sábado, 10 de abril de 2010

O poeta é um ourives











Joaquim Moncks*

Entendo que é necessário não confundir os dois momentos da criação literária, segundo a concebo e assim ela se perfaz em mim.

Esse primeiro instante, repentino, inusitado, em que as ideias fluem sem avisar, quase sem a participação da vontade de seu autor, é a inspiração. Nessa fase da criação predomina a emoção.

O que tenho ressaltado aos autores novos é o segundo momento da criação artístico-literária, no qual predomina a intelecção, a que alguns teóricos chamam transpiração. É nesse que o autor é um verdadeiro ourives: burila, cinzela a pedra preciosa (a palavra), procurando, com ela, melhor expressar as ideias, buscando o ritmo, a sugestionalidade, a transcendência, a beleza estética que leva ao alumbramento ou encantamento do leitor.

Para chegar a isso, o autor escolhe vocábulos, buscando com estes, revelar o sentido conotativo, através do uso de metáforas, metonímias, sinédoques e outras eventuais figuras caracterizadoras da linguagem poética. Sem essas, a Poesia não se configura. Nesse caso, temos meros versos, sem Poesia...

Em boas e simples palavras: é necessário re-trabalhar o texto criado no primeiro instante, o da inspiração.

Só após a conclusão desses dois momentos estará completo o processo de criação literária em Poesia. Só então a peça (com Poesia) se materializará no poema.

Este é o crucial desafio para o poeta: perceber que o poema dificilmente vem pronto e acabado. Porém, os iniciantes não realizam o processo completo: ficam na inspiração e deixam de cinzelar a pedra preciosa.

Muitas vezes, o poema está quase pronto desde o primeiro momento, porém é necessário perseverar no desafio que a palavra encerra. Compreendes?

– Do livro "Dicas sobre poesia", 2009/10.
Publicado também no Recanto das Letras

*joaquimmoncks@gmail.com