Tatuagem de dragão, pra apavorar as minas do berçário. Não vou ser moleza, não. Tô louco pra sair desse pote de geleia vencida.

Tô louco pra sair, tô louco pra ficar. Tô louco pra ser louco. Vamos lá. Eu confio no senhor, doutor. E para de fumar, Alberto.

Coro de rojões:
Chegou a hora! Vai nascer! Um viva para todas as famílias felizes! Um rojão especial para a senhora vida! (para a vida que deu o cano. para a vida que mandou outra no lugar. que fez o pai chorar, mas de tristeza. que fez a mãe sangrar pelo desavesso)

E eu lá, fora do útero. Longe do pote de geleia de são João. Recém-morrido. As mordidas das formigas não doem. Elas só querem a geleia. Estou surdo. O espanador me impede de ouvir as desculpas do obstetra. Tenho frio. E uma baita vontade de dizer para a menina da janela que o lobisomem não vem, o príncipe não vem. Ainda se fosse carnuda...

O último rojão. O primeiro rojão. Pro milagre adiado. Três anos depois, o choro do bebê calou a voz aleijada. Calou a voz abortada no fundo da boca de lobo. Um rojão pro segundo filho. O planejado segundo filho. O planejado último filho. O esperado. O de olhos azuis. O futuro dentista. O santista. O perfeito. Ainda bem que o outro morreu, né, Alberto? Olha essa coisinha linda da mamãe!

*eduardosigrist@gmail.com