domingo, 2 de maio de 2010

Cidade verbal











Eduardo Sabino*

Largaram o verbo atrás da Serra do Curral. De lá o coitado tentou fugir do mundo, pegando carona no sol. Com jangada de pedra conjugou-se tempo, até descer com a água das chuvas para o asfalto.

Passou por entre os carros na Nossa Senhora do Carmo, misturado às balas, cuspindo fogo, mas os vidros permaneceram fechados. Para chamar a atenção, escondeu nos olhos de sujeitos de um metro e meio. Alguns vidros se abriram e objetos caíram direto nas mãos pequenas.

Mas o verbo, pequenino, queria mesmo era dizer.

Então subiu o morro, entrou no barraco, chegou na hora sagrada da refeição. Entrou pelos ouvidos, saiu por outros, atraiu-se pelo grito de uma mulher. Afogou em pancadas, com a dita cuja, por infiltrar no sangue da terceira pessoa. Singular morena, do corpo surrado, como diria os gringos, o Brasil é legal __ para todos, legal.

Mas o verbo pequenino não queria ver. Queria era percorrer.

Desceu o morro, subiu aos prédios. Foi cuspido pela boca do homem, tomou forma de faca. Entrou no coração do adolescente, saiu escorrido em lágrimas no travesseiro.

Então o signo-verbal desceu desalentadamente, alado pelo diabo, caiu em ponto, tomou o coletivo. Passou espremido por entre os corpos, escorregou na bengala tremida, sumiu por baixo da roleta.

Saiu debaixo da saia, pulou na caixa de balas, foi sugado pela língua seca e saiu decorado. Passou de cansa pra câncer, de câncer pra ânsia, de ânsia pra esperança e desceu no centro.

Mal tocou a calçada e foi pisoteado. Escapou na corda, lançado no jornal que acorda o dia. Encontrou amigos empalhados, vendidos a 25 centavos para leituras corriqueiras de coisas permanentes.

Quer ser lido ali no meio, encara o cara que olha pro nada. Nada nas ondas de cabelos loiros artificiais. Segura a franja e balança para os olhos verdes, e nada.

Em frangalhos vai à Pena, onde se traveste de adjetivo. Mais vale, quem sabe, um adjetivo no ar, do que um verbo pisoteado? Agora lhe enxergam e lhe xingam. Veem-no, mas não podem lê-lo.

Leva socos no âmago dos signos. Distorcem-no, enforcam-no, todas as pessoas, pelas costas da terceira pessoa do plural, participam da surra.

Sobrevive. Levanta, sacode o Pereira, dá a volta pelo Silva. Serve da língua afiada do motorista para alcançar os ouvidos do motoqueiro. Dali de cima, vendo as ruas passar como um texto sem contexto, sonha em pilotar e costurar as almas como as motos, o trânsito.

De boca em boca, chega à Pampulha. No silêncio das caminhadas e bicicletas vai adentrando no lago. Dessa vez, tomado pelo assombro da lua, que pousa sobre a cidade sem ousar tocá-la. Logo o verbo que se toca, salvo pelos resmungos de um sujeito oculto.

Toma-lhe de empresto, acompanhando-o na correria até prestar queixas do visto. Dói-lhe o cacetete nas costas do moleque. Foje. Vai do quer que haja, ao que quer que não houve, permeia as migalhas do hoje, mas quer no subjetivo o presente do subjuntivo: que você aja?

Vai parar, tomado pela voracidade do couro, em arena esportiva de Belo Horizonte. Ricocheteia de cara em cara, retumbante nos peitos azuis e brancos, brancos, pretos e amarelos.

Na multidão nem se sente sozinho. É hino, é raça, graça paga com suor e sangue. Passados 90 minutos, o vocábulo, encabulado, é só soluço. Viu o quanto era maldito. Não quer mais encarar, quem não lhe pode ver. Sob luar, escorrega no silêncio dos namorados, compartilha adeuses analfabetos.

Toma o metrô, cai pelos cantos da Praça da Estação, por onde está e nunca esteve. Acorda embriagado na boca do mendigo. Quer voltar a dormir, voltar pros sonhos do pedinte, onde conjugava o mundo sem dizer.

Sai cambaleando até um táxi. Vai da boca do engravatado para o monitor do notebook. Experimenta o não lugar, quase esfarela em bits na linguagem pictórica. Escapa da tela agarrando flores virtuais, salta do carro, cai em cambalhota de alívio, de volta ao odor das calçadas.

Cansado de verdades não ditas, dá voltas na cidade, impulsionado pelos gritos do palanque e cai, de novo, no ovo da Serra do Curral.

Agora, o verbo é pura aliança com o silêncio. Na visão panorâmica do texto urbano, espera a mudança das subordinações, a revolução das pessoas. Sonha ainda em dizer. Quer transformar o sujeito simples em sujeito determinado, ir além dos tempos e mágicas enganosas.

A semente verbal somente queria dizer. Estava convicta: aquilo não passava de uma frase difícil.

*eduardosabino1986@yahoo.com.br