domingo, 7 de março de 2010

Ratos profanos











Márcio Almeida*

Um casal de ratos morava em uma igreja.
Um dia a rata ficou grávida. E disse para o rato: - Eu quero tomar vinho do padre.
O rato respondeu que não pegaria vinho do padre. A rata retrucou, alegando que o vinho faria bem para os ratinhos, pois o vinho era como o sangue de Nosso Senhor.
O rato roeu a rolha da garrafa e levou vinho para a rata.
No dia seguinte, a rata pediu: - Eu quero comer hóstias.
O rato respondeu que não furtaria hóstias da sacristia. A rata rodou a baiana, dizendo que as hóstias eram trigo, alimento essencial à vida dos ratinhos, que nasceriam fortes como o pai.
O rato foi, pegou um punhado de hóstias, que a rata comeu e ficou mais gorda.
No terceiro dia a rata foi solene e decidida:
— Eu quero um pé de anjinho barroco.
O rato estrebuchou, respondeu que jamais roeria nada da igreja para satisfazer a fome da rata, que insistiu: - Eu quero um pé de anjinho barroco.
O rato gritou, disse que não seria justo, eles eram ratos católicos, moravam na igreja, o padre sabia e não se importava.
Se fizesse aquilo, acabariam expulsos e no esgoto.
Andou para um lado, andou por outro, pediu até a ajuda de Deus para resolver o problema. A rata, irredutível:
— Eu quero um pé de anjinho barroco.

Três luas depois, nasceram três ratinhos branquinhos. De pedra sabão.

(Conto premiado no Concurso Nacional do Paraná, 1972)

*Márcio Almeida é poeta, contista, professor universitário, jornalista, crítico literário, detentor de vários prêmios nacionais de literatura e autor de 39 publicações no Brasil e exterior: “Assassigno”, “Falúdica”, “Lápis Impuro”, “Oficina de Nomes”, “Mel Perverso”, “Paixão”, entre outras. Contato: marcioalmeidas@hotmail.com