sábado, 1 de maio de 2010

Epitáfio











Eduardo Sigrist*

Nunca vou me esquecer do dia em que olhei para o rosto dentro do caixão. Era eu mesmo lá, deitado, sem sequer um travesseirinho, e com um ridículo algodão nas narinas. Calma, leitor. Não vou usar a pérfida artimanha de escritor sem imaginação e, ao final da história, dizer que tudo era sonho. Não quero subestimar sua inteligência. Era eu mesmo ali, mortíssimo, já fedendo, e não era sonho. Tanto era verdade que, se você quiser, posso lhe mostrar os calos na mão que brotaram na hora em que carreguei o caixão. Devia ter feito a dieta do Dr. Atkins.

Morri e, com a ajuda de alguns desconhecidos, enterrei a mim mesmo naquele dia. Foi tranquilo, sem chuva, sem choro. Todas as mortes deveriam ser assim, com o mínimo de drama possível. Eu sei, é fácil dizer isso quando o defunto é um ser imprestável como eu, que não fará falta a ninguém, ainda mais quando ele continua por aí, como um morto vivo de filmes B. E o pior, escrevendo bobagens. Mas não sou um morto vivo (e nem estou querendo parafrasear ou tentar imitar o inimitável colega Brás Cubas). Estou vivo. E talvez, com meu sepultamento, eu tenha enterrado junto o mínimo de verossimilhança que deve haver numa obra literária. E eu com isso? Já morri e continuo vivo. Só esse fato inaudito me exime de dar explicações sobre qualquer coisa e de respeitar qualquer regra que o ser humano tenha criado.

O que importa é que não houve choro. Ainda melhor, eu mesmo não chorei. Ora, por que haveria de? Sempre fui uma pessoa fraca, pusilânime. Passei a vida toda chorando por besteiras, e também pela morte de tanta gente. Chega! Tem uma hora que até a tristeza cansa. E a felicidade. Rir, chorar. Ha, ha, ha! É só isso a vida?

É claro que não posso comemorar minha morte nem a continuação de minha vida. Sinto-me um tanto perdido. Se antes eu não sabia quem era, imagine agora, tendo de conviver com a consciência de um vivo e de um morto. Pensando bem, acho até um pouco injusta essa história. Eu não podia ter morrido como todo mundo? Bye-bye, Brazil! Adieu, Casablanca! Acho que devo ter perdido algum clichê. Se pelo menos minha morte fosse metafórica, se eu pudesse dizer que naquele dia havia sido enterrado o bancário, para nascer o escritor. Mas não, para tanto não me ajudaram engenho e arte. Mesmo na morte sou conotativamente um zero à esquerda em conotações. Continuo bancário incompetente, um burocrata com aspirações literárias que não passarão de decepções, cuja principal obra talvez seja um cartão de ponto bem batido no final do mês. Sem erros de concordância. E assim vou levando a vida, burocraticamente, esperando o dia de bater meu ponto definitivo, morrer pela segunda e última vez. Para quem for carregar meu corpo, prometo perder uns quilinhos.

E aqui termina meu conto.

− Como assim? Sem uma trama envolvente, sem um desfecho inesperado, sem qualquer palavra relevante, enfim, sem tudo, sem um único com?

Sim, assim mesmo, pobre leitor. Se nem a morte conseguiu dar um fim a alguém como eu, dessa raça de sonhadores que não realizam nada e vivem babando letras oníricas, imaginando a obra-prima que jamais será escrita, então que fique este conto sem fim nem começo como o epitáfio de um escritor que não nasceu. Volte para a leitura de seu Faulkner, de seu Guimarães Rosa. E desculpe-me por tomar seu tempo. Quanto a mim, vou agora ao cemitério, antes do meu expediente lá no banco. Sem arrependimento nem mágoa, estou levando um vasinho de violetas para o que aqui jaz.

*eduardosigrist@gmail.com