domingo, 11 de abril de 2010

Casanova em sua treva











Fernando Portela*

Doralice achou que me enganaria. Pode até acontecer, mas é difícil. Ela possuía lábios grossos, a pele murcha, era baixa e ancuda: o oposto de sua autodescrição. Chegou ofegante, com um tesão de anos. Eu fiz como sempre: toquei-a com a ponta dos dedos, primeiro o cabelo, depois orelhas, o nariz, a boca e demorei-me bastante no pescoço, manuseando cada centímetro quadrado da sua carne velha. Ela estava com pressa e logo se insinuou, tocando-me intimamente, mas, com gentileza, afastei-me dos seus dedos nodosos e da acidez demasiado elevada do seu hálito.

Após o que, dei-lhe as costas e voltei à poltrona. Ela deve ter estranhado a minha agilidade. É engraçado: sem que a pessoa diga uma palavra, emita um pequeno som, um resmungo que seja, eu sei exatamente a cara que faz. Ela fez uma expressão de espanto. Como, um cego tão lépido?

“Ora, Doralice”, disse-lhe algum tempo depois, “eu conheço o meu quarto de cor. Não lhe parece lógico que eu me mexa nele com toda essa desenvoltura?”

“Não falei nada...”

“Mas pensou.”

Uma pausa.

“É verdade, pensei. Você, além de cego, é adivinho?”

Ela estava decepcionada. Não ganhou nem um beijinho. Suspirou, chegou-se bem junto a mim, sentando-se no braço da poltrona. Tomava coragem para tocar no assunto. Levou um pouco mais de tempo; até me ofereceu café e eu aceitei. Nisso era um fracasso, também: fraco e com pó no fundo.

“Sou tão carinhosa...”, ela foi dizendo, “mas você me afastou na hora em que me cheguei.”

“Doralice, vou ser sincero. Sei que é uma bosta ser sincero. A gente afasta as pessoas. Mas é o seguinte: ando brocha.”

Mais uma pausa. Vi com meus olhos mentais que moscas voavam pelo quarto. Devia haver alguma comida ou frutas fora da geladeira. Quando se vive sozinho e se é cego, alguns detalhes escapam. Poucos, no meu caso. Mas não consegui “ver” a expressão de Doralice. Arrisquei, para mim mesmo: vai insistir, vai dizer que é capaz de me deixar excitado. Errei.

“Você não está brocha, Leomar. Você não gostou de mim. Não me achou bonita. Você me leu com as mãos. Pensa que não percebi? Depois...”

A voz dela passou a revelar emoções fortes. Estava quase chorando.

“... você comeu a Clarisse anteontem.”

“Doralice, não apele! A Clarisse é casada e me ajuda. Ela lê pra mim uns romances, umas histórias. Ela faz caridade...”

“O catso! Todo mundo sabe. Ela entra aqui dizendo que vai trepar. Acho que até o marido sabe.”

“Seu João pode me matar, Doralice, se essa calúnia se espalhar por aí. Pare com isso. Se você acha que é assim, guarde pra você.”

“Ela é uma puta. Pensa que dá só pra você? Pior cego é o cego mesmo, sabia?”

“Nunca toquei num fio de cabelo de dona Clarisse, Doralice. Sou um pobre cego, um merda, um homem inútil na vida...”

“Agora faz papel de coitadinho. Se você quer saber, Leomar, você virou artista de teatro. Olha, a Clarisse esteve aqui uma vez, para trepar com você, e trouxe quatro amigas. Elas se apertaram aí no seu quarto e viram tudo. Clarisse cobrou delas, sabia? Dizem que foi um negócio do outro mundo. Não sei se houve outras vezes.”

Fiquei gelado, e uma palidez total deve ter me tomado o rosto. Doralice chegou a me oferecer um copo d’água. Não aceitei. O pior é que me lembrei muito bem daquele dia fatídico: primeiro Clarisse queria transar de janela aberta, certamente para acomodar melhor a platéia, e eu não deixei; sempre fui recatado na minha vida sexual; depois, senti alguns ruídos dentro de casa, e aí ela me falou de uma ventania, de uns objetos que haviam caído no chão, mas na verdade eram as amigas-platéia se mexendo dentro dos meus aposentos. Mas o meu tesão por Clarisse era muito maior do que essas estranhezas. E foi assim que me transformei num ator de teatro pornô, ao vivo. Que vergonha, meu Deus!

Doralice sentiu o meu abatimento e procurou consertar o estrago. Talvez gostasse, realmente, de mim.

“Não fique se culpando, Leomar. Você é cego. As pessoas podem lhe enganar facilmente. Antes de você conseguir a pensão do governo, quando você pedia esmola, aquele seu guia, o Geraldinho, você lembra?, roubava muito você.”

“Eu desconfiava...”, disse, arrasado.

“Mas, Leomar, você não está só no mundo, não. Eu, pelo menos, gosto de você. E não sou casada nem filha da puta.”

Pronto. Ela havia chegado onde queria. Primeiro me destruía, depois se oferecia como solução. Mulheres. Pensei na escrota da Clarisse. Veio se oferecer para me ajudar. Eu deixei que ela me lesse romances. Mês depois, já vinha com uma história cheia de lances eróticos. “Eu não me incomodo de ler”, disse a falsa. Mais algum tempo, ela lia as sacanagens me fazendo carícias. Daí pra cama foi um pulo. Mas cobrar das amigas para me ver transando era demais! E o marido? De repente, seria morto sem desconfiar, sequer, de onde vinha o tiro. Na minha vida de cego, muitas mulheres se haviam aproveitado da minha condição, mas eu também tivera as minhas alegrias. Uma troca. Agora, com aquela ali, era outra coisa.

“Diga-me, Doralice”, eu falei, “como posso ter certeza de que você é sincera comigo, de que não vai cobrar entrada se por acaso, um dia, eu fizer amor com você? ”

“Porque eu amo você, bobão.”

‘Quem amaria um cego?’, pensei. ‘Uma mulher feia, talvez’. E aí passei minha mão direita no rosto de Doralice, demorando-me um pouco sobre seus lábios carnudos. Talvez não fosse tão horrenda assim.

*fatportel@gmail.com