domingo, 11 de abril de 2010

Guerra ao Terror e Avatar: confronto ideológico











Eduardo Sabino*

Passado o furor do Desfile do Oscar, uma surpresa alegrou (pseudo)intelectuais pelo mundo afora: a superprodução Avatar, de James Cameron, foi desbancada por Guerra ao Terror (The Hurt Locker), filme de baixo orçamento, dirigido por Kathryn Bigelow. Aliás, a premiação deste ano, para alguns estudiosos, representou uma espécie de democratização da cerimônia, já que Bigelow foi a primeira diretora a ser agraciada com a estatueta. O “feito” chamou a atenção até do Vaticano, que comparou o triunfo de um filme modesto sobre a “quimera 3D” à vitória de Davi sobre Golias. Para além dos quesitos “técnica” e “orçamento”, vale investigar os conceitos trabalhados nos dois filmes. Arrisco que chegaremos às causas dessa surpreendente premiação (ou promoção) de Guerra ao Terror (ou da guerra ao terror).

“O cinema é uma guerra de ideologias”, lembra o filósofo Zizek. No confronto entre Avatar e Guerra ao Terror, em especial, as ideias são inversamente proporcionais. Avatar é a crítica negativa das invasões dos Estados Unidos e mostra o olhar do invadido. Guerra ao Terror é a crítica positiva das ocupações militares americanas e mostra a visão do invasor. Efeitos especiais à parte, são duas produções políticas. E o José Wilker, com as pernas cruzadas em pose cult, dizendo que o filme “engana pela beleza”, “é bonitinho, mas fora da realidade” e coisas do gênero, não me fará mudar de opinião.

A ficção científica sempre foi a mais poderosa via de análise da realidade. Produções literárias como 1984 e Admirável Mundo Novo saem do que chamamos de mundo real para satirizar a vida humana. Um olhar profundo de fora – ainda que seja de um mundo completamente imaginado – tem poder de impacto sobre os que estão dentro.

É assim com Avatar. Na crítica da obra, muitos se concentraram em alguns clichês típicos das produções do gênero (dos quais o filme não escapa), mas não conseguiram flertar com os lugares incomuns, os mais subjetivos.

Em Avatar, Jake Sully (Sam Worthington), um fuzileiro naval paraplégico, é convocado para uma missão em Pandora, um planeta paradisíaco e repleto de perigos. De início, Jake se une a um grupo de cientistas com a missão de estreitar as relações com os habitantes de Pandora: os na’vis. Para respirar no planeta e se aproximar da comunidade extraterrestre, os cientistas criam avatares, corpos produzidos por meio da mistura do DNA alienígena e do humano. Apesar do interesse antropológico, a missão só é financiada pelo governo porque os na’vis são o único obstáculo para a exploração de Pandora. Jake vira uma peça estratégica, por ser aceito na comunidade alienígena como aprendiz.

A saga de Jake é uma verdadeira travessia cultural só comparada à do oficial civil de Dança com Lobos. Ao aprender a enxergar com o olhar do outro, ele toma para si os valores dos na’vis e passa a negar os ensinamentos do mundo ocidental. O avatar soa como metáfora da transformação do protagonista. No começo, é um corpo estranho, ao final, a nova identidade de Jake.

As referências às invasões americanas perpassam pelo filme. O vilão, uma figura satírica de George W. Bush, declara a guerra à Pandora como guerra ao terror. O objetivo da missão, apesar das boas intenções dos missionários cientistas, é extrair um recurso natural raro e lucrativo encontrado em Pandora (alusão ao petróleo do Oriente Médio). A impressionante queda da árvore-mãe de Pandora, bombardeada pelos militares, remete à queda das Torres Gêmeas. Talvez resida aqui um golpe magistral à suposta justiça da guerra ao terror. Quantas Torres Gêmeas alheias já caíram nas empreitadas americanas?

Vamos à ideia dominante: Guerra ao Terror mostra a tensão de um grupo de soldados dos Estados Unidos enviados para desarmar bombas e antecipar ataques terroristas em Bagdá. O foco da trama é o destemido soldado Willian James (Jeremy Renner), um dasarmador de bombas que tem amor pelo ofício e, por isso, frequentemente coloca em risco os membros de sua equipe.

Se até meandros do filme, James é apresentado como uma figura controversa, logo surgem as tentativas de construção heroica. James cria laços de amizade com uma criança iraquiana e, ao suspeitar da morte dela, conduz sozinho uma arriscada investigação noturna. Em outra cena, James está diante de um civil repleto de bombas no corpo. Ele ignora os gritos dos companheiros e arrisca a vida, tentando, até os últimos segundos, desarmar a bomba. Na cena que resume os sentidos da obra, as imagens do passado de James: após ler uma notícia sobre a morte de inocentes no Iraque, ele resolve partir para lá, deixando esposa e filho (Alá esteja com ele).

Não foi a câmera ágil e um tanto experimental, conforme arriscaram alguns, que deram o Oscar de melhor filme a Guerra ao Terror. Nesse critério, Distrito 9, outro indicado, arrasaria qualquer concorrente. O filme de Bigelow é uma panfletagem das missões norte-americanas. O olhar “inocente” da diretora vê as ocupações do Iraque como um trabalho humanitário, realizado com coragem por jovens soldados e com o único objetivo de proteger a população. Assim a diretora deu legitimidade às mais de 800 bases militares do EUA espalhadas pelo mundo, e ainda recebeu o Oscar por isso.

Colocados os pingos nos “is”, quebremos o senso comum das análises dos rivais do Oscar. Avatar é uma superprodução que caiu nas graças da indústria cultural, mas tem alma, seu conteúdo subversivo passa longe dos olhos mais superficiais. Guerra ao Terror ganhou o Oscar por causa de outra alma, a do negócio, a propaganda política.

A estatueta dourada ainda soa para a massa como um atestado de qualidade. Por isso, em países como o Brasil, o filme foi levado para os cinemas depois de estrear nas locadoras. Guerra ao Terror dá nova leitura a um conflito desgastado na mente da opinião pública mundial e ajuda a dar fôlego a um presidente que prega a paz mundial, mas não abre mão de suas ocupações militares. Aliás, pelas belas atuações, o próprio Obama deveria cortar o serviço de terceiros e se candidatar ao Oscar.

*eduardosabino1986@yahoo.com.br