sábado, 1 de maio de 2010

"Captar a alma" em poesia











Joaquim Moncks*

É relativamente fácil perceber o que o autor quis dizer, acaso ele tenha sabido exprimir-se metaforicamente em palavras, em linguagem figurada, portanto. É só parar pra pensar sobre o poema e fruí-lo.

Se ele estiver bem acabado e contiver alguma sugestionalidade e transcendência, perfaz-se o caminho emocional e intelectual do poema. A peça perviverá como objeto estético e de alumbramento para todo o sempre. É o que acontece com obras que contam milênios de existência e sempre nos encantam...

Porém, se a obra não apresentar os elementos característicos do gênero poesia, formalmente, não se terá radicado como peça poética e, sim, como mera expressão de comunicação escrita em linguagem direta, muito longe do que compreendemos como expressão poética. Esses escritos são imensamente fáceis de ser entendidos. E só isso, porque nem necessitam ser compreendidos. São de uma natural obviedade...

"Captar a alma" não é algo pra ser explicado, e, sim, sentido. E o "inexplicável", principalmente em poesia, à hora dos comentários, se resume em uma ou duas linhas. O restante que se escreve é apenas juízo de valor sobre a validade ou não da obra. Abrir o poema é reduzi-lo ao nada...

A tarefa a que me dedico é a do analista crítico, daí a natural dissecação. Mas é esse feeling diferenciado que permite alguma isenção quanto à obra. O "cerne" da instigação literária nunca é o do autor, porque este, particularmente no gênero poesia, nada escreve. Quem o faz é o seu alter ego. E este, porque não está permanentemente vivo (somente quando lhe é dado o direito de viver e falar), não necessita de loas, de elogios.

Mas compreendo que é mais agradável não parar pra pensar sobre o que se apresenta aparentemente difícil e não se conhece os cânones usuais...

A Poesia é tridimensional. Usualmente, nasce mais ou menos assim, seguindo um itinerário até o plano consciente da memória: a percepção sensitiva do fato no plano do real; o relato sobre o fato vivido ou fantasiado; os véus sobre a palavra, no texto criado, pra não relatar o fato como ele aconteceu e, sim, na visão idealística do alter ego do autor. Porém este não vive no plano da realidade, porque é criatura haurida do espiritual, do imaterial, vivendo por obra e arte.

O poema nunca tem a alma do autor, porque personagem e autor nunca serão os mesmos, ainda que o autor imagine que se estatelou no mundo da palavra e por ela, vive. O personagem criado, e que fala normalmente no “Eu”, não é o ego do autor, e, sim, o Outro Eu.

E o que é pior: o autor pensa que o criticado é ele, que nem mais existe depois da obra andar no mundo, somente para os efeitos de direitos autorais... E fica amuado, contrafeito, se a análise crítica lhe for desfavorável.

Crítica literária não pode ser confundida (embora exista a corrente crítica psicoliterária) com análise psicológica da figura do autor. Para o bom criador, a crítica é vista como análise ocupacional.

Bem, aí está a diferença entre os diletantes e os consagrados, que têm os seus personagens guindados à imortalidade. Como o autor é a figura aparente, criador e criado se tornam, também, imortais.

– Do livro "Dicas sobre poesia", 2009/10.
Publicado também no Recanto das Letras

*joaquimmoncks@gmail.com