domingo, 7 de março de 2010

Seja discreta, menina











Fernando Portela*

“Pois é, Cristina, esta é a nossa proposta: você se casará com o deputado daqui a três meses. Receberá, no ato, um milhão de dólares, depositados na Europa, e uma promissória de duzentos mil, a cada ano de casamento, tudo isso sem contar o ordenado mensal, que é da ordem de trinta mil dólares, com aumento de dez por cento ao ano, mais inflação. O deputado acredita que você poderia suportar a situação, sem dor, durante uns sete anos. Ele também gostaria que, na impossibilidade do casal ter filhos (por causa de um problema seu, é claro), no terceiro ano de contrato vocês poderiam adotar uma criança da favela, de preferência negra. Depois de sete anos, no entanto, você estaria livre, com uma pensão milionária de no mínimo trezentos mil dólares anuais...”

“Eu já fiz um aborto, Adroaldo.”

“E daí? Diga quem é o médico, eu dou um jeito.”

“Você compra todo mundo, é?”

“Tenho o dom de convencer pessoas.”

“Não é você que transa com o deputado? Ou é o outro assessor, o Goulart?”

“É o Goulart. Essa não é minha praia. Gosto de mulher. Se não fosse pela circunstância, dava em cima de você. Você é maravilhosa, nunca deu bandeira, bem posicionada na sociedade, vive na mídia, é modelo, já foi lembrada para dirigir programa de tevê, é simpática e humana.”

“Apesar de tudo isso, não mereço um casamento decente.”

“Certas palavras a gente não usa, Cristina. Decente é uma delas.”

“Tem razão. Mas eu estou chocada com a riqueza do deputado. Você sabe, eu não vou negociar sozinha. Tenho advogado.”

“Tudo bem. Mas eu só trato com ele sob sigilo.”

“Se alguém pisar na bola, vocês matam mesmo, não? Preocupo-me pelo advogado, não por mim, eu sempre fui discreta.”

“Não. Ninguém mata ninguém. Outra expressão que não se deve usar. Tem coisa pior que a morte, Cristina. Você já pensou se uma daquelas revistas de tevê revelasse toda a sua vida? O tempo da faculdade? As festinhas na zona sul? Em nenhum momento o deputado se preocupou com a possibilidade de você vir a escrever um livro sobre ‘Um amor de mentira’, digamos assim. Bom título este, não?”

“Eu me mataria se falassem de mim.”

“Está vendo? Ninguém precisa matar ninguém. Seguinte, Cristina: não vou poder esperar muito tempo. O deputado já está com trinta e cinco anos, se passar solteiro dessa marca vai amarrar uma fama de viado, logo, logo.”

“Como é que ele consegue disfarçar tão bem, Adroaldo? Ele é um macho perfeito. Peito peludo, atlético, comendo todo mundo segundo as revistas.”

“Essa imagem custa muito dinheiro. Em compensação, ele é sempre o mais votado do seu Estado.”

“O Brasil não conta mesmo, não é?”

“Cristina, você tem umas coisas tão antigas... Olha, não vou falar mal do Brasil, mas o que é que o Brasil tem a ver com isso? Você sabe quantas vidas duplas existem em Brasília? Quantas autoridades, algumas pelas quais você poria sua mãozinha no fogo, têm contas correntes bem gordinhas em paraísos fiscais? A maioria delas fala em corrupção, e defende o Brasil com unhas e dentes. Você vive nesse mundo da badalação. Deveria estar cansada de saber disso. Então eu não estou entendendo você.”

“Só ouço boatos.”

“Os boatos não chegam nem aos pés da realidade.”

“É gente de todo tipo mesmo? Jornalistas também?”

“Jornalistas são uns babacas. Ninguém precisa se incomodar com eles.”

“Mas quando eles pegam...”

“Só pegam quem não fica esperto. Lembra aquele presidente? O pessoal da quadrilha dele só faltou se denunciar. Amadorismo. Irresponsabilidade. Impulso de autodestruição. Aí os jornalistas pegaram.”

“Não vai acontecer comigo, vai?”

“Claro que não. Aos poucos, quando você for conhecendo melhor os colegas do deputado, e os amigos, e os apoiadores, você saberá quem vive situações parecidas com a sua. E você jamais comentará o fato com ninguém. Quando você aprender que a verdade só pode acontecer dentro de nós mesmos, você enganará até seu espelho. Conheço gente que se convenceu de que é, realmente, o personagem que encarna.”

“Triste, não?”

“É a life. Mas você está com umas recaídas esquisitas. Olha que eu tiro a proposta.”

“Poderia ter, eu também, uma vida secreta?”

“Se eu disser que não, seria um idiota. Ninguém agüenta. Mas você será tão discreta que chamará até seu amante pelo nome do deputado.”

“Você me dá quanto tempo para tomar uma decisão?”

“Primeiro quero conhecer seu advogado. Depois de aprová-lo, se aprovar, você terá uma semana. Faça suas contas. Pense. Sua alternativa é trabalhar feito uma mula, dar pra todo mundo, até conseguir uma fortunazinha de merda. Provavelmente na tevê. Você é linda, mas não tem talento. Então, se não vier o ibope, tchau. Pra modelo mesmo, da moda, você não tem mais idade. Pense bem. Aqui no Brasil, nenhum executivo de multinacional, mesmo com o que possa levar por fora, ganha isso que você vai ganhar. E você só precisa ser discreta. A discrição é o seu dote.”

“Preciso pensar. Tenho uma mãe doente. Preciso cuidar dela.”

“Tá bom. Simpática, sua mãe. Ela sim, vivia num outro mundo, inocente, crédulo, santinho.”

“É o que você pensa: traiu o meu pai durante vinte anos.”

“Então você tem a quem puxar. É atávico.”

“O que é atávico?”

“Nada. É como aids. A mãe passa de um pra outro.”

“Credo, Adroaldo. Fala assim, não! Meu pai bebia, batia na gente. Minha mãe precisava de um ombro, de um amigo.”

“Tá bom. Não falo mais. Mas se você aceitar a proposta, vai precisar ter muito cuidado com esse ombro. Não é qualquer um que terá o direito de chifrar a bichona. Terá de ser um cara discreto, discretíssimo, confiável. Like me.”

Fernando Portela é jornalista e escritor. Autor do livro “O Homem dentro de um Cão”, Editora Terceiro Nome, São Paulo, 2007. Mantém o blog http://fernandoportela.wordpress.com. Contato: fatportel@gmail.com.