sábado, 10 de abril de 2010

O troco











Márcio Almeida*

"Virá o dia em que a matança de um animal será considerada crime tanto quanto o assassinato de um homem" - Leonardo da Vinci

- Já que a maioria foi extinta, convoque seus fantasmas, e vamos à luta!

- Já que agora todos não passam de retratos na parede, e não chegam nem a doer em muita gente, como pretende reuni-los? E com que objetivo?

- Se já não existem, resposta alguma faz diferença, concorda?

- Você quer reunir o que não existe para nada?

- Para provocar um tardio efeito moral planetário.

- Com fantasmas e recordações?

- Pode ser, mas fantasmas metem medo e juntos comprovam abusos irreversíveis. Agora, o que não existe mais vai desaparecer para sempre.

- Onde foi que você errou?

- Na concessão de excesso de livre arbítrio. Talvez...

- Você tem prova de que realmente é o fim? The dream is over?

- Tenho provas oníricas, como Bachelard. Ou seja: fatos que comprovam a vontade de fazer acreditar.

- E começamos por onde?

- Pelas fotos de livros, as imagens de documentários, as toalhas, as ilustrações e sacolas escolares, as roupas de crianças, as tatuagens.

- É suficiente?

- Inclua todos da Arca de Noé, os bestiários, as miniaturas.

- O que mais?

- Use a imaginação. Convoque os fósseis, os que morreram de inanição ou de medo em desfiladeiros, topos de montanhas, fossas abissais. Os que foram abortados e se possível todo o reino animal que alimentou os homens em todos os tempos. Os que foram banqueteados em orgias do consumo. Os que viraram restos nos lixos do desperdício e mesmo os clones.

- Todos então?

- Sem exceção. Os galos de briga. O gato de botas. A gata borralheira. O lobo mau. O cavalo de Troia. O leão da Metro. A Twenth Century Fox, o homem aranha, a aranha negra, King Kong. A chita. A mosca. A Lassie. Rin Tin Tin. O Dumbo. O pato Donald. O pateta. As bolas peludas de Stars War. O cavalo branco de Napoleão. O corcel de Apolo. Orca, a baleia assassina. A pomba-espírito-santo. A pomba-gira. A águia de todas as bandeiras. As tartarugas ninjas. A gata Bundinha, do Paulo Francis. Os 101 dálmatas. O cão de Baskerville. Snuppy, Marley, Vagabundo e Banzé, Bidu, Simba, Fofão, Pluto, Totó, Scooby-doo, Marlim, Garfield, Bambi, o pica-pau amarelo. Convoque Cérbero, Skoll, Argos e Hokou. Algumas plantas carnívoras, pois são animais verdes. Os dragões. Os que serviram de comida aos próprios bichos, os que jogaram pérolas aos porcos, as bestas do apocalipse, as evocações feitas em seus nomes pelos mitos e em canções folclóricas. Os que povoaram as histórias em quadrinhos, os que, como Mickey, viraram filmes e construíram impérios, os que deram moral às fábulas, os aéreos, os subterrâneos, os rastejantes, os visíveis somente em macroscópios, os que transportavam riquezas no lombo, os auros e os ópteros, os que vieram de outro mundo.

- Mesmo os inofensivos?

- Sobretudo os que foram pisados, humilhados por causa de sua suposta insignificância, os perus natalinos e os pobres de efemérides, o pavão misterioso, o escorpião escarlate, a hiena, que come merda e ri, dromedários tuaregues, os ratos de esgoto, a cabra cega, as cobras dos faquires, os assassinados por aerossóis, os enjaulados em circos e zoológicos, porque, disse-o Olegário Schmitt, “o circo ensina as crianças a rir da dignidade perdida dos animais”. Traga à forra os imolados em propiciatórios como os cordeiros, os que foram mortos pela velocidade em rodovias, os que foram caçados em temporadas e em pleno acasalamento, os empalhados e expostos em museus, as cobaias de laboratórios experimentais, os que serviram de isca, de tapete, de roupa sofisticada, os que foram modelos para comparações bestas e monstruosas. Convoque também as bestas e os monstros. Convoque os que foram usados em sentido pejorativo e no jogo do bicho, os que perderam sua identidade ao se tornarem números em shows da vida, os cães danados, as cadelas, as piranhas e as galinhas da boêmia, as vacas-mulheres, os veados-homens, os cornos-homens, as cobras-sogras, os alunos-burros, os agiotas-morcegos, os amigos-urso, os amigos-da-onça, os bêbedos-gambás, os príncipes-sapos, os políticos-ratos, tudo que couber nas reticências e no etc.

- Parcerias?

- Com os que viraram bolsas de jacaré e visons, os amuletos de pés-de-coelho, os pés-de-cabra, os que constaram em menus de restaurantes exóticos, os lobisomens, as mulas sem cabeça, os gatos escaldados, as pragas de urubus magros, os papagaios de pirata, os que pagaram mico, os que arrastaram asa, ouviram cobras e lagartos e conversas pra boi dormir, os que ficaram com a parte do leão, os que comeram gato por lebre, os que procuraram chifre em cabeça de cavalo, os que deram milho a bode, os que ficaram como baratas tontas e com a pulga atrás da orelha.

- Mais alguns?

- Com certeza. Convoque todos os heróis músicos – Marsias, Orfeu, Dionísio e Osíris – que morreram despedaçados pelos dentes das feras. Mesmo as zebras, convoque-as, para não dar zebra.

- O que fazer primeiro?

- Comunique-se com todos na mesma linguagem, com o mesmo tom de voz e, com cada um, use seu próprio idioma. Depois então azoine, zine, zizie, zoe, zonzongue, zumba, zumbre, zunza, grasne, cachoe, trapeje, crocite, rufe, chie, chilre, gorjeie, bale, muja, trisse, pie, retine, bigongue, martele, calre, relinche, berre, ruja, zorne, azurre, trine, bufe, trisse, estridule, bodeje, arrue, rebusne, barregue, bezoe, grunhe, chilide, cuinque, esganice, berregue, arense, guizalhe, sibile, arense, silve, corveje, cucule, turturine, bacoreje, grazine, rebrame, mas não fale.

- Com quem poderia falar? Com a Rede Globo? A National Geographic? Afinal, será “o” evento. Alguém registrará o fato para povos a zilhões de anos-luz da Terra. Como a natureza, este acontecimento não dará duas safras. Há de?

- Fale somente com os amanuenses naturais: resgate as referências diurnas e noturnas de Rugendas, Von Martius, Antonil, Humboldt, Saint-Hilaire. Fale com os versos dos poetas criadores do zoológico no céu, os graviteiros de cavernas trogloditas, os inventores de Ícaros, Pegasus, minotauros, os prestidigitadores que transformam lenços em coelhos, os engolidores de cobras. Convoque a pena sacra de Philippe de Thaon, no século XII, e a de Richard de Fournival, o primeiro a escrever um bestiário profano; o Guillaume Apollinaire de O bestiário ou cortejo de Orfeu, Kafka, por certas parábolas, Jorge Luís Borges e Julio Cortázar, que amaram as espécies com estranhamento encantatório. Ah!, impossível e injustilíssimo não incluir o Bachelard de A Terra e os devaneios do repouso, pois, dentre muitas lições, ensinou que se pode arrepender por não se estudar, no momento oportuno, as imagens literárias do verbo formigar, porque, disse o mestre, a uma realidade que formiga está ligada uma imagem fundamental, uma imagem que reage em nós como um princípio de mobilidade. Inclua, por igual competência, Gilbert Durand em razão do seu As estruturas antropológicas do imaginário, onde conclui que após o imaginário ser o conjunto das imagens e relações de imagens que constitui o capital pensado do homo sapiens, chega-se às metáforas de base, à pobreza essencial , uma espécie de liberdade que pensa para agir pela transformação, a mudança. Nem pense em deixar de fora A revolução dos bichos, de George Orwell. Putz! Este livro é o bicho, animal! Ponha em sua lista Tigre no espelho e Os filhos da esfinge, do amazonense Adrino Aragão; O corvo, de Edgar Allan Poe. Um inteiro Guimarães Rosa, que descobriu, em convívio, que boi fala o tempo todo. O Jaguadarte de Lewis Carroll/Augusto de Campos. Três tristes tigres, do Cabrera Infante. O bestiário, de Abelardo de Carvalho. Não se esqueça nem da Pulga, de John Donne, porque ela mescla “o sangue de nós dois.”

- Você é a favor ou contra o veganismo? O que será dos bichos em um mundo vegano?

- Não será, pois já não existem bichos, homens, mundo.

- Li que o mundo duraria 6 minutos sem o comando do homem. O homem duraria, porém, quanto tempo, sem a presença de nenhum outro animal?

- Foram uns 30 milhões de anos para montar um paraíso, alguns instantes para vê-lo destruído pela falta de bom senso. Ainda bem, meu caro, que o universo é infinito.

- Qual a causa disso tudo?

- O homem não aprendeu a por em prática os valores abstratos.

- Sugere alguns argumentos irresistíveis...?

- O discurso da mulher no cio, quando quer fazer mais uma vítima do seu amor. A retórica de que o exército final da fauna terá o poder do besouro-rinoceronte, capaz de erguer 12 toneladas. A espertise do mico musaranho pigmeu, pequeno mas astuto. A lenda poderosa de que a barata pode sobreviver à explosão nuclear. A inferência de Jung de que pássaros, peixes e serpentes são símbolos fálicos. O canto da sereia e da iara. A lábia da raposa. O charme do boto. O suvenir poético de Vicente Huidobro de que “a noite recolhe suas unhas como o leopardo.” A relembrança de Manuel de Barros de que “os sabiás divinam”, e, por isso, poderão dar uma eficaz cantada literária. Pitágoras, por ter se lembrado de ter sido peixe-mudo. O estrume fértil das metáforas barrocas de Ver de boi, de Paschoal Motta. O que escreveu Jean-Jacques Rousseau em Émile. A constatação manuscrita de Jean Cocteau de que “a tinta [que utilizo] é o sangue azul de um cisne”. A convicção guerreira das ovelhas negras, porque elas sofrem solidão. A resignação melíflua das abelhas operárias. A estratégia pisa-em-mim-que-eu-te-fodo da água viva Sea wasp, pela toxina presente em seus tentáculos. Acrescente Konrad Lorenz: “Aquele que conhece verdadeiramente os animais é por isso mesmo capaz de compreender plenamente o caráter único do homem.” E Axel Munthe: “O animal selvagem e cruel não é aquele que está atrás das grades. É o que está na frente delas.”

- Mas e um argumento assim...irrecusável, genuinamente aliciador, perfeito como dizer tudo com o silêncio ou com um olhar 3X4?

- Use Pitágoras: “Os animais dividem conosco o privilégio de terem uma alma.”

- Mais unzinho só.

- Milan Kundera: “Esse direito – o de matar um veado ou uma vaca – nos parece natural porque nós estamos no alto da hierarquia. Mas bastaria que um terceiro entrasse no jogo, por exemplo, um visitante de outro planeta a quem Deus tivesse dito: Tu reinarás sobre as criaturas de todas as outras estrelas, para que toda a evidência do Gênesis fosse posta em dúvida. O homem atrelado à carroça de um marciano – eventualmente grelhado no espeto por um visitante da Via-Láctea – talvez se lembrasse da costeleta de vitela que tinha o hábito de cortar em seu prato. Pediria – tarde demais! – desculpas à vaca.”

- V. não é dado ao pensar feminino. Não citou uma mulher sequer.

- Não seja por isso. Minha amiga e atriz Ellen DeGeneres, certa vez me disse em um jantarzinho amigo e light à base de bons capins, gurujuba e vinho, quando tomamos umas & ostras: “Costumo perguntar às pessoas por que elas têm cabeças de veados na parede. Elas sempre dizem que é porque é um belo animal. Bom, eu acho minha mãe muito bonita, mas apenas tenho fotografias dela.” E agora chega! Vá à luta!

- Está certo, mas me diga só mais uma coisa: como é que farei para anunciar tudo isto de uma só vez para o que resta do mundo?

- Fácil e sem problema. Faça um edital e o espalhe pela internet, rádios, televisões, jornais, revistas, pombos-correio. E embaixo ponha meu nome: Deus.

*Márcio Almeida é poeta, contista, professor universitário, jornalista, crítico literário, detentor de vários prêmios nacionais de literatura e autor de 39 publicações no Brasil e exterior: “Assassigno”, “Falúdica”, “Lápis Impuro”, “Oficina de Nomes”, “Mel Perverso”, “Paixão”, entre outras. Contato: marcioalmeidas@hotmail.com